Capítulo XIX

1086 Palavras
Brenda O interfone tocou e o som se reverberou por toda a casa. Não sabia que era possível escutar um barulho tão alto e tinha pena de quem morava ali, ser acordado com esse som insuportável a toda vez que alguém decidisse chegar em sua casa em um horário inconveniente. Demorei um pouco, junto a Matheus, para achar o interfone e, quando descobri que ele estava na cozinha e o coloquei no ouvido, recebi do porteiro do condomínio a notícia que Bento havia acabado de chegar e estava aguardando a minha autorização para poder entrar. —O que nós fazemos agora? —o meu namorado falso me questionou, assim que confirmei a entrada do meu irmão, ao condomínio. —Não sei! E se a gente for até a porta? A gente podia ficar parado, os esperando lá na entrada da casa. Assim, eles vão nos achar com mais facilidade. —E o que eu faço quando ver o seu irmão, quando ele vier falar comigo? —ele voltou a questionar, me seguindo até a sala e parecendo subitamente nervoso. —Relaxa, ele é o mais tranquilo de todos. Mais velho, responsável, preocupado demais com os filhos para se importar em constranger o namorado de sua irmã que já é velha o suficiente para saber o que faz da própria vida— dei dois tapinhas fracos nas costas de Matheus, antes de abrir a porta da sala e descer os dois degraus da entrada, ficando parada em um deles e esperando até que o meu comparsa viesse atrás de mim. —E os outros dois? —Eles têm tempo livre o suficiente para encher o meu saco. Não é que Bento não se importa ou não se preocupa, mas ele tem dois seres humanos que precisam dele para praticamente tudo, logo serão três chamando pelo nome dele. Ele confia em mim, acima de tudo, confia que eu sou responsável e que não sou fácil de ser enganada, confia no meu poder de escolha e de decisão. —Ele é o mais próximo de você? —Matheus me perguntou. —Depende, eu tenho os meus momentos, as minhas épocas com cada um deles. Depende do estilo de vida que estamos levando em cada época. Ele é o que tem a relação mais estável, comigo. Não brigamos, não discutimos, não nos provocamos e sempre nos respeitamos. Sempre foi ele me defendendo de Benício e Brenno, por eu ser a única garota, não deixando que eles me vissem como frágeis e, ao mesmo tempo, entendendo e me protegendo nas minhas fragilidades. E eu o apoiando, sempre que ele teve que ser pulso firme conosco, por ser o mais velho, defendendo a moral dele e o direito de ser mais sério e rígido, de ter mais autonomia que nós e sobre nós, quando éramos pequenos. Bento é um pai incrível, não que eu pense que os outros não vão ser... —Você parece ter uma relação muito tranquila com a sua família, digo, seus pais e seus irmãos. Mas brigava muito com eles, quando era pequena? —Acho que no limite, dentro do normal e coisa de criança. Consigo contar com os dedos de uma mão todas as brigas realmente sérias que tive com Benício ou com Brenno, ainda sobram dedos, na verdade. A diferença é que a gente ainda se provoca, ainda fingimos duvidar da capacidade um do outro, às vezes, só para colocar uma pilha. É o que eles vão fazer quando te virem, duvidar da minha capacidade de ter encontrado um cara legal e depois tentar te pilhar, para ver se você vai escorregar, para eles descobrirem com quem estão falando, se podem ou não confiar em você. Se aprovam ou não o nosso “relacionamento”. —Nenhum deles dois namora? —Benício é pipa voada demais. Não joga sujo, diz o que quer e quando quer sem enganar ninguém, mas não se imagina em um relacionamento e diz isso alto o suficiente para que todos possam ouvir. Na verdade, acho que ele nunca se recuperou do coração partido que teve na adolescência. Brenno já teve algumas namoradas, mas acho que no fim das contas ele é muito novo para ter algo tão sério e durável, que vá até o casamento e coisa do tipo. Ele sempre tentou, sempre inicia o relacionamento com essa intenção, mas nunca deu certo. Ainda acho que ele se casa antes de mim, assim como acho que Benício terá filhos antes de mim e, tudo bem, ele é o mais velho, mas não o vejo casado. Acho que ele ainda vai engravidar alguma mulher por aí, fruto de um lance passageiro. —Bento é casado a muito tempo? —ele me questionou e eu torci para ter tempo o suficiente para sanar as suas dúvidas, antes que meu irmão encontrasse a casa certa. Ele era meio r**m com localizações e o condomínio era gigante, então acho que ainda teríamos um tempinho. Percebi naquela hora que eu e Matheus deveríamos ter tido um pouco mais de tempo para conversarmos um sobre o outro, nos conhecermos, nos entendemos e compreendermos as nossas famílias, porque é na hora do desespero que as dúvidas surgem, como estava acontecendo com ele, naquele momento. —Bastante! Laura foi a primeira namorada dele, ainda nos tempos de escola. Construíram um amor e um relacionamento muito bonito, saudável e estável. Ficaram noivos junto do fim do ensino médio e se casaram mais ou menos no meio do período da faculdade, quando eles começaram a estagiar, trabalhar e conseguir se manter. As famílias ajudaram com o casamento, a montagem da casa deles e tudo isso, porque era o certo a se fazer, não fazia sentido esperar mais. Sei que hoje em dia a maioria das pessoas está se casando no início dos trinta, para depois ter filhos e tudo isso. Meu irmão já tem mais de dez anos de casado e está indo para o terceiro filho, talvez pudesse ter planejado melhor a sua vida adulta, antes de envolver outras pessoas nela, mas no fundo acho que ele só é quem é hoje justamente pela família que construiu. Eles chegaram aonde estão juntos e envolvo as crianças em tudo isso, acho que se não tivessem se casado cedo e tido filhos, não seriam tão bem-sucedidos profissionalmente e tão felizes. As coisas aconteceram da melhor maneira possível, para Bento e Laura. —falei, enquanto observava o carro do meu irmão entrar na rua onde estávamos hospedados e se aproximar da casa.
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