Capítulo 6 - Limites da Profissão

1283 Palavras
A sala de Marta estava silenciosa, mas sua mente, não. O dossiê diante dela parecia pulsar com vida própria, como se cada folha carregasse uma energia densa e estranha. Estava ali o histórico completo dos atendimentos psicológicos feitos a Navalha ao longo dos anos — todos com finais trágicos. Três profissionais, todos experientes, com currículos irrepreensíveis... mortos. Todos por suicídio. Marta deslizou os dedos sobre a capa gasta do envelope pardo lacrado, enviado como anexo confidencial pelo comando de inteligência. No canto superior direito, em vermelho carmesim, lia-se: “Somente para leitura da responsável atual.” Ao abrir, encontrou uma carta escrita à mão, a caligrafia trêmula e com pontos borrados, como se as lágrimas do autor tivessem manchado o papel. O autor era o último psicólogo de Navalha. Na carta, ele escrevia: "Ele é um louco. Um louco que escolheu o lado certo da guerra. Mas não se engane, é de extrema periculosidade. Ele entra dentro das pessoas… devagar, sorrindo, se escondendo por trás de histórias m*l contadas, piadas ácidas e olhos que não piscam. E quando você tenta tirá-lo de dentro de si, já é tarde demais. Você morre... morre com o que descobriu sobre si mesmo.” Marta engoliu seco. No relatório final, havia um trecho grifado: "Ele é especialista em psicologia e hipnose. Doutor na área. Quando você entender, já estará preso dentro dele… e de si mesmo." Ela folheou os demais laudos. Um padrão emergia: os três psicólogos anteriores tinham um passado sombrio. Traumas não resolvidos, lutos m*l digeridos, arrependimentos engolidos a seco. E então, ao se envolverem com Navalha, pareciam ter sido levados ao limite — não por ele diretamente, mas pela forma como ele os fazia ver a própria escuridão. Era como se Navalha os colocasse diante do próprio abismo. Um espelho invertido. Um reflexo sem censura. Um convite para visitar a própria dor mais íntima... e sem volta. Marta, ao fechar a pasta, sentiu um calafrio descer pela espinha. “O que há nele que faz as pessoas se despirem da alma sem perceber?” Ela sabia a resposta, ainda que não admitisse em voz alta. Porque, no fundo, ela também já estava tirando as próprias camadas. E Navalha, sem dizer uma palavra, já estava dentro dela. Do outro lado do pátio interno, os olhos atentos de Navalha estavam fixos. Ele fingia desinteresse, como sempre. Estava encostado no corrimão de ferro, mãos no bolso, sorriso torto no canto dos lábios. Mas dentro dele, cada músculo estava em estado de alerta. Marta passou. Os saltos faziam um som seco e elegante no piso de cimento queimado, como se cada passo marcasse território. Reta. Impecável. Vestia uma camisa branca ajustada, calça de alfaiataria escura e aquele olhar de quem tinha domínio do que dizia… e do que calava. Mas Navalha não olhou para as roupas. Ele olhou para o que havia atrás delas. “Ela tem camadas demais.” — pensou, enquanto seus olhos a acompanhavam com a precisão de um caçador treinado. Ela carregava peso nos ombros, mas não demonstrava. Caminhava como se nada a atingisse, mas seus olhos... ah, os olhos dela diziam outra coisa. Eram olhos de quem já perdeu algo precioso, de quem já se sentou no fundo do poço e aprendeu a disfarçar o eco. E isso o desconcertava. Navalha não sabia ao certo o que o deixava mais inquieto: o modo como Marta o enfrentava sem medo, ou o fato de que, pela primeira vez, alguém o via — e não desviava o olhar. “Ela não está brincando,” ele pensou, com os lábios crispados. “Mas também não está pronta. Não tem ideia do que existe dentro de mim.” Ele tinha certeza de uma coisa: Marta não era como os outros. Ainda assim, algo nele desejava descobrir se ela aguentaria... ou se também cairia no abismo que ele carregava dentro