Capitulo 15

1596 Palavras
O Despertar nas Sombras Ela sentia tudo. Durante meses, as vozes ao seu redor eram ecos em um desfiladeiro distante, e o toque das mãos de enfermeiros era como plumas roçando uma pele que não lhe pertencia. Mas agora, algo mudara. Como se um sopro de vida primordial atravessasse seu corpo desfalecido, o toque quente e a voz inconfundível de William agiram como um desfibrilador em sua alma. Katherine abriu os olhos lentamente. O mundo era um borrão insuportável de luz. Ela piscou várias vezes, as pálpebras pesadas como chumbo, tentando focar na silhueta à sua frente. William sorriu por um breve e raro instante; vê-la reagir era a única vitória que ele tivera em um ano de derrotas. Mas, no segundo seguinte, a realidade o atingiu como um soco. Ele lembrou-se do que aquele maldito acidente fizera com ele, da face que agora evitava até nos reflexos da água. Ele virou-se imediatamente, escondendo o rosto. — William... — A voz dela saiu rouca, quase um sussurro quebrado. Com um esforço sobre-humano, ela retirou o tubo de oxigênio que a incomodava. Seus olhos percorreram aquele corpo magnífico, as costas largas que ela jamais esqueceria. — Onde estamos? Por que não olha para mim? O que aconteceu? O desespero na voz de Katherine era como uma lâmina no peito de William. Ele queria virar-se, tomá-la nos braços e devorar a saudade daqueles lábios, mas o medo era maior que o desejo. O medo de que ela o rejeitasse, de que o brilho de vida nos olhos dela se transformasse em horror ao ver as cicatrizes que o fogo e o vidro esculpiram nele. — Jhon! — William gritou, batendo com força na janelinha da ambulância, a voz embargada por um pânico que ele não conseguia ocultar. Jhon freou o veículo bruscamente, temendo o pior. Ao ver o semblante pálido e transtornado do patrão, ele correu para a parte de trás. William estava em choque. Ele não previra que ela acordaria ali, desprotegida pela escuridão que ele planejara. Suas mãos tremiam. "Ela fugiria", ele pensou, apertando os punhos. "Qualquer uma fugiria de um monstro." — Fique com ela. Eu dirijo — ordenou William, saltando da ambulância antes que Katherine pudesse focar sua visão nele. A Chegada à Fortaleza A ambulância voltou a se movimentar. Katherine tentou questionar, mas a fraqueza a puxou de volta para o travesseiro. Quando finalmente pararam, William desceu e desapareceu dentro da casa sem olhar para trás. — Você deve ser o Jhon certo... — Katherine disse, olhando para o segurança que parecia uma estátua de gelo. — Pode me explicar o que está acontecendo? — Sinto muito, senhora. Apenas o senhor Trajano pode falar — Jhon respondeu, seco e profissional. A ambulância se mantinha parada, mas, o mundo de Katherine continuava a girar. Cada memória era um estilhaço: o grito de William, o cheiro de borracha queimada, o asfalto aproximando-se do vidro. Ela tentou focar no homem à sua frente, cujas feições eram estranhas, mas a voz era calma. — Vou levar a senhora para dentro da casa, então William explicará tudo — disse Jhon, com uma polidez que não combinava com o ambiente tenso. — Casa? — Katherine questionou, a voz saindo arrastada, como se as cordas vocais estivessem cobertas de poeira. Tudo era um borrão de luzes e sombras. Ela se lembrava de William pedindo para que mantivesse a calma, do carro capotando em uma dança macabra de metal... e depois, o nada. Um vazio que parecia ter durado uma eternidade. — A casa do senhor Trajano — Jhon explicou, percebendo que a mente da jovem ainda lutava para emergir do abismo do coma. Nesse instante, uma lembrança nítida cortou a confusão: o "Acordo". O divórcio assinado sob a mira de uma arma, a afirmação possessiva de William e a forma como Pierre a vendera como se fosse uma mercadoria de luxo. Se antes, com toda a sua saúde, ela não conseguira impedir que William a levasse à força, agora, sentindo-se um fantasma de si mesma, não tinha chance alguma. Estava à mercê dele. — Ok — respondeu, um som seco e sem vida. Jhon estendeu as mãos para ajudá-la a se levantar da maca. Katherine forçou os músculos das pernas, mas eles não responderam. Eram como gelatina, inúteis após meses de inatividade. — Eu não consigo... — Ela desabou de volta no estofado da maca, os olhos marejados pela frustração de perder o controle sobre o próprio corpo. — Vou ajudar você. Com licença — Jhon disse, e antes que ela pudesse protestar, ele a pegou no colo com uma facilidade desconcertante. Jhon sabia que aquilo era uma má ideia. Conhecia o temperamento possessivo do patrão e sabia que William não gostaria nada daquela i********e física, por mais necessária que fosse. Mas não havia escolha: era carregá-la