Capítulo XX

1780 Palavras
Matheus Não me lembrava da última vez que tinha me sentido tão nervoso, começar a conhecer a família de Brenda era mais do que desafiador, era colocar a mentira que havíamos criado em prática e, sendo honesto, não queria que tivéssemos que ter chegado em medidas tão extremas, quanto a isso. Fiz algumas outras perguntas a Brenda, dúvidas que surgiram em minha cabeça e que não tinham aparecido antes, mas muitas ainda não tinham sido colocadas em palavras e sanadas, quando avistamos o carro que logo pararia em nossa frente. A primeira pessoa a sair do carro, ou melhor, praticamente saltar para fora, foi a mulher que antes estava no banco de carona. Claramente grávida, provavelmente entre os quatro ou cinco meses de gestação, logo a reconheci como Laura, a esposa de Bento e cunhada de Brenda. —O seu irmão dirige muito m*l— ela falou alto, já que ele não tinha estacionado o carro perto de nós— E agora ele inventou que eu não deveria mais dirigir, por causa do bebê. Por um momento pensei que ele estivesse tentando algum tipo de suicídio familiar coletivo. Aí, olhe como as minhas pernas estão inchadas. —São os hormônios, ela ficou assim, das outras duas vezes— Brenda sussurrou em meu ouvido, antes de Laura finalmente nos alcançar— Estou morrendo de saudades, Lau! —minha falsa namorada disse, a abraçando— Como você e o meu sobrinho mais novo estão? —Muito bem, mas vamos ficar melhor ainda depois que ele estiver nos meus braços. Você sabe, meu corpo não lidou bem com a gravidez em nenhuma das três vezes. Já que é para tudo se repetir, espero ter puerpérios tranquilos igual das últimas duas. —Vamos fazer aquele mesmo esquema das últimas duas vezes, revezar as férias da família para que, pelo menos no último mês de gravidez e primeiros três de vida do Bernardo, sempre tenha alguém com você e Bento! —Não sei o que faria sem essa rede de apoio, me sinto muito sortuda— ela sorriu. —É o que toda mulher deveria merecer, é o mínimo! —Brenda abriu um sorriso, a abraçando novamente. —Por que eles estão demorando tanto para sair do carro? —perguntou sobre o irmão e os sobrinhos. —Ele falou que ia acordar as crianças e conversar com elas sobre onde estamos e com quem estamos, antes de deixar que eles saiam do carro. Não conseguimos falar com eles antes e não queremos assustá-los com a família inteira reunida do nada, você sabe que a última vez que isso aconteceu, não foram por boas notícias— Laura disse e logo me lembrei das minhas conversas com Brenda. Ela havia me dito que sua cunhada perdeu os pais recentemente, os dois, em um acidente de carro. —Agora, você não está esquecendo de algo não, hum? —ela perguntou a Brenda, apontando com o queixo em minha direção. —Oh, eu fiquei tão eufórica que quase esqueci que vocês ainda não se conhecem—Brenda piscou, disfarçadamente, em minha direção— Laura, esse é Matheus, meu namorado. Vida, essa é Laura, minha cunhada, esposa de Bento, meu irmão mais velho. —Hum, vida, eu tinha estranhamente gostado daquilo. —É um prazer finalmente te conhecer— falei, esticando a mão para a cumprimentar. Ela ignorou e me deu um abraço. —Finalmente mesmo, achei que Brenda só iria apresentar um cara para a família depois que estivesse casada. Fico feliz pelo relacionamento de vocês, sei que se estão conhecendo a família um do outro, é porque tem algo sério e concreto, que planejam levar para a frente! —Sim, Lau! Com certeza— Brenda forçou uma tosse— Ah, finalmente eles decidiram dar o ar da graça —disfarçou, apontando para o carro, de onde Bento saia, com os dois filhos já nascidos. —Tia "Benda" —ouvi a voz do garotinho gritando, ainda sem conseguir pronunciar o “R” corretamente. O reconheci como Benjamin, que não lembrava se tinha 2 ou 3 anos. —Oh, meu amor! Que saudade que a tia estava de você— Brenda disse, se abaixando para pegá-lo no colo— Como você cresceu tanto em tão pouco tempo? —Eu já sou “gande”, tia! —Eu sei, Ben, você está muito grande mesmo! —Oi, tia Brenda! —a menininha parou aos pés dela, agarrando na barra de sua blusa e segurando ali. Me lembrava bem que a sua sobrinha mais velha, Bella, tinha cinco aninhos. —Oi Bebella— Brenda abriu um sorriso de orelha a orelha, colocando Benjamin no colo e segurando a garotinha— Como você está, meu amor? Você também está tão grande, daqui a pouco já vai ter a minha altura. —Eu estou ótima! Você viu como o Bernardo também tá’ grande? Daqui a pouco a barriga da mamãe vai estar assim, olha— fez um círculo com os braços, em volta da própria barriguinha— Do mesmo jeito que ficou quando tava’ grávida do Bem. Eles são espaçosos, não é? —É, Bella. Eles gostam de se espreguiçar lá dentro, não é? Quando a sua mamãe estava grávida de você, a barriga dela ficou pequeninha, você ficava quietinha para não incomodar ela, quase não