Pierre passou a sair todas as noites, aproveitando-se da rotina exaustiva de plantões de Katherine. Ele raramente dava explicações, e ela, mergulhada em livros e estetoscópios, demorou a notar que o silêncio dele não era respeito, mas distância.
A mudança foi visceral. O homem doce, gentil e apaixonado fora substituído por uma figura fria e distante. As flores murcharam e as surpresas mudaram de tom — para pior. O toque de Pierre tornou-se mecânico, egoísta e apressado. Katherine já nem se lembrava da última vez que sentira prazer; a i********e havia se tornado um deserto sem sal, onde apenas os desejos dele importavam.
E então, o canalha revelou-se ladrão.
Sem o cartão black à disposição, Pierre começou a saquear a própria casa para sustentar seu vício em jogos. Pequenos objetos sumiam, seguidos por joias de valor sentimental. Katherine sentia o cerco fechar, mas o ultimato veio em uma manhã cinzenta.
Ela chegou do hospital após um plantão que, por uma emergência, estendeu-se por vinte e quatro horas. Estava irritada, com sono e com a alma pesada. Ao procurar o anel de noivado no porta-joias, percebeu o vazio. Mas não foi o anel que a fez perder o chão. Desta vez, Pierre cruzara a linha sagrada.
— O colar da vovó... — sussurrou, desesperada, revirando gavetas. A peça de família, única e insubstituível, não estava lá. — Eu não acredito que ele foi capaz!
Bufando de raiva, ela sentou-se na sala e esperou. Esperou por horas, mas naquela noite Pierre não voltou. Dois dias se passaram em um silêncio angustiante. No terceiro dia, ele apareceu "com o rabinho entre as pernas". Cambaleando e com o rosto marcado por hematomas, Pierre entrou no apartamento.
— O que aconteceu com você? — A raiva de Katherine, por um breve e traidor momento, transformou-se em pena.
Seu coração, ainda amarrado por restos de afeto, amoleceu. Ela o ajudou a sentar, limpou o sangue e ouviu a mesma desculpa de sempre: — Fui assaltado, levaram tudo.
— Por favor, não minta mais — ela pediu, a voz embargada. Mas Pierre, com seu olhar de "cachorro manhoso", conseguiu silenciá-la mais uma vez.
O Despertar da Leoa
Os meses se passaram em um ciclo vicioso de mentiras e perdas. Katherine formou-se antes do tempo, trabalhando como nunca para sustentar o luxo de um homem que a destruía aos poucos. Certa noite, porém, ao notar que até o vaso de porcelana de sua mãe havia sumido, o surto foi inevitável.
— Aquele miserável vai me pagar!
Ela subiu as escadas "cuspindo fogo". No quarto, Pierre estava estirado, bêbado e novamente machucado. — Onde está o vaso da minha mãe? — gritou, sacudindo-o.
— Amor... invadiram a casa — ele balbuciou, forçando um choro. — Estavam armados... eu quase morri para te proteger...
Desta vez, Katherine não chorou. Ela sorriu. Um sorriso gelado e cortante. — Sério? E como eles eram? Me conta os detalhes, Pierre. Quero saber exatamente quem entrou aqui.
Ela o bombardeou com perguntas, assistindo à performance de um ator nato que começava a gaguejar. A cada mentira, um pedaço do amor que ela sentia morria, tornando o próximo passo muito mais fácil.
— Vai me contar a verdade ou prefere que eu recorra às câmeras?
— Câmeras? — Pierre estacou, a palidez substituindo o rubor do álcool.
— Sim. Instalei câmeras ocultas depois do último "assalto". Estranho, não? Nenhum vizinho foi saqueado, apenas o meu apartamento. Um prédio desse patamar... a segurança teria visto algo. Mas as câmeras viram você, Pierre.
O homem arregalou os olhos. A máscara de vítima caiu, revelando o monstro. — Você já sabe de tudo, sua i****a? Por que pergunta, então?
— i****a? Você rouba minha família e a i****a sou eu?
Em um acesso de fúria, Pierre levantou a mão para atingi-la. Mas ele cometera um erro fatal: esquecera-se de quem Katherine era antes de ser sua "esposa". Antes que a palma dele alcançasse seu rosto, ela interceptou o golpe, segurando seus dedos com uma pressão que ameaçava estraçalhar os ossos.
— Ai! Me solta, sua louca! — ele gemeu, retorcendo-se.
— Eu sou faixa preta de jiu-jitsu e entendo bem de boxe, Pierre. Nunca mais ouse levantar essa mão imunda para mim — ela sibilou, soltando-o com desprezo. — Fora da minha casa. Agora!
— Você não pode me mandar sair! — ele gritou, recuperando a arrogância. — Sou seu marido, tenho meus direitos!
Katherine soltou uma gargalhada nervosa, carregada de ironia. — Marido de mentirinha, lembra? Não somos casados no papel.
Pierre deu um sorriso vitorioso, um brilho diabólico nos olhos. — Sobre isso... Quando você assinou aqueles "papéis da união estável" meses atrás, na verdade, estava assinando nossa certidão de casamento. Com comunhão de bens e tudo. Você não vai se livrar de mim tão cedo, doutora.