ou deixá-la abandonada naquela ambulância. O Olhar do Predador Dentro da mansão, em seu quarto mergulhado na penumbra, William não tirava os olhos dos monitores de segurança. Quando a imagem de Jhon cruzando o hall com Katherine nos braços surgiu na tela, ele fechou a cara imediatamente. Seus dedos apertaram o braço da poltrona com tanta força que as juntas ficaram brancas. O pensamento de que Katherine pudesse estar gostando daquele contato — ou pior, admirando o que via — o deixava louco. Jhon era um homem jovem, bonito, com o rosto intacto e um corpo atlético. Ele era tudo o que William sentia que não era mais. O ego de William, já ferido pelas cicatrizes, sangrava diante da visão de outro homem segurando o que ele considerava seu. Ele nem imaginava que Katherine sentia exatamente o contrário. Ela estava mergulhada em um desconforto profundo, a cabeça pendida para o lado, evitando qualquer contato visual com o segurança. Jhon, por sua vez, mantinha o olhar fixo no corredor, tratando-a com a distância de quem carrega um objeto precioso e perigoso. Ele só queria chegar ao quarto preparado para ela e encerrar aquela situação antes que o rádio em sua cintura começasse a latir ordens furiosas. Mas Katherine, mesmo frágil, não havia perdido o espírito. — Me leve até o William — ordenou, a teimosia voltando a inflamar seu sangue. — É melhor esperar no seu quarto, senhora. As ordens foram claras. Katherine franziu o cenho e lançou um olhar desafiador para Jhon, o mesmo olhar que costumava desarmar William. — Você pode me carregar até lá agora, ou eu vou rastejar por essa casa toda até encontrá-lo. Eu não vou ficar trancada em um quarto sem saber o que está acontecendo. William, observando tudo pelas câmeras de segurança do seu quarto, sentiu um lampejo de admiração. Ela não mudara. Ainda era a mulher audaciosa que o chamara de "safado de rua". Aquela mulher não tinha medo dele, nem das circunstâncias, nem de ninguém. Ele sabia que ela cumpriria a promessa. A ideia de vê-la se arrastando pelo chão, ferindo-se em sua debilidade, era insuportável. Por mais que temesse ser visto, ele não suportaria vê-la sofrer. — Jhon — a voz de William ecoou pelo rádio na cintura do segurança fazendo o segurança estacar no meio do caminho. Jhon pegou o aparelho na cintura com dificuldade, tentando não desequilibrar Katherine. — Sim, senhor? — Traga-a até aqui. Agora. O Quarto da Noite Eterna Jhon apenas assentiu, mudando de rota. Subiu a grande escadaria de mármore, cruzando corredores decorados em tons de preto e cinza. A mansão era uma extensão da alma de seu dono: luxuosa, imponente e sombria. Pararam diante de portas largas de madeira entalhada à mão. A porta abriu-se silenciosamente, revelando um breu absoluto. — William? — Katherine se encolheu nos braços de Jhon, o coração acelerado. — Sim, Katherine. Sou eu. Coloque-a na cama, Jhon. O segurança caminhou pela escuridão com a precisão de quem conhecia cada centímetro daquele isolamento. Colocou-a com suavidade sobre os lençóis de seda e retirou-se, fechando a porta atrás de si. — Por que está tão escuro aqui? — Katherine perguntou, tentando tatear o espaço ao seu redor. — Você faz perguntas demais — a voz dele veio de perto. Ela sentiu o colchão afundar ao seu lado e o calor do corpo dele irradiar em sua direção. — Eu nem consigo te enxergar... Onde você está? — Ela estendeu a mão, tentando alcançar o rosto dele, mas William segurou seus pulsos com uma força desproporcional. — Não me toque! — ele rugiu, soltando-a em seguida como se tivesse se queimado. — Que diabos deu em você? O que aconteceu? — Katherine massageou os pulsos, confusa e magoada. Houve um longo silêncio, preenchido apenas pela respiração pesada de William. — Sofremos um acidente. Você deve se lembrar. Você ficou em coma por quase um ano. E eu... bem, é indescritível o que o fogo e os estilhaços fizeram comigo. Estou horrendo, Katherine. Por isso a escuridão. Mas voltando a você: iriam desligar seus aparelhos hoje. Eu resgatei você. Katherine engoliu em seco. A revelação a atingiu como uma avalanche. Coma? Um ano perdido? E William... o homem que era a definição de vigor e beleza, agora escondido nas sombras? Ela sentiu a dor crua na voz dele e a curiosidade deu lugar a uma empatia profunda. — Obrigada... — ela sussurrou, processando a enormidade de estar viva por causa dele. Mas William não queria gratidão; ele queria segurança. Ele queria selar o destino dela antes que a luz revelasse suas falhas. — Case-se comigo — ele disse, a frase caindo no escuro com o peso de uma sentença. — E então me agradecerá de verdade.
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