A noite caiu como um véu espesso sobre a base. O vento soprava forte lá fora, assobiando entre as frestas das janelas, como se quisesse avisar que algo sombrio estava prestes a emergir das sombras.
Navalha dormia. Ou ao menos tentava.
O corpo agitado sobre o colchão duro, coberto apenas por um lençol amarrotado. Seu rosto contraído, a mandíbula cerrada, os punhos fechados como se ainda estivesse em combate.
O primeiro grito veio sem aviso.
— CORRE!
O corpo saltou da cama como se estivesse sob ataque. Navalha caiu de joelhos no chão do alojamento, arfando, o peito subindo e descendo como se faltasse ar. Os olhos vidrados, perdidos em algum lugar entre o presente e o inferno da memória.
A mão tocou o chão frio e o puxou de volta à realidade. Mas a realidade doía quase tanto quanto os sonhos.
Fechou os olhos, e os fantasmas voltaram.
— “Você não fez nada... deixou eles morrerem...”
Era a voz da criança. Dele mesmo. Do menino magro, trêmulo, escondido debaixo da cama enquanto os gritos da mãe eram abafados por mãos alheias. Aquele dia... o sangue... o medo... a culpa.
Ele tentou afastar as imagens, mas elas se sobrepunham agora ao rosto de Marta. E isso o enlouquecia.
“Ela vai descobrir… vai te ver como realmente é. E vai embora. Todos vão.”
Navalha encostou a cabeça contra a parede e tentou desacelerar a respiração. Mas o pesadelo seguinte veio como uma onda: a missão na Colômbia. O cativeiro. As crianças enfileiradas. Os corpos queimando. O som dos tiros. O riso forçado dele tentando manter os outros vivos… enquanto morria por dentro.
Ele gritou de novo, mas abafou com o punho na boca.
Silêncio.
Só seu coração batendo feito tambor de guerra.
Sentou-se no chão. Suado. Camiseta colada ao corpo, o peito nu arfando. Estava sozinho… como sempre.
Ou talvez, não mais.
Lembrou-se dos olhos de Marta. Do jeito como ela o olhava — como se enxergasse além da casca. Além do sarcasmo. Além da dor.
E isso o assustava mais do que qualquer missão.
Navalha se levantou devagar. Olhou o próprio reflexo no espelho rachado do armário. O rosto pálido. Os olhos vermelhos. A sombra da guerra interna.
— “Você ainda está aqui…” — sussurrou, para si mesmo. “Mas por quanto tempo?”
Do outro lado da base, Marta não sabia, mas naquele exato momento, se tornava o único abrigo onde os fantasmas de Navalha talvez encontrassem descanso. E ele... o homem mais perigoso que ela já conheceu... só queria, pela primeira vez, dormir em paz.
Quando o sol da manhã tocou as janelas com um brilho opaco, Navalha já estava de pé. A noite tinha sido um campo de batalha interno — e ele tinha perdido. Tomou um banho gelado, mas nem a água conseguiu lavar o peso que sentia no peito. Vestiu-se mecanicamente, prendeu a adaga curva na bota, como se o ritual pudesse lhe devolver o controle.
O cheiro do café invadiu o corredor da ala principal da base. Ele seguiu até a cantina, silencioso como um felino ferido. Seus passos não ecoavam, mas sua presença arrastava olhares. Ninguém se atrevia a cumprimentá-lo — não por respeito, mas por medo.
Marta estava sentada em uma mesa afastada, com um caderno aberto e um copo de café pela metade. A expressão dela estava distante, mas assim que viu Navalha entrando, seus olhos se fixaram nele por mais tempo do que gostaria de admitir.
Ele sentiu. Ela estava o observando.
Por dentro, Navalha praguejou.
“Por que ela olha assim? Como se me conhecesse? Como se... se importasse?”
— Não dormiu bem, não é? — perguntou ela, a voz tranquila, mas carregada de uma percepção que ia além da superfície.
Ele parou diante dela, sem sentar.
— E quem disse que eu durmo, doutora?
O tom foi ácido. Deboche puro. Mas os olhos... os olhos não acompanharam o veneno. Eles estavam nublados. Agitados. Como um mar em fúria tentando parecer calmo.
Marta inclinou a cabeça, analisando. Era a primeira vez que ela via algo quebrado ali, à mostra. Mesmo que só por segundos.
— Não quero saber o que sonhou, Navalha. Só quero que saiba que ainda está aqui.
Ele mordeu o lábio, sem responder. Sentiu a garganta arder. Um tipo de raiva subindo: não dela, mas de si mesmo, por desejar que aquelas palavras fossem verdade.
Ainda estou aqui.
Quantas vezes ele repetira isso para os mortos nos seus pesadelos? Para os que não voltaram?
— Você não tem medo de mim, não é?
— Eu tenho medo do que fizeram com você. Isso é diferente.
O impacto foi imediato. Ele sentiu como se o chão tivesse se aberto. A verdade nua. Cravada em seu peito.
— Não brinque com isso, Marta. — Sua voz agora era baixa, rouca. — Os três psicólogos antes de você… se mataram. E eu nem contei a pior parte.
Ela fechou o caderno com calma, deslizou o café para o lado e olhou nos olhos dele.
— Talvez porque a pior parte seja a que você mais tenta proteger. E, por algum motivo que nem eu entendo… você ainda está tentando viver.
Ele queria rir. Mandar ela para o inferno. Mas não conseguiu.
Em vez disso, Navalha se virou e saiu.
Passos rápidos. Mente em tormenta.
Na sala, Marta respirou fundo. Sabia que havia atravessado um limite. Um ponto sem volta. Mas naquele instante, em meio ao peso do silêncio, sentiu algo nascer dentro dela — não piedade, nem empatia profissional. Era algo que queimava, que alertava, que a fazia sentir-se viva e em perigo ao mesmo tempo.
Navalha não era apenas um caso.
Era uma cicatriz viva com olhos profundos…
E ela, por alguma razão absurda, já tinha escolhido ficar.
Marta fechou os olhos por um segundo, tentando retomar o controle da própria mente. “Preciso me concentrar no trabalho,” pensou com firmeza, apertando o punho fechado do pingente que agora usava pendurado no pescoço. “Preciso parar de olhar para os braços dele quando ele sobe as mangas, como se aquelas cicatrizes contassem segredos que só eu deveria decifrar.” Era um campo minado emocional. E ela sabia. Cada sessão com Navalha exigia mais dela do que qualquer outra missão que já havia enfrentado. Não era só técnica. Era visceral.
E, pior ainda, “preciso parar de encarar os olhos dele como se cada olhar fosse um convite para me despir… mesmo quando ele está completamente vestido.” Os olhos de Navalha eram como lâminas, mas, em alguns momentos, pareciam pedir socorro. Como se, atrás do sarcasmo e do perigo, existisse um homem implorando para ser visto — e temendo ser tocado. Marta respirou fundo. Sabia que se deixasse aquele laço se estreitar demais, não haveria volta. E ainda assim, parte dela já tinha cruzado essa linha.