O riso dele ecoava pelo corredor da base como um corte seco no silêncio.
Marta se virou, e lá estava ele — Navalha, de costas contra a parede, braços cruzados, sorriso enviesado nos lábios e aquele olhar de quem sabe mais do que diz… e sente mais do que demonstra.
— Achei que você já teria desistido de mim, doutora. — Ele disse, sem tirar os olhos dela.
Marta segurou firme a pasta contra o peito.
— Achei que você já teria aprendido que rir de tudo também é uma forma de fugir de si mesmo.
O sorriso dele ficou mais largo, mas os olhos… os olhos vacilaram por um segundo. Um segundo que ela viu. E que o destruiu por dentro.
— E quem disse que fugir não funciona? — rebateu ele, andando devagar até ela.
— Funciona sim… — ela respondeu, firme — até o buraco engolir você.
O silêncio entre eles era cortante. Como se o ar tivesse ficado denso, pesado, íntimo demais.
Navalha parou a um passo de distância, e Marta quase podia sentir o calor que vinha do corpo dele — quente, alerta, vivo. E perigosamente... atraente.
— Me diz, doutora — ele murmurou — o que viu nos meus olhos ontem?
Ela não respondeu. Apenas sustentou o olhar. Sabia que se dissesse a verdade, perderia o controle. Sabia que se mentisse, ele saberia.
Então, respondeu com um meio sorriso.
— Vi um homem que não dorme sem trancar a alma.
Navalha engoliu seco. Riu. Um riso mais baixo agora. Mais real. Mais… triste.
Ela notou a respiração dele vacilar.
E então ele se afastou.
— Não tente me consertar, Marta. Não sou um projeto, sou um colapso ambulante.
Ela sentiu o peito apertar.
— Eu não quero te consertar, Navalha… — sussurrou, mas ele já tinha ido.
Só depois que ficou sozinha, ela sentiu as pernas fraquejarem. Encostou-se à parede e fechou os olhos.
Porque ela sabia.
Sabia que estava entrando em um território onde muitos se perderam.
Mas também sabia que, por alguma razão que nem ela compreendia ainda… ela queria ficar.
Marta estava de costas para a janela, tentando reorganizar os pensamentos e o coração. Ainda sentia o cheiro dele no ar — aquela mistura de couro, suor e adrenalina. Aquele tipo de presença que bagunça tudo por dentro.
De repente, a porta se abriu com força.
Ela se virou num sobressalto.
Era ele.
Navalha entrou devagar, como quem invade terreno inimigo. Mas era ele o perigo naquela sala.
— Você é persistente, doutora. — O tom sarcástico parecia mais afiado que o normal. — Mas devia saber que não dá pra curar o que já nasceu quebrado.
Marta o encarou com firmeza.
— Ninguém nasce quebrado, Navalha. Quebram a gente.
Ele deu uma risada curta e sombria. Um riso sem alegria, só ruído.
— É, pode ser… Mas tem coisa que quebra tão fundo que nem Deus acha os cacos.
Se aproximou lentamente, olhos fixos nos dela.
— Mas quer saber o que eu acho mais divertido em você, Marta?
Ela não respondeu. Só esperou.
— Você não tem medo. E isso… é perigoso.
A voz dele desceu um tom, grave, quase um sussurro.
— Todos os últimos psicólogos que tentaram entender minha mente… acabaram se matando. E olha que com eles, eu só contei as alegrias.
Ele sorriu. Um sorriso largo e sádico. Mas os olhos… os olhos imploravam pra ela correr.
Marta engoliu seco. Uma parte dela tremeu. Mas a outra, a que sempre foi atraída por abismos, deu um passo à frente.
— Talvez eles tenham escutado… mas eu vejo. E isso deve ser assustador pra você.
O sorriso dele vacilou. Por um segundo, Marta viu. O garoto por trás da lâmina. A dor por trás do riso. O medo disfarçado de deboche.
— Você tá mesmo querendo me entender, não é?
Ela assentiu.
— E por quê?