do peito. Marta seguiu até a sala reservada da ala médica, tentando manter a compostura. Por fora, ela parecia irretocável. Mas por dentro… um vendaval. Sentou-se, cruzou as pernas devagar, respirou fundo. O dossiê de Navalha estava sobre a mesa, ainda aberto. A carta lacrada permanecia ali, intacta, como se pulsasse. Quase um aviso. Ela passou os dedos por sobre o envelope, mas não o abriu. Não ainda. Estava ocupada demais tentando manter suas próprias camadas no lugar. Camadas que ninguém ali conhecia. Camadas que ela aprendera a disfarçar com elegância e argumentos científicos. Ela não era apenas uma psicóloga da base. Era uma mulher que já tivera o próprio coração em frangalhos. Uma filha que enterrara os pais cedo demais. Uma esposa que fora traída e abandonada por alguém que dizia amá-la. E, acima de tudo, uma sobrevivente de sua própria mente, de noites em claro, de pânico sem nome, de batalhas internas vencidas à força de silêncio. Camadas. A primeira, a profissional. Impecável, respeitada, controlada. A segunda, a mulher. Frágil, carente, desconfiada. A terceira, a alma. Curiosa, intensa… perigosamente vulnerável. E Navalha… Navalha estava mexendo com todas elas. Ela já não sabia se era a profissional que tentava entender o paciente, ou a mulher tentando proteger-se de um homem que parecia ver através de tudo. “Ele entra dentro das pessoas.” — ecoou a frase no laudo. Ela fechou os olhos por um instante. Aquilo não era loucura. Era real. Ele já estava dentro. E o pior de tudo? Ela não queria que ele saísse. Marta ainda fitava o envelope sobre a mesa quando sentiu a presença. Aquela sensação densa, quase elétrica no ar, que só surgia quando Navalha estava por perto. Não precisava se virar. Sabia que ele estava ali, observando. Sempre observando. Ela ergueu o olhar devagar, encontrando os olhos dele no reflexo do vidro. A intensidade daquelas íris escuras atravessava paredes — e verdades. Navalha encostava-se à parede oposta do corredor, braços cruzados, como quem não se importava. Mas importava. Cada músculo atento, cada batida do coração ritmada como uma ameaça contida. Ao vê-la, algo nos olhos dele se contraiu. Não era luxúria. Era reconhecimento. E talvez medo. Marta então se levantou com a elegância de sempre, como se usasse o salto como armadura. Andou até a porta, onde a luz projetava sua silhueta com perfeição. Ao passar por ele, Navalha a acompanhou com os olhos, fixo nas pernas longas, no cabelo preso de forma austera — mas havia algo nos olhos dela que dizia outra coisa. Camadas. Ela sabia o que ele via. E ele também sabia que ela não estava apenas vestida. Ela estava coberta de histórias. — Está com medo, doutora? — ele perguntou, voz rouca, um tom abaixo do provocativo, quase íntimo. — De quê? — ela se virou, parando. — De você? Navalha sorriu de lado. Um sorriso perigoso. Não de charme, mas de aviso. — Os outros… estavam. Mesmo quando fingiam não estar. Ela não recuou. — Talvez eles enxergassem o que havia dentro de si quando te olhavam, e não conseguiram lidar. Eu estou me olhando também, Navalha. E isso dói. Mas eu não fujo. Ele a encarou por um tempo que pareceu uma eternidade. Depois, aproximou-se devagar, ficando tão perto que o cheiro metálico dele, misturado com algo indecifrável, dominou o ar. — Você sabe que isso não termina bem, não sabe? — Sei. — Marta respondeu. — Mas não vim até aqui para finais felizes. Vim para a verdade. Navalha então soltou um riso baixo, curto, quase triste. — Então é melhor guardar seu coração, doutora. Porque eu não sei o que faço com o meu. E virou-se, desaparecendo no corredor, deixando no ar apenas o som dos próprios passos... e o eco dos sentimentos que nenhum deles ainda estava pronto para admitir.
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