Capítulo 4 - Pingente de Promessas

1354 Palavras
Ele a observava do lado de fora da base médica, encostado em uma das colunas de concreto como se fizesse parte da estrutura. O cigarro entre os dedos queimava devagar, mas Navalha nem percebia. Seus olhos estavam nela. Só nela. Marta andava entre arquivos e papéis com aquela calma determinada. Ria baixo com uma enfermeira, mas logo sua expressão voltava ao silêncio concentrado. Ela era um enigma. E Navalha odiava enigmas. Ou pelo menos era o que dizia a si mesmo. Desde o dia da primeira sessão, algo dentro dele se remexia. Algo que ele havia trancado há anos, soterrado sob sarcasmo e violência. Ela tinha dito com a voz firme, sem tremor: "Eu já estou dentro." Ele achava que riria. Achava que intimidaria. Mas não. As palavras dela o perturbavam. Corríam em sua mente como um eco que ele não conseguia calar. E o pior? Ele queria que ela estivesse mesmo dentro. Queria ser visto. Mesmo sem saber lidar com isso. Na sessão daquele dia, o clima era tenso como o fio de uma navalha — e ele reconhecia bem esse corte. Marta, sentada com a postura firme, segurava algo pequeno na palma da mão. Seus dedos estavam levemente curvados sobre a peça, como se segurasse algo frágil demais para o mundo bruto lá fora. Respirou fundo, como quem reúne coragem para atravessar uma fronteira invisível. Navalha, do outro lado da mesa, a observava com os olhos semicerrados, o maxilar rígido, como se cada segundo naquela sala o torturasse. Ela então abriu lentamente os dedos, revelando uma corrente prateada com um pingente em forma de punho fechado. Sem dizer uma palavra, Marta esticou a mão e deslizou o objeto até o centro da mesa. O som metálico da corrente tocando a madeira parecia maior do que deveria ser — como se cada elo ecoasse um significado mais profundo. Navalha baixou os olhos para o pingente, depois voltou a encará-la. — O que é isso? — sua voz soou rouca, carregada de desconfiança. — Um símbolo. — Marta respondeu, sem hesitar. — Força. Luta. Resistência. Algo que não se compra, só se constrói. E você tem de sobra, mesmo que ainda não reconheça. Ele soltou um riso curto, quase agressivo. Reclinou-se na cadeira, os braços cruzados como muralhas. — Isso é tipo um presentinho de superação? Vai me pedir pra fechar os olhos e fazer um pedido agora? Marta não piscou. — Não. Só quero que guarde. Que olhe pra ele quando esquecer quem é, e o que ainda pode ser. Navalha pegou o pingente com dois dedos, como se tivesse medo de que aquilo fosse explodir. Olhou o punho cerrado com uma expressão estranha, entre fascínio e resistência. — Eu não sou um herói, doutora. — Nem precisa ser. Você só precisa parar de se esconder atrás desse riso cínico e começar a sentir. Doa o que doer. Ele a encarou. De verdade. Pela primeira vez, sem sarcasmo, sem máscaras. — Sabe o que aconteceu com as últimas pessoas que tentaram fazer isso? — Se afastaram? — Morreram por dentro antes de conseguirem me entender. O ar entre eles pareceu vibrar. Marta se inclinou um pouco à frente, a voz baixa e firme: — Talvez eu morra também. Mas não antes de te fazer lembrar do homem que você enterrou aí dentro. Por um segundo, o silêncio rugiu na sala. Navalha sentiu a garganta secar, o coração dar um tropeço invisível. Ninguém nunca havia dito isso a ele. Ninguém ousara. Mas ali estava ela — com um pingente simples e uma coragem feroz nos olhos castanhos. Sem pensar, ele fechou a mão sobre o pingente. O metal gelado queimava sua pele, como se marcasse ali uma promessa que ele nunca pediu, mas que agora não sabia se conseguia recusar. Marta se levantou. — A sessão acabou por hoje. E saiu da sala com a mesma serenidade com que havia entrado. Mas deixou para trás muito mais do que palavras. Deixou uma rachadura em sua armadura. E uma semente de algo que Navalha, até aquele momento, acreditava