Batismo de Fogo
William apertou a mão de Katherine como se quisesse fundir a existência dela à dele. Confusa e cega pela indignação, ela ignorou o gesto, focando apenas no que sua lógica ditava: ela era agora um bem material, um bibelô que ele comprara para usar conforme o desejo.
— Por mais "instável" que você seja, saiba que não tenho medo de você, William — declarou com uma convicção que beirava a ingenuidade. Se ela soubesse a extensão do rastro de sangue que ele deixara pelo mundo, talvez suas pernas fraquejassem.
William sorriu. Em toda a sua mísera e violenta existência, Katherine era o único ser capaz de desafiá-lo. Tão pequena e desprotegida diante de sua grandeza, ele poderia quebrá-la em pedaços antes que ela percebesse. Contudo, curiosamente, ele desejava o oposto. Não era amor — ele não conhecia o termo —, mas machucá-la estava fora de questão.
— Veremos até quando pensará assim, querida. Quando me conhecer de verdade, ficará aterrorizada.
— Não vou pensar assim por muito tempo, já que estou indo embora agora. Você não pode me obrigar a nada! Vou ficar com meu "namorado" — provocou ela, referindo-se à amiga Lia —, e quebrar meu telefone não vai me impedir.
— Você está brincando com fogo, garota — William lançou um olhar cínico. — Enquanto eu existir na sua vida, você não terá namorado algum.
Ele saiu em passos largos, mas parou ao notar que Katherine permanecia imóvel, de braços cruzados e pés fincados no chão. William suspirou, sentindo a paciência esvair-se. — Que inferno de mulher temperamental... Se você não andar, eu vou jogá-la no ombro e carregar você.
— Pois faça! Só assim me tira daqui, seu ogro.
— Ogro? — William soltou uma risada sombria. — Acostume-se com esse ogro. Será mais fácil para você.
Sem cerimônia, ele se abaixou, passou os braços pelas pernas de Katherine e a jogou sobre o ombro como um saco de provisões. Ignorando os tapas e protestos, caminhou até o carro.
— Eu vou gritar tanto, William! Alguém vai chamar a polícia e você apodrecerá na prisão!
— Vejo que você realmente não sabe quem eu sou — ele disse, enquanto a prendia no banco do passageiro. — A polícia não se mete comigo.
Katherine o encarou como se visse um monstro. Pierre tremia diante dele, e agora a lei também recuava? "Quem é esse homem e em que abismo eu caí?", pensou, dando-se por vencida momentaneamente.
O Gosto do Asfalto
William assumiu a direção e acelerou. O silêncio durou dez minutos, até pegarem a rodovia principal. Quando ele tentou reduzir a velocidade para uma curva, sentiu o pedal do freio ceder, frouxo e inútil.
— O que está acontecendo, William? — Katherine percebeu a aceleração anormal.
— Fique calma. Ficaremos bem — ele mentiu, o suor frio brotando na têmpora. O carro estava sem freios e, em segundos, fumaça e faíscas começaram a brotar do capô. Alguém sabotara o veículo.
— Se segura! — William gritou. Em um ato desesperado, ele puxou o freio de mão. O carro derrapou, perdeu a aderência e capotou.
O mundo tornou-se um borrão de metal retorcido, estilhaços de vidro e barulho ensurdecedor. Os airbags, também sabotados, não abriram. Quando o movimento cessou, o carro estava de cabeça para baixo, e o cheiro de gasolina era sufocante.
William abriu os olhos, sentindo cada nervo de seu corpo gritar de dor. Sua primeira visão foi Katherine: a cabeça sangrando, o corpo inerte, desacordada. O fogo começou a lamber o capô.
— Katherine! Acorda! — Ele soltou seu cinto e tentou libertar o dela, mas o mecanismo estava emperrado pelo impacto.
O pânico, algo que ele raramente sentia, o atingiu. O calor das chamas tornava-se insuportável. Numa última explosão de força bruta, William puxou o cinto de segurança com toda a sua potência muscular até que as fibras arrebentassem. Ele a arrancou dos destroços, mas o fogo subitamente atingiu suas pernas e o braço esquerdo.
Urrando de dor, William ignorou a própria carne queimando. Pegou o corpo desfalecido de Katherine nos braços e caminhou para longe, cambaleando. Segundos depois, uma explosão ensurdecedora lançou uma onda de calor que o derrubou no asfalto quente.
Ele a protegeu com o próprio corpo enquanto o carro se tornava uma pira funerária de metal. Antes de apagar, viu os faróis de um motorista que parava para socorrê-los.