chutava— Brenda explicou, com paciência. —O Bernardo já chuta, sabia? E ele tem soluço, também? —Sério? E você já conseguiu colocar a mão na barriga da sua mãe e sentir ele chutando? —Eu já, eu já— Ben gritou, do chão. —É muito legal, não é? — ela perguntou, intercalando os olhares entre um e outro, enquanto ambos faziam que sim com a cabeça. —Olha, quem é vivo sempre aparece— Bento falou, parando ao lado de sua irmã. Ele era diferente do que eu imaginava, mais alto e musculoso, definitivamente mais loiro, também. Tinha os cabelos grandes até os ombros e sua barba curta beirava o ruivo. Laura tinha cabelos castanhos, pele mais bronzeada que o seu marido, mas também era alta e tinha porte atlético, mesmo com a gravidez. Era nítido que a cor de pele das crianças era originária da mãe, mais bronzeada que Bento e Brenda, que mesmo queimados de sol, tinham a pele mais rosada. Os cabelos de Ben eram ondulados como os de Laura, os de Bella lisos como o do pai, mas ambos eram loiros igual a ele, naquele tom manteiga que também estava presente nos cabelos de Brenda. —É você quem não vem me visitar nunca— Brenda abraçou o irmão mais velho. —Você sabe como são as coisas com o restaurante, é difícil conseguir um tempo livre. E agora, que temos que começar a nos preparar para o fim de ano e para o nascimento do Bê, estamos em busca de funcionários temporários e está tudo uma loucura— ele explicou. Eu sabia que Laura era administradora e Bento chefe de cozinha/ gastrônomo, eles tinham um restaurante em Armação dos Búzios, onde moravam. —É, eu sei bem. Mas estou feliz por todos termos conseguido um tempinho para nos encontrarmos antes do Natal. Nos reunir com a família inteira é sempre uma loucura e eu queria muito que vocês conhecessem Matheus antes de levá-lo a Petrópolis, onde tia Sandra com certeza vai encontrar um jeito de nos tacar no fogo. —É um prazer te conhecer, cara! Fiquei feliz em saber que Brenda está namorando, principalmente um psicólogo, ela precisa de um tratamento especial, se é que me entende— ele piscou um olho, esticando a mão para mim. Ri baixo e sem graça também apertando a sua. —Só porque eu falei para Matheus que você é o que irmão que menos me perturba, hoje você decidiu dar uma de engraçadinho, Bento? —Brenda disse para ele, que gargalhou. —Eu só estava com saudades! —Sei, sei. Você está passando tempo demais com Benício e Brenno, isso sim! —É culpa sua que só vai nos visitar duas vezes por mês. Vejo Brenno pelo menos umas três vezes na semana e Benício em todas as quartas e sábado, agora faça as contas! —Benício continua indo para Búzios em todas as quartas? —Sim, sempre vai lá no restaurante comer. Normalmente com uma garota diferente a cada semana. E ele também não paga a conta, então eu mandei fazer um cardápio especial, sem os pratos mais caros da casa, que é especial para quando ele surgir por lá. —Já falei para ele que ele está sendo pão duro, que sempre sobra comida nos dias de semana, então não custa nada deixar seu irmão comer lá às quartas, mas você sabe como Bento é— Laura reclamou. —Benício também não colabora, o que custa pagar a conta? Mas, pelo menos, como ele anda famoso no i********:, deve estar atraindo uma publicidade para lá! —Brenda argumentou. —É, isso é. Mas ele tem mais dinheiro do que eu, você e Brenno juntos. Poderia muito bem pagar pelo que come— Bento disse mais uma vez, dando de ombros no final. Não falei nada, não cabia a mim me meter nessas questões familiares, não sabia ao certo o que estava acontecendo e, com certeza, não seria a pessoa mais apropriada a dar a minha opinião. —Bella, Ben, venham aqui conhecer o namorado da tia de vocês— Laura os chamou. —Namorado, tia? —Benjamin perguntou, erguendo as sobrancelhas— É esse moço? —Então isso quer dizer que você vai ter um bebê, igual a mamãe? —Foi Bella quem a questionou, nos pegando de surpresa, completamente desprevenidos e desprovidos de uma resposta. —Não, ainda não Bella. A tia ainda vai namorar por um bom tempo, depois vamos nos casar e aí sim pensamos em um bebê, mas só daqui a muito tempo— ela explicou, pacientemente. —Muito tempo, quanto? —foi Ben que perguntou. —Quando Bernardo tiver a sua idade, Ben, aí a tia vai estar pensando em se casar, provavelmente. Quando Bernardo tiver cinco aninhos, igual a você, Bella, aí a tia vai ter o próprio neném. —Mas tia, não tem problema você ter um neném ao mesmo tempo que a mamãe, eu tenho certeza que ela não vai sentir ciúmes— Bella argumentou inocente, fazendo todos nós rirmos. —Eu sei que não, Bella. Mas na hora certa você vai ter um priminho, ok? Eu prometo! —Eu espero que não demore muito! E que seja uma menina, porque eu não dei sorte de ter dois irmãos meninos— ela reclamou, nos fazendo rir alto mais uma vez.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR