Pré-visualização gratuita 01 ISABELA
ISABELA NARRANDO
Olho o portão grande de metal e aperto o volante do meu carro com força, sentindo os dedos tensionarem contra o couro. Mordo o canto da boca e sinto o corpo tenso, rígido, travado, como se cada parte de mim estivesse em alerta.
O lugar impõe respeito. O tipo de lugar que não pede silêncio… ele exige.
Eu me chamo Isabela Rodrigues e tenho vinte e cinco anos.
Tenho a pele morena, marcada pelo sol e pela vida que eu vivi até aqui. Os cabelos castanhos escuros descem até a altura do quadril, longos, pesados, sempre bem cuidados. Meus olhos são castanhos, atentos, observadores… do tipo que não deixam nada passar.
Tenho um corpo bem definido. Cintura fina. s***s e quadril médios e as pernas são na mesma proporção, nada exagerado. Nada de menos.
E eu me amo assim como sou. Demorei…, mas me construí assim. Me aceitei assim. E hoje ninguém tem o poder de me fazer sentir menor.
Eu sou advogada criminalista. E a minha decisão de ter me formado nessa área foi pelo meu irmão.
Ítalo hoje em dia tem trinta e oito anos. Ele está preso há treze anos. Foi preso quando eu tinha apenas doze.
Treze anos. É tempo suficiente pra destruir uma vida… ou transformar outra.
Eu fui criada pelo meu pai e meu irmão. Sempre tive os dois como meus heróis. Não os heróis perfeitos de filme…, mas os meus heróis. Os únicos que eu tive.
Meu pai era sempre mais fechado, mais sério. Um homem de poucas palavras, olhar firme, presença pesada. Do tipo que não precisava levantar a voz pra ser respeitado.
Mas me dava amor como ninguém nunca me deu na vida. Do jeito dele… silencioso, bruto…, mas real.
Já o Ítalo, eu sempre o amei muito.
Ele era o tipo de irmão cuidadoso, meloso, puxa-saco. Sempre atrás de mim, sempre implicando, sempre me protegendo.
Mas por trás de tudo isso… tinha um homem que me amava com todas as forças. E eu sabia. Sempre soube.
A minha mãe? Ela morreu no parto, então nunca a conheci pessoalmente.
Mas por fotos eu soube como ela era linda e a quem eu puxei. Se bem que o Ítalo é mais parecido com ela. Talvez por isso meu pai olhasse mais pra ele… como se estivesse vendo um pedaço dela ainda vivo.
Então. Meu irmão foi pego no artigo 155.
Quando eu e meu pai soubemos, o mundo caiu. Não foi só uma notícia. Foi um impacto. Um peso no peito que até hoje eu sinto.
Meu pai foi na boca. Quis saber quem mandou o meu irmão até lá fazer isso. Foi atrás de resposta, de explicação… de alguém pra culpar.
Mas Tirano, que era o chefe do morro na época, disse que o Ítalo não trabalhava pra ele.
Que sempre pediu pra entrar…, mas que ele nunca aceitou. Porque algo dizia que não dava pra confiar nele.
Quando meu pai me disse isso, por mais grata que eu tenha ficado por ele não ter entrado para o movimento, eu fiquei com ódio. Um ódio seco, preso, difícil de engolir.
Eu não aceitei que ele falasse que meu irmão não era uma pessoa confiável. Ninguém fala de quem é meu assim.
Quando meu pai foi procurar saber o que realmente aconteceu, ninguém disse. Ninguém abriu a boca. Ninguém quis se meter. Só soubemos no dia do julgamento.
Ele assaltou um policial. Tentou roubar o carro dele e quase o matou na frente da esposa e dos dois filhos. Na época, as crianças tinham a minha idade. Hoje em dia, então, já são adultos como eu. E talvez ainda carreguem aquela cena na memória… assim como eu carrego o peso dessa história.
O policial conseguiu render o meu irmão. E aí ele foi preso. Simples assim.
Uma decisão. Um erro. E uma vida inteira destruída. Eu fiquei decepcionada com o meu irmão. Fiquei. Mas ainda assim, era o meu irmão. Nada muda isso.
Ele foi preso e jogado dentro do presídio sem direito a nada. Sem defesa digna. Sem alguém por ele. E meu pai nunca quis visitar. Nunca.
Talvez por orgulho. Talvez por dor. Talvez porque não conseguiu aceitar.
A minha saudade do Ítalo era tanta que doía fisicamente. Era um aperto constante no peito, um vazio que nunca se preenchia. Pra uma criança... aquilo não poderia ser verdade. E eu prometi pra mim mesma fazer algo que tirasse ele daquele lugar. E então decidi ser advogada.
Não foi escolha. Foi destino. Hoje eu sou a melhor e mais procurada advogada criminalista do país. Mesmo jovem, eu já fiz o meu nome. Construí respeito, construí poder, construí autoridade.
Sou chamada para casos grandes, difíceis, impossíveis. Casos que outros recusam. Casos que já chegam perdidos. E de todos os cem que eu já conduzi desde que me formei por completo… Eu nunca perdi um. Nunca. Porque eu não entro pra perder.
E hoje eu estou aqui. Parada na frente de um portão de ferro alto, frio, pesado. Cercado por muros que escondem histórias que ninguém quer contar.
O mesmo tipo de portão que engoliu o meu irmão treze anos atrás.
Respiro fundo, sentindo o ar pesar dentro do peito. O cheiro do lugar é diferente. O clima é diferente. Tudo aqui parece avisar que, uma vez que você entra… nada sai igual.
Hoje, depois de anos, eu finalmente consegui autorização pra visitar o meu irmão.
Depois de anos tentando. Depois de portas fechadas. Depois de negativas... negativas que eu mesma não entendia por quê.
Mas hoje… eu vou olhar pra ele de novo. E alguma coisa dentro de mim já sabe. Nada vai ser como antes. Nada.
AMORES AQUI INICIAMOS MAIS UM LIVRO... ESSE LIVRO TERÁ ATUALIZAÇÃO DIÁRIA DE SEGUNDA A SÁBADO.
DOMINGOS E FERIADOS NÃO TEM ATUALIZAÇÃO.
PARA MAIS INFORMAÇÕES E PARA CONHECER OS PERSONAGENS ENTREM NO IG... AUT_LILIFREITAS.