Pré-visualização gratuita O Preço da Primeira Impressão
Keila:
-Moça?"
A voz me trouxe de volta das nuveis sorri. Não era um sorriso real, era aquele movimento automático de quem precisa bater a meta para garantir o leite do final do mês. A mulher à minha frente me olhou de cima a baixo, um desdém quase invisível, mas que eu já tinha aprendido a farejar de longe.
— Queria ver a nova coleção de sport — disse ela, com uma voz que nunca precisou gritar para ser ouvida.
— Aceite, delicada — respondi, gesticulando com as mãos para trás, indicando o caminho. — Por aqui, por favor.
Enquanto ela revisava as araras com um olho clínico e dedos que pareciam nunca ter lavado uma louça, meu estômago roncou. Um protesto alto, dolorido. Saí de casa tão depressa pela manhã que o café ficou para trás. Minha prioridade era o Doruk. Arrumei meu filho, deixei ele na vizinha que cuida dele desde bebê — a rede de apoio que mantém uma mãe solo de pé — e corri para não perder o ônibus.
— Quero este, moça. Em P.
Segurei o conjunto: short e saia de um tecido tecnológico, "anti-água", uma modernidade que custava mais do que meu aluguel.
— Com certeza.
Caminhei em direção ao estoque. Meus pés latejavam. Os calos causados por aqueles saltos eram torturantes, verdadeiras agulhas espetando a cada passo. Mas a "ordem de cima" era absoluta: nós éramos a primeira impressão da loja. E aqui, só a elite pisava. No computador, registrei o pedido enquanto minha colega passava o cartão de crédito preto da cliente. Outra vendedora desceu com o pacote pronto, impecável.
— Aqui está, senhora. Obrigada.
Ela saiu sem dizer uma palavra, a cabeça erguida como se o mundo fosse seu jardim particular.
— Sabe quem é ela, Keila? — Minha colega me cutucou com o cotovelo.
Dei de ombros, pouco importando. Eu só queria sentar.
— A mulher daquele modelo famoso, o que aparece em todos os comerciais.
— Hum — murmurei.
Dei as costas e comecei a circular pela loja, fingindo organizar as peças, mas na verdade apenas contando os minutos.
Trinta minutos depois, o paraíso chegou: minha hora de almoço. O banquete era o de sempre: um pão seco de ontem com manteiga e uma garrafa de água. Engoli tudo rápido, quase sem mastigar. No varejo, quanto mais você vende, mais ganha, e a meta estava ali, rugindo no meu ouvido. Eu precisava sustentar a mim e ao meu bebê.
A tarde passou entre clientes difíceis e o cansaço acumulado. Quando o turno acabou, saí da loja cronometrando os segundos. Tinha exatamente vinte e cinco minutos para buscar o Doruk.
O ritual de libertação começou assim que cruzei a porta de saída: arranquei os saltos, segurando-os na mão, e enfiei os tênis velhos nos pés. O alívio foi quase espiritual. Comecei a corrida diária, passando pelos mesmos rostos, pela mesma monotonia do centro, até chegar à casa da Ísis.
Bati palmas, ofegante.
— Chegou a mamãe! — Ísis disse, abrindo a porta e me entregando a bolsa de fraldas.
Doruk pulou no meu colo. No momento em que meu rosto encostou no pescoço dele, senti aquele cheiro. Era o cheiro dele que fazia cada calo, cada humilhação e cada estômago vazio valer a pena.
— Até amanhã, Ísis!
Começamos a subida do morro. A cada passo, a inclinação parecia maior, mas o peso do Doruk nos meus braços era o que me dava equilíbrio. Ele, pequeno e falante, cumprimentava todo mundo.
— Dona Arlete! E essa perna, como anda? — perguntei ao passar pela senhora sentada no portão.
— Bem melhor, filha! — ela sorriu.
— Ainda bem.
Eu estava em casa. O luxo da loja tinha ficado para trás, mas a vida real estava apenas começando.