Capítulo 1– Ecos do Silêncio

1736 Palavras
A base estava silenciosa quando Navalha passou pelos portões de ferro. O tipo de silêncio que incomoda mais que o barulho. O tipo que grita nas entrelinhas e espreita por trás dos olhares desviados. Ele carregava mais que uma mochila nos ombros — arrastava os fantasmas da Colômbia, e os pés pesavam como se cada passo trouxesse o eco de um nome que ele não conseguiu salvar. Sujo de poeira e sangue seco, com o rosto coberto de sombras, Navalha entrou sem cerimônia. Os soldados ao redor desviaram o olhar. Alguns disfarçaram, outros recuaram meio passo. Ninguém ousava cruzar os olhos com o homem que voltara sozinho da missão que ceifou sete vidas. Ele andava como uma fera solta no meio dos vivos. Vivo... mas ferido de um jeito que ninguém queria tocar. Na sala de comando, o som das teclas parou por um segundo. Apenas um segundo. Depois tudo voltou a funcionar como se ignorá-lo fosse a melhor forma de não se contaminar com a dor. — Já foi recepcionado? — perguntou uma voz suave, mas firme. Ele virou o rosto devagar, como se não estivesse acostumado a ser abordado com palavras. Ela estava ali. Diferente do resto. De pé, com um fichário em mãos e um olhar curioso. Os olhos dela eram cor de mel — não castanhos, não dourados. Mel. Quentes. Observadores. Sem medo. — Não. Mas também não pedi festa. — Navalha respondeu com a voz rouca, como se a garganta fosse feita de navalhas mesmo. O tom era ácido. Mas não surtiu o efeito esperado. Ela sorriu. — Sou Marta. Psicóloga da base. Fui designada para acompanhar seu retorno. — — Psicóloga? — Ele arqueou a sobrancelha, soltando uma risada curta, sem humor. — Vai me dar um abraço terapêutico e dizer que vai ficar tudo bem? Ela se aproximou mais um passo, desafiadora. Seu perfume era discreto, mas alcançou ele como um sopro inesperado de paz. Um perfume com cheiro de calma, e Navalha não lembrava como era se sentir calmo. — Não. Mas posso ouvir você destruir o mundo com palavras, se isso ajudar. — disse ela, firme. Houve um segundo de silêncio denso. O ar entre eles parecia vibrar. Ele a olhou nos olhos — realmente olhou. Pela primeira vez em dias, talvez semanas, ele viu um rosto que não recuava diante da escuridão que ele carregava. Foi nesse momento que algo mudou. Um ímã invisível, impiedoso, puxou um ao outro por dentro. Navalha desviou os olhos, rápido. Mas Marta viu. Viu a faísca. — Seu apelido é real ou é só ironia? — ela perguntou, tentando quebrar o gelo. — É... funcional. — respondeu ele, puxando a manga e revelando a cicatriz no antebraço. Uma lembrança da primeira missão, um corte que quase custou a vida. — Me deram o nome depois que sobrevivi a isso. E porque sempre fui... direto ao ponto. Ela segurou o riso. — Navalha... direto ao ponto. Entendi. Humor ácido também é escudo? Ele lançou um olhar demorado a ela. Como quem avalia se deve ou não permitir proximidade. O silêncio entre eles virou uma arena de tensão. Não havia barulhos, mas o coração de Marta batia alto no peito. Navalha inclinou levemente a cabeça. — Por que está aqui, Marta? — — Porque alguém tem que ver você de verdade. Essa frase. Essa maldita frase o atingiu como um golpe seco no estômago. Ele ficou imóvel por um segundo. Depois, com um suspiro, virou-se para o corredor. — Então se prepare, psicóloga. Porque o que vai ver... não vai gostar. E foi embora. Mas seu passo desacelerou. Ela o tinha tocado. Sem encostar. E assim, no meio do silêncio, o eco do que viria começou a vibrar. O olhar de Navalha era como uma lâmina afiada que cortava o ar entre eles. Marta sustentou, sem piscar. Ele viu. Pela primeira vez em muito tempo, alguém não desviou o olhar. Aquilo o desestabilizou mais do que qualquer emboscada. Ela não vestia farda. Não carregava armas. Mas havia algo na presença dela que era perigosamente desarmante. Seus cabelos estavam presos de forma displicente, e ela usava uma blusa simples de algodão, mas havia uma firmeza no queixo e uma curiosidade viva nos olhos que o atingiu como um soco. "Eu te vejo. E não tenho medo." As palavras ecoaram em sua mente mesmo que ela ainda não as tivesse dito. Marta falava com os olhos. E isso o irritava. Não gostava de ser lido. Muito menos decifrado. — Você é a psicóloga nova? — ele perguntou, com um tom ríspido, carregado de ironia. — Sou. E você é o famoso ‘Navalha’. — ela respondeu, com um leve sorriso, sem dar um passo atrás. Famoso. Ele odiava essa palavra. Fama era para os vivos. E ele não se sentia exatamente um deles. — Não sabia que heróis também precisavam de terapia — ele soltou, com o deboche escorrendo da voz. Marta inclinou levemente a cabeça, avaliando-o como quem estuda um enigma. — E eu pensei que os mais perigosos fossem os que mais fingem não precisar de ajuda. Navalha engoliu seco. Aquilo o atravessou. Como ela ousava? Ele deu dois passos à frente, ficando perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro metálico que ainda emanava de sua pele — resquícios da missão, da morte, da dor. — Você não faz ideia de quem eu sou — ele sussurrou. — Ainda não. Mas quero descobrir — ela respondeu, sem recuar. O coração de Navalha acelerou. Não por desejo. Não ainda. Mas por alerta. Aquela mulher era um risco. Marta, por sua vez, não sabia explicar o que sentia. Era medo. Era fascínio. Era um estranho desejo de entender a dor por trás daquela armadura de sarcasmo e brutalidade. Ela havia lidado com soldados antes, com traumas, com mentes fragmentadas. Mas nada como ele. Ela percebeu que Navalha era como uma granada sem pino — pronto para explodir a qualquer toque m*l calculado. Mas havia beleza ali. Uma beleza crua. Trincada. Ela viu quando ele piscou devagar, como se seu corpo estivesse cansado de carregar o peso de todos os pecados do mundo. E naquele instante, algo nele cedeu. Um milímetro, talvez. Mas cedeu. Impacto. Imediato. Irreversível. Ele a olhou de novo, agora com menos frieza, e mais... raiva. Raiva do que ela despertava. Raiva do fato de ela ter visto além da pele marcada, da reputação, dos arquivos confidenciais. — Eu não sou um projeto de laboratório, doutora. Não me analise. Ela sorriu, um sorriso sereno, quase provocativo. — Que pena. Porque você acabou de se tornar o meu favorito. Ele riu. Um riso seco, irônico, ferido. — Boa sorte, então. Vai precisar. E saiu da sala, deixando no ar um silêncio denso, impregnado de eletricidade. Marta ficou ali, sozinha, com o coração acelerado e as mãos trêmulas. O que era aquilo? Fascínio? Instinto? Loucura? Ela não sabia. Só sabia que aquele homem era um mistério que ela não conseguia — e talvez nem quisesse — resistir. E Navalha, já no corredor, respirava fundo tentando apagar a imagem dos olhos dela, mas quanto mais tentava, mais os via. Os olhos dela. Castanhos, intensos. Não fugiram. Não se esconderam. E, pior, não o temeram. Ele pressionou a palma da mão contra a parede fria, os ombros arqueados pelo peso invisível da lembrança. Por que aquilo o afetava tanto? Ele era treinado para lidar com dor, para ignorar sensações, para apagar rostos. Mas o rosto dela... Marta. Mal sabia o nome dela e já era um vírus no sistema que ele levou anos para construir. A risada que soltara minutos antes, debochada, seca, era uma farsa. Um disfarce. Porque por dentro, ele estava em guerra. Navalha sentia como se algo dentro dele tivesse sido acionado — um fio antigo, esquecido, enterrado em meio a entulhos de traumas e perdas. Algo despertara com o olhar daquela mulher. Algo que não queria ser acordado. A fortaleza cedeu. Por um segundo. E isso o enraivecia. Ele se encostou na parede, fechando os olhos. Os passos de outros soldados ecoavam ao longe, mas nenhum se aproximava. Ninguém se atrevia. Ele era Navalha. O último recurso. O homem que voltava sozinho das missões onde nem os satélites queriam olhar. Mas agora... agora ele estava ali, parado, tentando entender por que o cheiro leve de baunilha no cabelo dela ainda pairava em seu olfato. Por que a firmeza da voz dela o desarmava mais do que qualquer bomba. Ela invadiu. E ele sentiu. Como se ela tivesse encontrado uma rachadura e enfiado os dedos dentro da ferida que ele escondia há anos. Aquela frase — “Que pena. Porque você acabou de se tornar o meu favorito.” — ecoava como uma provocação sutil, mas letal. Ele não era o favorito de ninguém. Nunca foi. Na infância, o avô foi o único que se importou. O velho lhe deu a adaga e ensinou a sobreviver. Mas até ele partiu cedo demais, deixando apenas a arma, a raiva e um garoto aprendendo a sorrir com os dentes cerrados. Marta... aquela mulher de olhos sérios e coração corajoso... não tinha ideia do que havia feito. Ou tinha? Ele sentiu o peito apertar. A dor não era física. Era o tipo que ele evitava há anos. A que fazia o estômago revirar e o peito vibrar de medo. Sim, medo. Medo de que, pela primeira vez, alguém visse além da casca. Além da ficha técnica. Além do soldado. E se ela visse demais? E se ela quisesse ficar? “Não.” Ele sussurrou para si mesmo. Não podia. Não agora. Não com ela. Mas o rosto dela voltou. A curva dos lábios, o modo como ela não desviou o olhar, o leve brilho nos olhos... Ela o viu. De verdade. E ele... maldito seja... queria ser visto de novo. Por dentro, a batalha estava armada. Entre o instinto de correr e o desejo de voltar àquela sala. Entre a autoproteção e o ímã que Marta havia se tornado em menos de cinco minutos. Ele afastou-se da parede com um suspiro quase selvagem, fechando o punho com força. “Ela não vai voltar. É só curiosidade profissional. Ela vai cansar. Vai desistir.” Mas ele sabia que estava mentindo. Para si mesmo. Porque aquela mulher não tinha a menor cara de quem desistia fácil. E ele... já estava condenado a lembrar dos olhos dela.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR