O Limiar do Abismo
O socorro chegou como um clarão em meio ao caos de metal e chamas, levando William e Katherine para a unidade de emergência mais próxima. O diagnóstico foi um golpe brutal: traumatismo craniano severo. Katherine estava no limite entre a vida e o esquecimento.
Mesmo com o corpo queimado e os sentidos turvos, William mantinha-se consciente por pura força de vontade. Ele viu, através da névoa de dor, quando a maca dela foi empurrada às pressas para o centro cirúrgico. — Preciso vê-la! Agora! — ele rugia, lutando contra os médicos que tentavam contê-lo. Seu desespero era uma força da natureza, uma culpa corrosiva que o consumia. Foi necessário uma dose cavalar de sedativos para silenciar o monstro, enquanto sua "propriedade" lutava contra a morte em uma mesa de operação.
A cirurgia foi um sucesso técnico, mas o destino foi c***l: Katherine mergulhou em um coma profundo.
Dez Meses de Agonia
Dez meses se arrastaram. Trezentos dias de máquinas apitando e o silêncio de Katherine respondendo às preces. No hospital, a esperança havia se tornado uma mercadoria escassa.
— Ana, eu sinto muito... — Tarcísio aproximou-se da mãe de Katherine. O diretor do hospital, que dedicara cada hora vaga à jovem, agora tinha o olhar caído. — Precisamos desligar os aparelhos. Não há sinais de melhora, Ana. Ela não reage a nenhum estímulo.
Ana Carolina sentiu o chão sumir. Sua menina estava ali, pálida, respirando por um tubo, mas ainda era sua filha. Como mãe, ela tinha que tomar a decisão mais sombria de sua existência. — Peço que esperem mais uns dias, por Deus! Eu não posso matá-la! — Ana ajoelhou-se aos pés da cama em prantos. Jorge, o pai, tentava ampará-la, mas suas próprias lágrimas molhavam o lençol estéril. Katherine estava deslizando entre seus dedos e eles eram impotentes.
— Ana, mantê-la assim é prolongar o sofrimento. Como médico e amigo, eu digo: é o certo a se fazer — insistiu Tarcísio, embora seu coração também estivesse em frangalhos. — Apenas mais um dia. Eu suplico. Só mais uma noite com ela.
Tarcísio cedeu. O milagre teria vinte e quatro horas para acontecer, ou a luz de Katherine seria apagada para sempre.
O Destruidor de Esperanças e o Novo Guardião
Enquanto isso, a vida dos pais de Katherine havia se tornado um inferno duplo. Pierre, valendo-se da falta dos papéis do divórcio — consumidos pelo fogo no carro — e do estado de Katherine, assumiu o controle legal de tudo. Como marido, ele tomou o posto de gerência no hospital da família. Em pouco mais de dois meses, ele deu um desfalque criminoso, roubou as economias dos sogros e desapareceu no mundo. Os pais dela, na miséria, foram obrigados a vender suas ações por um valor de mercado quase nulo devido ao rombo financeiro. Contudo, um investidor misterioso comprou tudo por uma quantia exorbitante, garantindo que Ana e Jorge não ficassem na rua.
William, recluso em sua mansão, vivia nas sombras. Ele pagava uma enfermeira para ser seus olhos e ouvidos no hospital. Ao receber a notícia de que Katherine seria desligada, ele enlouqueceu.
— Não! Eles não vão fazer isso. Não enquanto houver um sopro de vida — ele rugiu, esmagando o celular contra a mesa. Tomado por uma fúria cega, ele destruiu o próprio escritório, transformando móveis caros em lascas, até que seus pulmões ardessem.
Pela manhã, ele reuniu forças para encarar a luz do dia, algo que evitava desde que as cicatrizes do acidente marcaram seu rosto e sua alma. — Está tudo pronto, Jhon? — perguntou ao seu braço direito. — Sim, senhor. A logística está montada.
O Resgate
William não desceu do carro no hospital. Sua figura era conhecida demais, e sua paciência, curta demais. Jhon, disfarçado com roupas médicas, encontrou Ana na porta do quarto. Ela roía as unhas, esperando Tarcísio chegar com a sentença de morte.
— Você deve ser o Jhon — sussurrou Ana, vendo nele o anjo enviado pelo homem misterioso que a ligara de madrugada. William oferecera tudo: uma UTI completa em sua casa e os melhores especialistas do mundo. — Precisamos nos apressar — Jhon disse, entrando no quarto com uma enfermeira cúmplice.
Eles agiram com precisão cirúrgica. Katherine foi transferida para uma maca de transporte e coberta inteiramente com lençóis brancos. Para qualquer um que cruzasse o corredor, eles estavam apenas movendo um corpo para o necrotério. Jhon entregou um papel a Ana. — Leia o endereço, decore e queime. Não use GPS. Não deixe rastros.
— Cuidem da minha menina... — Ana implorou. — Ela está em ótimas mãos, senhora.
No estacionamento, a ambulância de resgate esperava. William já estava lá dentro, sentado no canto escuro da lateral, os olhos fixos na porta. Quando a maca entrou e Jhon descobriu o rosto de Katherine, o ar pareceu faltar no peito do mafioso.
Ela estava mais magra, pálida como mármore, e o silêncio dela era o insulto mais doloroso que ele já ouvira. William aproximou-se, sentindo os olhos arderem. Ele não sabia chorar, mas sabia possuir. Passou os dedos com uma leveza angustiante pelos cabelos dela.
Inclinou-se e sussurrou no ouvido de Katherine, enquanto a ambulância partia em alta velocidade: — "Minha", lembra? Ninguém mata o que é meu, querida. Eu vou trazer você de volta, nem que eu tenha que invadir o inferno para buscar sua alma.