Sendo despertada minutos antes do som do seu despertador, Claire estranhou tal ato repentino, pois esperava ter seus ouvidos sendo invadidos como vinha sendo em todos os momentos anteriores àquele. Porém, não estava afim de ficar ali para entender como aquilo foi acontecer, queria seguir o dia de forma cautelosa e eficiente. Esperava alcançar o objetivo desejado dessa vez, e indo um pouco mais além, espera que a jovem cientista de olhos tão claros quanto os seus, se lembrasse dela, se lembrasse do que ocorreu entre elas antes da ação de Gabriela ao deixarem o apartamento da mais velha.
Não conseguia entender como aquilo foi acontecer daquela forma. Estavam a ponto de encerrar o dia, faltavam poucos minutos, mas não poderia aceitar o bater de zero horas no relógio com a morena lutando pela vida sem poder obter sua ajuda. Precisava pensar rápido, agir dentro do pouco tempo que possuía, precisava jogar uma isca para fazer o que fosse preciso, e foi exatamente o que fez.
Desejava encerrar aquele dia mais do que tudo, mas não estava disposta a fazê–lo sem ter a cientista ao seu lado para isso. Acreditava em todas as teorias, sabia que a lógica da mais velha era verídica, estavam naquela situação a mais tempo do que poderia se lembrar. Mas possuía a certeza de que a cientista havia se lembrado de algo a mais na noite passada. Não lhe disse nada, mas se lembrava de algo.
Diferente do que vinha fazendo desde o primeiro momento, Claire não se preocupou em despedir–se de sua mãe. Havia acordado mais cedo do que o esperado, então não estranhou que a Novak mais velha ainda não estivesse presente na cozinha. Sendo assim, possuía um único ponto em mente, e percebendo o horário, estava certa de que chegaria antes da mesma deixar seu apartamento, e não poderia estar tão certa quanto a isso.
A jovem cientista havia sido despertada pelo toque suave do seu despertador, que sendo do seu agrado, estava sempre com o som ajustado bem próximo a neutralidade, pois possuía um sono bem leve. No entanto, por motivos que a mesma desconhecia, não quis sair da cama com a mesma disposição de sempre. Ignorando o horário, se virou para o lado cobrindo até a cabeça ao acionar mais quinze minutos de sono, que parecendo voar como vento, rapidamente acionou novamente o seu alarme.
Dessa vez, mesmo que não estivesse com toda a vontade do mundo, se levantou indo até seu banheiro para um banho calmo, que lhe passasse toda a sensação de alívio e de relaxamento muscular, pois era tudo o que a mesma precisava para começar a tentar entender o estranho sonho que tivera durante a noite. Principalmente porque não se lembrava de ter visto aquela jovem alguma outra vez em sua vida, mas havia a certeza de que tudo o que aconteceu era de seu mais repleto consentimento. Na realidade, tudo indicava que era ela mesma quem teve tal iniciativa, e mesmo não entendendo muito, sentia que o sentimento que a levou a tal ação, estava ali, presente em algum lugar. Mas não era possível se apaixonar por alguém dentro de seu próprio sonho e trazer tal sentimento à vida real, ou era?
Não possuía certeza de nada, a não ser que estava super atrasada para o início de mais um dia no trabalho. Sendo assim, se vestiu da forma apropriada já tomando posse do seu celular que se encontrava sobre o criado mudo, onde buscava na gaveta do mesmo, algo que não fazia ideia do que poderia ser, mas não escondendo a surpresa ao encontrar uma das folhas de sua agenda com seu nome no verso. Não se lembrava de ter a deixado ali, muito menos do porque faria isso, apenas tomou posse daquele pequeno pedaço de papel, e se colocou a ler com atenção tudo o que estava escrito ali.
Era uma pessoa de QI extremamente elevado, percebeu a força das palavras escritas, a forma como foram descritas. Notou como uma determinada parte havia sido escrita posteriormente à primeira, mas não entendia o porquê, muito menos como aquelas palavras poderiam fazer tanto sentido mesmo sendo algo tão louco.
Como poderiam ter sido escritas por ela, se a mesma não se lembrava de nada daquilo?
Claire. Esse nome não lhe era estranho, mas de onde o conhecia?
Não fazia ideia de como obter tais respostas, mas foi obrigada a sair de seus próprios pensamentos para caminhar até a porta, onde sua atenção era necessária.