— Porque ninguém deveria carregar sozinho toda essa dor.
Ele riu de novo, mas dessa vez… havia raiva no som.
— Você não faz ideia do que tem aqui dentro. — bateu no peito com força. — Não é só dor, doutora. É veneno. É guerra. É culpa. E se você entrar, não sai mais. Vai morrer aqui dentro.
— Então me mata agora. — ela respondeu sem piscar.
— Ou me deixa entrar com lanterna e a coragem.
Navalha ficou em silêncio. A respiração dele estava pesada. Os punhos cerrados. E o olhar… aquele olhar que misturava desejo, medo e um aviso.
Ele deu um passo tão perto que Marta sentiu o calor da raiva dele bater contra seu rosto.
— Você é louca.
— E você é solitário demais pra perceber que alguém já tá dentro.
O silêncio gritou entre eles.
Então Navalha recuou. Olhou pra ela como quem olha pra um incêndio bonito demais pra apagar. E saiu.
Marta sentou-se, o corpo tremendo. Mas o peito, estranhamente… em paz.
Ela sabia que tinha cruzado uma linha.
E sabia que, a partir dali, não era mais só um caso clínico.
Era pessoal.
Era perigoso.
Era Navalha.
Marta ainda estava sentada, o corpo levemente trêmulo após o confronto com Navalha, quando um dos oficiais bateu à porta com um envelope pardo nas mãos.
— Doutora Marta? O prontuário do agente “Navalha”. Vieram também os relatórios dos psicólogos anteriores, conforme solicitado. — Ele hesitou, como se carregasse dinamite. — Tem… algo estranho aí. Uma observação final.
Ela pegou o envelope e agradeceu com um aceno de cabeça, tentando manter o controle. Quando a porta se fechou, o silêncio se instalou como uma presença viva.
Marta abriu o envelope com cuidado. O cheiro de papel antigo e café seco invadiu o ar.
Ali estavam: três relatórios, nomes riscados por confidencialidade, mas datas, códigos e detalhes confirmavam a veracidade.
Ela começou a ler, pulando trechos técnicos, indo direto para as anotações pessoais de cada profissional.
O primeiro: “O paciente possui um sarcasmo violento que parece mascarar um trauma profundo. Recusa-se a falar de sua infância. Expressa prazer em observar o desconforto dos outros. Senti-me constantemente exposta. Ele não precisa de ajuda. Ele testa. E consome.”
O segundo: “Conversei com ele por seis semanas. Não era um diálogo, era um jogo. E ele sempre ganhava. Quando olhei nos olhos dele, percebi: ele já morreu por dentro. Só esqueceu de deitar.”
Marta sentiu um calafrio subir pelas costas.
Então, veio o terceiro.
Um único parágrafo escrito à mão, trêmulo, em letras desiguais, como se a caneta tivesse sido pressionada com raiva ou desespero:
“Se você está lendo isso, já é tarde demais. Ele não precisa de cura. Ele é o trauma. Não tente salvá-lo. Fuja. E por Deus… nunca tente ver o que há por trás do riso.”
Marta recuou na cadeira, os dedos ainda segurando a folha.
Ela sentiu o coração apertar.
Aquilo não era só um aviso profissional. Era um grito.
Levantou-se, começou a andar pela sala. A mente em espiral. Navalha não era só um paciente desafiador — era uma tempestade ambulante de dor comprimida.
Mas mesmo com tudo aquilo… algo dentro dela queimava. Não era pena. Era uma inquietação. Uma vontade de atravessar o muro. De tocar o homem por trás da lâmina.
— “Ele é o trauma...” — repetiu em voz baixa. — “Então por que não consigo parar de pensar nos olhos dele?”
Ela sentou-se novamente, os olhos fixos na janela. Lá fora, o mundo parecia calmo. Mas dentro dela, o caos havia começado.
E Marta sabia, sem sombra de dúvida, que estava cruzando a fronteira entre o profissional e o pessoal.
E se fosse tarde demais…
Ela iria mesmo assim.