Capítulo 2

1175 Palavras
​A claridade do sol da manhã de domingo invadia o quarto, batendo sem cerimônia no meu rosto. Abri os olhos, ainda sentindo o peso do sono, e notei que a porta do quarto de Mateo estava entreaberta, revelando um pedaço do seu santuário. Estiquei o braço até a mesinha lateral, tateando o celular. Onze horas. Um horário quase criminoso para um domingo, mas, considerando o que a noite anterior tinha sido — um misto de estudos, fome e uma dose desnecessária de Felicity —, o descanso era bem-vindo. ​Suspirei, jogando o celular no colchão, e me sentei na ponta da cama. Sem pressa, curvei-me para vestir o short do pijama. O silêncio do apartamento era quase sagrado. Levantei-me, ignorando os chinelos, e caminhei até a janela. O dia em Seattle estava, surpreendentemente, convidativo: o sol brilhava lá fora e o vento, apesar de presente, não tinha aquela picada gélida habitual. ​Olhei para o meu quarto, o meu refúgio. As paredes brancas, que eu insistia em manter assim por ser um imóvel alugado, contrastavam com a cabeceira cinza da minha cama e os lençóis em tons de rosa e cinza. A penteadeira, no canto, era um caos organizado de maquiagens, chapinha e perfumes. Ao lado, minha estante de livros, onde Corte de Espinhos e Rosas repousava sobre a mesinha, ao lado de um abajur de coração. ​— Hoje ninguém é de ferro — murmurei para mim mesma, decidindo ignorar a cama desarrumada. ​Fui ao banheiro, escovei os dentes e joguei água gelada no rosto. Ao sair, arrastei os pés até o quarto de Mateo. Ele ainda estava entregue ao sono, deitado no centro da cama de casal, sem camisa, usando apenas uma bermuda preta. O rosto estava enterrado no travesseiro, que ele abraçava como se sua vida dependesse daquilo. Aquela cena — ele, tão vulnerável — me causou um aperto familiar no peito. ​Aproveitei o espaço que ele deixou e me deitei ao seu lado, passando a mão pelo seu cabelo castanho, bagunçado pelo sono. ​— Me acordando com carinho? — Ele abriu um dos olhos azuis, o brilho da manhã tornando-os ainda mais intensos. — O que você quer, Chanel? ​— Não posso ser carinhosa com meu melhor amigo? — perguntei, fingindo uma ofensa que não sentia. ​— Pode, mas eu te conheço. Você está tramando algo. Fala logo. ​— Mercado. Precisamos de mantimentos para o café e, principalmente, de algo para o almoço. ​— Você quer dizer: algo para eu fazer no almoço — ele fechou os olhos novamente, virando o rosto para o outro lado, tentando ignorar a minha existência. ​— Eu prometo ajudar dessa vez! — Subi nas costas dele, equilibrando-me, e deitei minha cabeça perto do seu ouvido. — Vamos, Mateo, por favorzinho. ​— O que eu ganho com isso? ​— Comida, seu esfomeado. É o básico da sobrevivência humana. ​— Não me parece uma vantagem muito justa, considerando que a cozinha é o meu reino. ​— Tá bom, tá bom! — tentei a última cartada. — Eu deixo você assistir ao seu jogo na TV a tarde toda. Sem reclamações sobre o meu estudo ou sobre eu querer ver minhas séries. ​Ele sorriu, aquele sorriso de canto que dizia que eu tinha caído na armadilha dele desde o início. ​— Proposta aceita. Agora, desce daí para eu me levantar. ​Corri para o banho, um "banho de gato" eficiente, e, ao sair, vesti um vestido azul-marinho de alcinhas, com bolinhas brancas, soltinho e fresco. Não passei maquiagem, apenas prendi o cabelo. Mateo já estava de pé, usando bermuda cinza e uma camisa branca simples, parecendo que tinha acabado de sair de um comercial, mesmo com o cabelo ainda um pouco despenteado. ​— Pode fechar o laço das costas para mim? — pedi, virando-me e jogando o cabelo úmido para frente. ​Senti os dedos dele, firmes e precisos, amarrando as fitas do vestido. O toque dele na minha pele, ainda que casual, me causou um arrepio que tentei disfarçar. ​— Pronto — disse ele, pegando as chaves. ​No caminho até o elevador, discutimos o cardápio. ​— Costela com molho barbecue e batatas — sugeriu ele. ​— E de sobremesa? Nada de sorvete, Mateo. Domingo é dia de se esbaldar. Vamos fazer cheesecake. ​— Você é um perigo, sabia? — ele riu, enquanto caminhávamos para o estacionamento. ​Ao entrarmos no carro, a música Middle of the Night começou a tocar no rádio. O silêncio entre nós foi quebrado pela voz dele, num tom mais sério. ​— Sobre ontem... a Felicity. Eu não devia ter levado ela para lá. ​— Mateo, para com isso. Ela é sua namorada, é normal levar para casa. ​— Nossa casa — ele corrigiu, com uma careta. — E ela não é minha namorada. Ou, pelo menos, não deveria ser. Eu não quero mulheres que não sejam especiais na minha casa, Chanel. Principalmente à noite. ​Fiquei em silêncio, processando. ​— Você ia terminar com ela, não ia? ​— Ia. Mas ela me beijou, e eu acabei travando. Mas, da próxima vez, eu encerro isso. ​— E a Juliana? ​— Terminei — ele soltou a bomba enquanto manobrava o carro no estacionamento do mercado. ​Fiquei estática. ​— Como assim? Você terminou com as duas? O que está acontecendo, Mateo? ​— Nada demais. Só cansei de complicações. Quero ficar sozinho um pouco. ​Ele desligou o carro e saiu, deixando-me para trás, tentando entender o vazio repentino que as palavras dele causaram. Eu sabia que ele não ia se explicar agora. Ele era assim: guardava as tempestades para si até que elas passassem. ​Dentro do mercado, o clima mudou. Ele pegou o carrinho e foi para a ala das carnes, enquanto eu fui para a minha missão: as "besteiras". Bolachas, salgadinhos, chocolates. E, claro, a ala dos congelados, o nosso salva-vidas acadêmico. ​— Quem te visse pegando tudo isso, diria que você é uma criança de cinco anos — ele brincou, aproximando-se com a carne da costela. ​— E quem te visse falando isso, diria que você não vai atacar o meu estoque de chocolates hoje à noite — retruquei, dando um empurrãozinho de leve nele com o quadril. ​Mateo riu, e por um momento, a tensão de ontem pareceu desaparecer. Estávamos ali, apenas nós dois, entre corredores de supermercado, como se o resto do mundo não existisse. Mas, enquanto ele se distraía com os temperos, eu não pude evitar olhar para ele e me perguntar: será que ele realmente quer ficar sozinho, ou ele está apenas esperando algo que eu ainda não tenho coragem de oferecer? ​O mistério pairava no ar, tão denso quanto o cheiro do perfume amadeirado que ele ainda usava. Domingo estava só começando, e eu sentia que, entre uma fatia de cheesecake e uma costela bem assada, muitas verdades precisariam ser ditas.
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