Capítulo 2 – Primeira Faísca

1439 Palavras
A sala estava quente, ou talvez fosse apenas o coração de Marta acelerando sem permissão. Ela ajeitou a prancheta com mais força do que o necessário, como se o simples ato de organizar o objeto pudesse acalmar o turbilhão que vinha tentando ignorar desde ontem. Navalha voltaria hoje. Sessão marcada. Primeira oficial. A psicóloga com olhar clínico. O soldado com olhos que guardavam guerra. Ela estava preparada. Profissional. Imparcial. Inatingível. Ou era o que tentava se convencer enquanto ouvia a bota pesada dele ecoando no corredor. Um, dois, três passos... depois, silêncio. Ele sabia exatamente onde pisar, como impactar. Até a pausa dele tinha presença. Era como se o mundo prendesse a respiração quando ele se aproximava. A porta se abriu sem cerimônia. — E aí, doutora Freud — disse ele, encostando-se no batente da porta com um sorriso torto. — Preparada pra desarmar a bomba emocional ambulante? Ele vestia deboche como armadura. E vestia bem. Marta ergueu o olhar, encontrando os olhos dele. Aqueles olhos... Escuros, quase pretos. Tão intensos que pareciam tocar algo dentro dela que nem ela sabia que existia. Ela manteve o rosto neutro, a postura reta, a voz firme. — Isso depende. A bomba já explodiu ou ainda está armada? Navalha arqueou uma sobrancelha, surpreso. Ele esperava recuo, talvez silêncio. Mas ela... contra-atacava. E isso era deliciosamente irritante. — Tô em constante detonação, querida. Só muda o alvo — disse ele, entrando na sala e se jogando na poltrona como se fosse dono do ambiente. — Mas fique tranquila, hoje não pretendo explodir nada... só talvez... protocolos. Ela anotou algo apenas para não olhar para ele. Mas foi inútil. Ele ocupava o espaço como uma tempestade. Era impossível não sentir. — Seu nome de guerra é bem adequado — ela disse. — Ácido, cortante, difícil de ignorar. Mas... há sempre algo por trás da lâmina. Navalha inclinou o corpo para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, o sorriso agora mais... perigoso. — Tá tentando me analisar, doutora? Ou só quer saber o que mais é afiado em mim? Ela não desviou o olhar. — Estou tentando entender por que você precisa tanto se esconder atrás de piadas. Medo de ser lido, ou medo de ser descoberto? A resposta veio com um riso abafado. Ele jogou a cabeça pra trás, os olhos brilhando com ironia — mas, por baixo da camada de escárnio, ela viu: o toque leve de vulnerabilidade que ele tentava desesperadamente mascarar. — Você é boa, eu admito. — Ele disse, encarando-a de novo. — Mas sabe o que mais eu admito? Que essa brincadeira tá começando a ficar interessante. — Não é brincadeira, Navalha. Isso aqui é real. — Ela disse firme. — Seus traumas, suas perdas, suas dores... tudo isso está corroendo você. E você sabe disso. Ele a observou por longos segundos, como se quisesse arrancar a máscara dela também. Mas a única coisa que viu foi sinceridade. Determinação. E algo mais... algo que ele não sabia nomear, mas que o fazia desejar estar ali. — E você, doutora? — ele sussurrou. — Já encarou seus próprios abismos ou só mergulha nos dos outros? A pergunta a pegou desprevenida. Ela desviou os olhos por um instante, sentindo o calor subir pelo peito. Ele a lia também. E isso era perigoso. — Eu não estou aqui pra falar de mim — ela disse, retomando o controle. — Mas está aqui. E isso já diz muita coisa. O silêncio que se seguiu era denso, cheio de coisas não ditas. A atração entre eles era um campo elétrico. Quase visível. Quase palpável. Marta sentia. O corpo dela sentia. O coração batia com força, e a mente tentava segurar as rédeas. Não. Ela não podia se perder nisso. Ele era um paciente. Um soldado quebrado. Um homem perigoso. Mas... por que, então, ela queria tanto saber mais? Ouvir mais? Estar mais perto? “Você é um caos que me atrai. E isso me assusta.” Ela pensou, mas não disse. Navalha, do outro lado, sentia um nó apertando o peito. Aquela mulher o desconcertava. Ele, que dominava salas com piadas e sarcasmo, agora era dominado pelos olhos firmes de uma psicóloga que não se deixava dobrar. E ele odiava isso. Mas queria mais disso. — A sessão já começou, doutora? — ele perguntou, a voz agora menos afiada, mais... cansada. — Ou a gente vai continuar fingindo que você não tá tentando me decifrar e eu não tô tentando te provocar? Ela encarou-o por um instante. Longo demais. Tenso demais. Depois respirou fundo. — A sessão já começou no minuto em que você me chamou de doutora Freud. Ele riu. De verdade dessa vez. Um som rouco, quase bonito. Quase humano. — Então tá. Me analisa, Freud. Mas aviso logo: eu minto bem. E beijo melhor ainda. Ela engoliu seco. Navalha era uma chama. E ela... estava começando a queimar. Marta saiu da sala com os dedos apertando as bordas da prancheta como se aquilo pudesse impedir que sua alma se despedaçasse. Ela caminhou até a varanda lateral da base, onde o vento sempre parecia mais frio, mais limpo — menos contaminado por olhares ou julgamentos. Apoiada no parapeito, fechou os olhos. Ele mexeu com ela. Navalha não era apenas um soldado com passado sombrio. Havia algo no olhar dele que parecia chamar por ela. Não como homem chama uma mulher... mas como um ser humano perdido chama alguém que o entende. E, como, isso a abalava. Sentia-se dividida entre o papel de psicóloga e a mulher que queria entender aquele homem além dos protocolos. Havia algo naquele sarcasmo dele, naquele deboche que parecia gritar socorro. E gritos... Marta ouvia todos. Mesmo os silenciosos. Ao mesmo tempo, Navalha caminhava lentamente pelo corredor, com as mãos nos bolsos, os ombros tensionados. A fachada de piadas já havia se dissolvido no silêncio da sua própria mente. A imagem dos olhos dela... claros, firmes, impenetráveis... não saía da cabeça dele. Foi como aquele dia, anos atrás, quando voltara da missão onde perdera dois homens — seus irmãos de farda — e o capitão o fitou nos olhos com julgamento, não com compreensão. Mas Marta… não o julgava. Ela via. E isso o desarmava. Fechou os olhos. E por um breve segundo, voltou à noite em que segurou a mão de um garoto de 9 anos numa operação de resgate. O garoto tremia. Mas quando olhou para ele e viu Navalha sorrir... o menino se acalmou. Foi aí que aprendeu: o riso podia ser um escudo. Mas Marta... ela estava atravessando esse escudo. E isso… isso era muito mais perigoso do que qualquer missão. Ainda encostada na varanda, tentando recuperar o eixo, Marta foi interrompida por passos firmes atrás dela. Era o capitão Moretti, sempre direto, sem tempo para rodeios. Ele entregou um envelope pardo com o selo da inteligência e a fitou por cima dos óculos, como quem entrega um aviso sem precisar falar muito. — Chegou a documentação do último psicólogo que atendeu o… Navalha, disse apenas, sem emoção, mas com uma ponta de hesitação nos olhos. Como se desejasse não ter sido o portador daquela notícia. Marta franziu o cenho, pegou o envelope e agradeceu com um aceno. Assim que ficou sozinha novamente, rasgou a lateral com o polegar, revelando o conteúdo: uma pasta espessa com laudos, relatórios, fichas e — o que mais a fez empalidecer — três cartas de despedida. Três redações finais de antigos psicólogos. Três vidas que, por algum motivo, não resistiram após atender o mesmo paciente: Navalha. Suicídios. Três. O ar ficou pesado. Folheou a primeira redação: palavras dispersas, frases que pareciam transbordar pavor disfarçado de análise. O segundo trazia um tom mais confessional, quase implorando por descanso. Mas foi o terceiro que fez Marta recuar um passo. "Ele ri. Mas não é um riso. É um pedido de socorro embalado em ironia. Eu tentei... tentei ver além, mas ele me olhou como se soubesse de algo que eu não sei. Como se fosse tarde demais para mim também." Marta fechou os olhos, respirou fundo e segurou as lágrimas. Navalha era um abismo. Mas, estranhamente, ela não sentia medo... sentia desafio. E uma atração que, agora, mais do que nunca, parecia suicida. “Eu te vejo. E não tenho medo.” Ela mesma dissera isso. Mas agora, diante daqueles papéis, das mortes, das palavras afundadas em desespero, teve que se perguntar: será que ela realmente não tinha medo? Ou será que, pela primeira vez, estava diante de algo que não conseguiria vencer? Ao longe, ela ainda podia ouvir o eco do riso dele… E agora, soava como um prenúncio.
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