não merecer. Ele olhou para o pingente novamente. “Punho fechado. Mas não contra o mundo. E sim para não soltar a própria força.” Aquilo não era só um presente. Era uma provocação. E ele sabia que, com ela… a guerra não era fora. Era dentro. Navalha arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — Então isso é um amuleto? — debochou, girando a corrente nos dedos. — Vai me proteger de mim mesmo? Marta sorriu. Um sorriso curto, sem escudo. — Não. Vai te lembrar que você é mais forte do que o que fizeram com você. Navalha parou. O pingente, frio ao toque, parecia mais pesado do que era. Um punho fechado. Resiliência. Luta. Sobrevivência. Ele girou o objeto nos dedos por alguns segundos. Depois, encarou Marta com aqueles olhos intensos e sombrios. — E se eu não quiser lembrar? — Então guarde. Porque no dia em que quiser... vai precisar disso. O silêncio entre os dois se estendeu como um fio prestes a romper. Navalha inclinou-se para frente, seus olhos queimando nos dela. — Você não tem medo, não é? — Não de você. Tenho medo de você não se permitir viver outra coisa além da dor. Ele se recostou na cadeira, riu com escárnio — um som vazio. — O problema não é viver na dor. O problema é que ela é a única coisa que nunca me abandonou. Marta não respondeu. Apenas se levantou e saiu da sala com a mesma calma com que entrou. Mas quando a porta se fechou, Navalha olhou o pingente na mão… e pela primeira vez, seus dedos fecharam-se ao redor dele. Como um pacto silencioso. Talvez ele não estivesse pronto. Mas talvez… só talvez… ela tivesse plantado algo que nenhuma guerra conseguiu destruir. Esperança. .Com o coração ainda acelerado, Marta caminhava pelos corredores da base como se estivesse sendo perseguida por algo invisível. Não era um inimigo. Era Navalha. Ou pior — era tudo o que ele despertava nela. Entrou na sala reservada, trancou a porta atrás de si e apoiou-se na parede. Inspirou fundo. De novo. E de novo. Mas o ar não bastava. Ela sentia como se o mundo estivesse apertado demais no peito. “Eu não posso me envolver.” Repetiu essa frase para si como se fosse um mantra. Mas soava frágil. Vazia. Porque no fundo… já estava envolvida. Desde o primeiro olhar. Desde a primeira risada ácida que ele soltou só para esconder um abismo. Desde o silêncio dele, que gritava mais do que qualquer história contada. Navalha não era só um paciente. Ele era um enigma. Um campo minado. E, droga… um homem absurdamente atraente. Marta se sentou na poltrona, tirou os sapatos e cruzou os braços sobre o peito. Seu corpo lembrava o toque involuntário dos dedos dele ao pegar o pingente. O modo como os olhos escureceram por um segundo. A pausa que ele deu antes de rir. Como se aquilo tivesse tocado algo esquecido. Ela estava entrando num território perigoso — e sabia disso. Já tinha lido todos os relatórios. Sabia dos traumas dele. Das mortes. Dos silêncios que o cercavam como espinhos. E, mesmo assim… Mesmo assim, ela queria mais. Queria decifrar cada sombra. Entender cada dor. Tocar as feridas, não para curar, mas para mostrar que ele ainda sangrava. Que ainda estava vivo. E o pior? Ela queria ser tocada também. Queria que ele a visse, não como psicóloga, mas como mulher. Como Marta. Aquela que ousou entrar onde ninguém mais teve coragem. Aquela que dizia com os olhos: "Você não me assusta. Você me chama." Mas essa linha… essa tênue linha entre profissionalismo e desejo, entre terapia e paixão, poderia ser o fim de tudo. Ou o começo de algo irreversível. Ela lembrou que o pingente usava nos momentos que o passado tentava voltar era igual ao que havia dado a ele. Tinha dois. Guardava há anos, como símbolo de algo que não sabia nomear. Agora, os dois tinham um. E Marta se perguntava, assustada e excitada: “O que fizemos um com o outro?”
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