William enfrentava um dilema que corroía sua mente há meses. Desde a última visita de seus pais — os antigos regentes da máfia —, a pressão tornara-se insuportável. Eles exigiam um casamento, uma linhagem, herdeiros para o império Trajano. Mas como, na sua atual condição?
O fogo havia devorado a perfeição de suas pernas e do seu braço direito. Contudo, o golpe de misericórdia fora o vidro. Os estilhaços desfiguraram o lado esquerdo de seu rosto, deixando uma cicatriz profunda e irregular que ele evitava a todo custo encarar no espelho. Ele só se aproximava do reflexo para o estritamente necessário; pentear os cabelos e fazer a barba eram tarefas executadas com a luz mínima.
Antes, William era o sol em torno do qual as mulheres orbitavam, cobiçado por sua beleza predatória e seu poder. Hoje, ele estava convencido de que mulher nenhuma o aceitaria por vontade própria. Mas havia Katherine. Ele a possuía antes do desastre através de um trato, e agora ela lhe devia a própria vida. Para sua mente distorcida pelo trauma e pela posse, não existia no mundo mulher melhor para ocupar o posto de sua esposa. Ele poderia forçar qualquer filha de devedor a subir ao altar, mas ele queria ela. Sempre fora ela.
Katherine buscava por ele na escuridão opressiva do quarto, chocada com a proposta que acabara de ouvir.
— Você... só pode... estar brincando — ela gaguejou, a voz falhando diante do absurdo.
— É demais para você? — William disparou, a voz ríspida, carregada de um veneno que ocultava sua insegurança. — Casar-se com um homem deformado, mesmo que esse homem tenha arrancado você da cova? Não seja egoísta, Katherine.
A surpresa dela transmutou-se em fúria instantânea. — Eu nem sequer vi você, William! Não seja e******o e não ouse colocar palavras na minha boca! — rebateu, tentando se sentar na cama, apesar da fraqueza.
William soltou um suspiro pesado. Nada era simples com ela. — Você não vai querer me ver, Katherine, nem eu permitirei que o faça. Não se preocupe, querida. Mesmo aceitando minha proposta, eu pouparei você desse desprazer. Manteremos a escuridão.
— Por que tanta agressividade? — ela sussurrou, sentindo a hostilidade dele como um muro.
— É isso ou continuar atada ao Pierre — ele sentenciou.
— Mas os papéis... nós assinamos...
— Queimaram no incêndio. Legalmente, você ainda é a esposa dele.
O peito de Katherine apertou. A ideia de pertencer a Pierre por mais um segundo a enojava. — Onde ele está?
— Fugiu como o rato que é, após desfalcar o hospital e roubar praticamente tudo o que sua família possuía. Você e seus pais estão na ruína por causa dele.
— Aquele desgraçado! — ela bufou, a raiva fervendo em suas veias.
— Aceite ser minha esposa e eu resolvo isso. Dou-lhe minha palavra. Não peço amor, Katherine; isso não me interessa e não faz parte da minha realidade. Preciso de uma esposa e herdeiros. Você precisa de proteção e de alguém que esmague o homem que a traiu. Unimos o útil ao agradável. Nos encontraremos no escuro, nada mais.
O Beijo da Reconciliação Amarga
Katherine estava irada. A forma como ele a tratava, como uma mercadoria necessária para um fim biológico e social, era degradante. — Um ano se passou e você continua o mesmo escroto de sempre!
Ela tentou atingi-lo com um tapa, mas o esforço foi demais para seu corpo debilitado. Ela perdeu o equilíbrio e caiu sobre o colchão. — Ai... — choramingou, a dor física lembrando-a de sua fragilidade.
— Katherine? Você está bem? — A voz de William mudou instantaneamente. A preocupação genuína rompeu a barreira da grosseria. Ele tateou a escuridão até encontrar a perna dela, subindo as mãos com urgência para verificar se ela se machucara.
— Eu estou bem — ela disse, afastando as mãos dele com a pouca força que tinha.
Por um momento, ela acreditou que houvesse um coração ali, por trás daquela armadura de arrogância. Mas logo se repreendeu. "Tem uma pedra no lugar", pensou. No entanto, o contato físico despertou em William um desejo que fora represado por dez meses de agonia e solidão.
Sem aviso, ele buscou os lábios dela. Katherine tentou resistir, virar o rosto, mas o calor dele era magnético. Em segundos, ela se viu presa naquele beijo, retribuindo com uma intensidade que a assustou. Era como se o tempo não tivesse passado; a loucura prazerosa de estar nos braços dele era a única coisa que parecia real naquele quarto escuro.
William subiu sobre ela, tomando o cuidado de apoiar o peso nos cotovelos para não machucá-la. O beijo aprofundou-se, tornando-se uma conversa faminta de línguas e suspiros. As mãos dele percorriam cada centímetro do corpo dela com um fervor quase religioso.
— William... você pesa — ela arfou, o riso entrecortado pela falta de ar.
— Desculpe — ele sussurrou, afastando-se um pouco, o coração batendo contra as costelas.
A dúvida o atingiu como um raio. Ali, no escuro, ela o desejava. Mas e quando a luz viesse? "Ela apenas não me viu", pensou amargamente. "Quando vir, nunca mais permitirá que eu a toque." O clima quebrou-se como vidro. Ele se afastou bruscamente, sentando-se na beira da cama.
Katherine ficou em silêncio, o corpo ainda vibrando. Odiava-se por ser tão vulnerável a ele. Ele a maltratava, era ríspido e autoritário, mas bastava um beijo para que ela esquecesse as ofensas. "Estúpida!", puniu-se mentalmente.
— Você aceita? — William quebrou o silêncio, a voz novamente fria. — Tecnicamente, você já é minha, lembra? O que seria um pedaço de papel a mais confirmando o óbvio?
Ele tinha razão. Pierre era o caos, e William era a única ordem que restara, por mais sombria que fosse. Além disso, casar-se com ele era o único caminho para destruir o homem que arruinara sua família. Entre o verme e o monstro, ela escolheria o monstro que a salvara das chamas.
— Sim — ela respondeu, firme e sem hesitação. — Eu aceito me casar com você.