A metamorfose de Pierre não aconteceu do dia para o outro; foi um processo lento, como uma infiltração silenciosa em uma parede de luxo. Primeiro, vieram os comentários depreciativos sobre suas amizades; depois, o controle cirúrgico sobre seus horários. Katherine, que sempre odiou ser comandada pelos pais, agora se via justificando cada passo para o homem que jurava amá-la. O "mundo para si" que ela tanto sonhou estava se tornando uma gaiola de ouro, onde a única voz permitida era a dele.
Em sua cabeça, ela buscava justificativas desesperadas: “Ele só quer o melhor para nós. É apenas uma fase”. Ingenuidade. Em um ano, o cenário só piorou.
Aos dezenove anos, Katherine era o retrato da contradição: embora tivesse sido mimada a vida toda, a arrogância de seu ego a impulsionava a ser a melhor. Ela se tornara a aluna número um da faculdade de medicina. Enquanto ela estudava como louca para honrar o sobrenome e o futuro, Pierre abandonava os livros.
A primeira grande briga revelou que o príncipe tinha as garras afiadas. — Isso não é para mim! — gritou ele, alterado, arremessando uma pasta de desenhos sobre a mesa de centro de mármore. — Eu sou um artista, Katherine! Sou livre! Não preciso de professores medíocres ditando como devo criar minha arte!
Ao ver o choque nos olhos dela, ele mudou a tática instantaneamente. Desabou no colo de Katherine, as lágrimas forçadas escorrendo pelo rosto. — Desculpa, amor... eu só quero ser livre. Aquele homem diz que não sou bom o suficiente, ele acaba com a minha alma...
Katherine, vítima da própria carência, caiu como um patinho. Apoiou o "gênio incompreendido" e prometeu ajudá-lo a ser reconhecido. Ela queria acreditar na mentira, mas a realidade era óbvia: Pierre não queria ser artista; ele queria ser herdeiro.
O Natal Amargo
O final do ano chegou e o Rio de Janeiro estava esplêndido. A cidade brilhava com decorações natalinas e o espírito de confraternização trazia famílias de todos os cantos. Na cobertura da Barra, porém, o clima era outro.
Ana Carolina decidiu fazer uma surpresa e usou sua chave reserva. A surpresa, no entanto, foi dela. Ao atravessar o hall, deparou-se com Pierre estirado no sofá, mergulhado em um videogame, enquanto o apartamento parecia negligenciado.
Katherine acabara de chegar de um plantão de vinte e quatro horas do estágio. Estava visivelmente esgotada, com olheiras profundas sob os olhos outrora vibrantes. Mesmo assim, estava na cozinha, preparando o almoço para o namorado.
— Eu não acredito no que meus olhos estão vendo! — a voz de Ana Carolina chicoteou o silêncio da sala. — Levanta daí agora, rapaz!
Ana não conseguia compreender como sua filha, sempre tão astuta, permitia aquilo. — Um casal requer união, Katherine! Vocês sabem o que isso significa? — Ela se virou para a filha, os olhos faiscando de dor e raiva. — O que você está fazendo da sua vida? Saiu de casa para se tornar empregada desse desocupado?
— Mãe, não começa... — Katherine tentou intervir com a voz fraca.
— Eu vou começar, sim! Esse moleque não estuda, não trabalha e você ainda o serve? Nós bancamos os luxos dele! Eu vejo a fatura do seu cartão, Katherine. É fútil, é vergonhoso!
— Ele é um artista, mãe! Ele trabalha nos quadros dele, só precisa de liberdade de expressão! — Katherine mentiu, a voz trêmula.
Ela sabia que Pierre nunca vendera uma única tela. O traço dele era medíocre, desprovido de talento ou alma. Mas, para manter a fantasia de "esposa de um gênio", ela sustentava a tese do sucesso iminente. Na verdade, Pierre já tinha tudo o que queria: uma conta ilimitada e uma hospedeira dedicada.
O Fim da Regalia
A paciência dos pais de Katherine esgotou-se. Diante das brigas constantes e das manipulações emocionais de Pierre, eles tomaram uma medida drástica: bloquearam todos os cartões extras. Eles manteriam apenas os custos fixos do apartamento e as necessidades básicas da filha. O plano era simples: sem dinheiro, o parasita buscaria outra vítima.
Mas eles subestimaram a resiliência do abusador. O apartamento de luxo e o salário de residente de Katherine ainda eram o suficiente para Pierre. Por um tempo.
Quando o dinheiro realmente acabou naquele mês e as prateleiras da despensa começaram a esvaziar, a máscara de Pierre não apenas caiu — ela se estraçalhou. Foi então que Katherine conheceu, pela primeira vez, o homem com quem dividia a cama.