Capítulo VIII

1009 Palavras
Matheus —Por que veio para o Rio, Matheus? —Brenda me questionou, enquanto tinha o corpo esticado para a frente, ainda que devidamente preso pelo cinto de segurança, para alcançar a visão do espelho do quebra sol que estava aberto. Ela passava algumas coisas no rosto, mas que não pareciam ser base, que era o único produto para a pele que eu conhecia, então não sabia especificar o que era. —Vim fazer faculdade, quis estudar na UERJ, consegui passar e não pensei duas vezes. Não imaginava que ficaria tanto tempo, mas quando a faculdade acabou, não quis ir embora. —Não sente falta da sensação de cidade natal? Eu estou muito mais perto da minha do que você e, vira e mexe, estou correndo para lá por não me aguentar de saudade. —Eu sempre senti que não deveria viver uma vida inteira na mesma cidade, no mesmo estado. Acho que nunca me encontrei completamente em BH, nunca tive aquela sensação de que era o meu lugar e, apesar de amar voltar para casa, todas as memórias, pessoas e lugares, eu me encontrei no Rio. —O que te chamou atenção, na cidade maravilhosa? —O rítmo de vida, a grande circulação de pessoas, de turistas, as belezas naturais, estar mais perto do mar, mesmo que eu prefira apenas vê-lo de longe. —Não. Adoro ir à praia, mas não sou um bom nadador e, como mineiro, sempre fui ensinado a temer o mar, então prefiro não molhar mais do que as minhas canelas. —Se quiser, posso te ensinar alguns macetes de segurança, quando estivermos em Angra. Quem sabe você não consegue dar uns passos a mais? No seu tempo, claro. —Vou pensar no seu caso! Mas e você? O que te fez vir até o Rio, deixar a região dos lagos para trás? —Vim pelo mesmo motivo que você, para estudar. Na verdade, eu não me mudei para cá durante a faculdade, meu irmão mora em Saquarema, por causa do surf e como eu ainda surfava para valer, enquanto estudava, fiquei morando lá com ele, para a ida e volta ser um pouco mais rápida, até porque eu estudava em Niterói. Quando estava perto do fim da faculdade, vi que teria que me mudar para cá por conta do estágio, arrumei um emprego no Rio e vim para cá, acabou que recebi uma proposta de Marcos assim que me formei e decidi que não queria ir embora, mesmo tendo que, parcialmente, abrir mão do surf. —Sente falta de surfar? —perguntei, dando uma olhada no GPS, por estar fazendo um caminho diferente do meu de todo dia. —O tempo todo! Eu tento escapar durante os fins de semana, mas não é sempre que consigo. Eu deixei de ter esse contato diário com o surf a muitos anos, mas é uma coisa que faz parte de mim, é a minha essência. Acho que escolhi seguir um caminho mais tradicional e abrir mão da minha grande paixão para, lá na frente, poder fazer dela um hobby. Eu sabia que não conseguiria me manter em alto nível por mais muitos anos e nem era a minha vontade fazer do surf a minha única profissão. Então, quando entrei na faculdade, coloquei na minha cabeça que conciliaria até me formar e que, depois que arrumasse um trabalho na minha área de formação, voltaria a fazer das pranchas e parafina o meu hobby de fim de semana e de férias. —As minhas escapadas para Minas são bem mais espaçadas, até pela distância. Tento ver meus pais a cada dois meses, eles vêm ao Rio pelo menos duas vezes ao ano e eu vou até eles nas outras vezes e em minhas férias. —Eu tenho ido para casa duas vezes ao mês, passo um fim de semana aqui e outro na Região dos Lagos— ela me explicou, finalmente fechando o espelho e terminando de se arrumar, passando os dedos por entre os cabelos— Como vamos para Angra nesse fim de semana, não vou para Cabo Frio esse ano, mais. —Passa os anos novos lá? —perguntei, sem saber se eu deveria fazer planos para mim ou se a nossa farsa também envolveria os últimos dias do ano. —Passo, parece que esse ano toda a minha família vai descer a serra e ir para lá também! —E você acha que seria importante envolver a farsa, no ano novo? —Sei que não acordamos sobre isso e que você provavelmente tem planos para o ano novo, então pensei em dizer que você vai ver a sua família ou algo do tipo. —Namorados não passam a virada de ano separados. O Natal até vai, mas a virada de ano não. —Não quero melar seus planos, Matheus. —Vou te confessar que eu não tinha nada planejado, estava esperando justamente para saber. Acho que no final, também será vantajoso para mim passar contigo, tanto porque estou sozinho e meus amigos provavelmente vão viajar, tanto porque podemos postar fotos e tudo isso para que Tuane veja que realmente estamos juntos— fale. —Falando nela, qual é o plano, para agora? — ela me questionou sobre o nosso encontro “acidental” com Tuane, no estacionamento. —Pensei em esperarmos por ela no carro, para ela pensar que acabamos de chegar e que tudo é uma coincidência. Andamos de mãos dadas e fingimos normalidade. Se ela perguntar algo, falamos que estamos juntos e contamos a nossa mentira. —Ok, acho que as mãos dadas vão dizer mais do que qualquer palavra— ela me disse. —Como hoje vai ser o dia que, em teoria, vamos nos assumir para os nossos colegas de trabalho, precisamos parecer levemente preocupados, mas não pegos em flagrante, porque se não ela vai achar que só contamos para Marcos e para a equipe porque ela nos viu, como se estivéssemos fazendo algo de errado. —Ok, perfeito. Espero que a gente consiga chegar ao mesmo tempo em que ela.
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