Dizem que bebês não lembram de nada, mas existem histórias que ficam tatuadas na nossa alma de tanto que as ouvimos. Depois da reviravolta no meu nascimento, minha mãe tentou reconstruir a vida e se casou novamente. Desse novo caminho veio meu irmãozinho, e com ele, ganhei uma pessoa que o destino colocou na minha vida para ser meu anjo: a mãe do meu padrasto. Embora o sangue não nos unisse, ela me tratou a vida inteira como se eu fosse sua verdadeira neta, com um amor que não fazia distinção.
Ela, uma mulher de muita fé, decidiu que era hora de me apresentar na igreja. Eu era apenas um bebê indefeso em seus braços. Ela me contava que, assim que cruzamos a porta do templo, o clima mudou de uma forma inexplicável. Segundo o seu relato, parecia que algo sombrio estava furioso com a minha presença ali. Minha avó descrevia uma cena de arrepiar: uma mão preta, imensa e pesada, pareceu entrar na igreja, escurecendo tudo ao redor, como se quisesse me alcançar e me tirar dali.
No meio daquela escuridão repentina e do medo que pairava no ar, minha avó não recuou. Ela não me soltou. Com a coragem de quem protege o que tem de mais precioso, ela correu para o meio do círculo de oração. Segurando meu pequeno corpo de bebê, ela me levantou para o alto, entregando minha vida ao sagrado, enquanto todas as irmãs da igreja começaram um clamor fervoroso. Ela dizia que, conforme as orações subiam, aquela sombra foi batendo em retirada até sumir por completo.
Aquele dia deixou claro algo que eu levaria 28 anos para entender: minha vida sempre foi um campo de batalha espiritual. Desde pequena, algo tentava apagar minha luz, mas eu sempre tive mãos fortes para me segurar. Minha avó, que me escolheu como neta de coração, foi a primeira grande muralha contra as sombras que tentariam me cercar na jornada que estava apenas começando."