Pelo horário, estranhou ter alguém se fazendo presente em seu apartamento, principalmente porque nunca recebia visitas, nem mesmo de seus familiares mais próximos. No entanto, se sentiu bem ao fixar o olhar sobre a jovem à sua frente, e mais uma vez naquela manhã, se surpreendeu ao perceber que aquela moça de olhos tão verdes quanto uma floresta nativa, era a mesma jovem do seu sonho. Então, rapidamente o seu cérebro associou aquele belo rosto ao nome que leu há minutos atrás, e como em um filme de flashback, várias cenas misturadas vieram em sua mente, todas envolvendo a jovem na frente dos seus olhos, lhe mostrando que não era estranho aquele sentimento ligado ao sonho que teve, pois conhecia aquela moça há mais tempo do que poderia imaginar.
– Bom dia, e me desculpa aparecer assim, mas precisava conversar com você – A jovem lhe cedeu o breve cumprimento já explicando o seu ponto e não escondendo seu nervosismo, o que não passou despercebido pela jovem cientista, que se limitou a um breve e largo sorriso, deixando a bela estagiária ainda mais nervosa, pois a Novak não fazia ideia de como prosseguir com todo o assunto sem parecer estar louca. Não precisava passar por esse momento uma vez mais, principalmente estando tão certa sobre tudo, estando tão certa dos seus sentimentos – Sei que está atrasada, mas será que posso entrar?
– Claro, por favor, fique à vontade – Tratou logo de ceder espaço para que a de olhos verdes pudesse adentrar seu apartamento, e fechando a porta logo atrás de si, indicou o sofá para a mais nova enquanto se colocou sobre a mesa de centro, não perdendo o contato visual sobre a jovem – O que deseja me falar?
– Sei que vai parecer loucura, mas garanto que não é – Aderindo uma abordagem completamente diferente, a jovem aspirante buscou se explicar antes de qualquer coisa, pois precisava de foco e atenção, e principalmente, precisava que a cientista à sua frente não a desse como insana ao menos dessa vez – Preciso que acredite em mim para que tudo possa dar certo desde o início.
– Eu literalmente não estou te entendo, Claire, mas acho que não precisa ter tanto medo quanto a isso – A morena sorriu ao se pronunciar, e mesmo que para ela fosse algo normal a si dizer, para a de olhos verdes era muito mais do que isso, significava quase o mundo, e por esse motivo, não pôde deixar de sorrir com tal comentário, o que chamou de imediato a atenção da jovem cientista de olhos extremamentes brilhantes, que ainda lhe observava atentamente, procurando entender o porquê de tal sorriso nascer nos lábios da mais nova – Falei algo que não deveria? – Diante o silêncio, se sentiu no dever de questionar, sendo pega de surpresa por um inesperado abraço logo em seguida, o qual não pensou duas vezes antes de retribuir, pois se sentiu muito bem ao ter aquela bela jovem de cabelos castanhos presa dentro do seu abraço. Se sentiu na obrigação de a proteger até mesmo do mundo se fosse necessário, e perante as pequenas memórias que insistiam em invadir sua mente a cada segundo na presença da mais nova, entendia muito bem o porquê de tudo aquilo.
– Você se lembrou de mim, depois de quatro tentativas, dessa vez você se lembrou sem precisar ouvir nada – A voz de Claire saiu abafada, pois a mesma se manteve com o rosto escondido no vão do pescoço da mais velha, buscando entender a si própria antes de voltar a encarar a intensidade daquele olhar sobre si. Estava confiante, certa de que poderia agir de forma condizente com tudo o que o momento poderia vir a pedir. Agiria para evitar perder quem havia lhe ensinado a amar sem nem mesmo perceber. Estava se cansando de sempre viver aquele maldito desfecho.
– Parece que ter sido eu a criar essa pequena descoberta aqui, me faz manter certos impulsos, e até mesmo flashes de memória – Tomando uma pequena distância da jovem estagiária, disse exibindo um divertido sorriso ao erguer sua invenção, pois acreditava estar certa quanto aquilo, e talvez realmente estivesse. Afinal, mesmo sendo a portadora de tal objeto toda vez que alcançam o fim do dia para ambas, a jovem de olhos esverdeados não conseguia se lembrar de nada que retrocedesse quatro dias atrás. Mas o que isso poderia significar? Será que em algum momento ela iria obter tais lembranças? O que aconteceria se isso viesse a acontecer?
Eram muitas perguntas para poucas respostas e talvez nada viesse a mudar, mas uma coisa era certa para as duas jovens mulheres. O sentimento entre ambas existia, e se tornava mais forte a cada vez que aquele dia se repetia.