Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — O Grande Chefe
Muito antes de ser chamado de demônio...
Ele era chamado de Grande Chefe.
Tufão nasceu para governar.
Filho do antigo líder da Tribo do Lobo n***o, cresceu entre neve, sangue e batalhas. Antes mesmo de completar quinze anos, já empunhava um machado maior que muitos guerreiros adultos conseguiam levantar.
Não demorou para que seu nome atravessasse montanhas e mares.
Diziam que, onde Tufão marchava, os inimigos abandonavam fortalezas antes mesmo da primeira flecha ser disparada.
Alto, imponente e dono de uma força quase sobre-humana, ele liderava seus homens sempre na linha de frente.
Jamais ordenava algo que ele próprio não fosse capaz de fazer.
Seu longo cabelo n***o balançava ao vento enquanto vestia pesadas peles de animais, uma grossa capa sobre os ombros e duas espadas presas à cintura.
Seu olhar era firme.
Sua voz era respeitada.
Sua presença impunha silêncio.
Mas também era um homem de família.
Aos vinte e dois anos, casou-se com Maria, uma bela ômega por quem acreditava estar apaixonado.
Durante vinte anos dividiram o mesmo teto.
Dessa união nasceram dois filhos.
Caio, o primogênito, hoje com dezenove anos.
E Eva, de dezessete.
Para a tribo, pareciam a família perfeita.
Enquanto Tufão conquistava territórios e expandia suas terras, Maria administrava a grande aldeia ao lado das anciãs.
Os filhos cresciam preparados para um dia continuar o legado do pai.
Ou, pelo menos...
Era isso que todos imaginavam.
A realidade era diferente.
Tufão nunca foi um homem carinhoso.
Era rígido.
Exigente.
Frio.
Amava a família à sua maneira, oferecendo proteção, fartura e segurança, mas raramente demonstrava afeto.
Para ele, sentimentos eram fraquezas.
Mesmo assim, Maria jamais imaginou que perderia o marido da forma como perdeu.
Quando Tufão completou quarenta e dois anos, chegou aos seus ouvidos a notícia de que uma bruxa ancestral havia devastado três tribos ao norte.
Não deixava sobreviventes.
Transformava guerreiros em pedra.
Enlouquecia alfas com maldições.
E alimentava-se do medo daqueles que ousavam enfrentá-la.
Enquanto muitos chefes decidiram recuar...
Tufão fez exatamente o contrário.
Na grande assembleia tribal, diante de centenas de guerreiros, fincou sua espada no chão.
— Se uma única bruxa acredita que pode espalhar o terror por estas terras... então ela conhecerá o verdadeiro terror.
Os guerreiros ergueram seus machados e rugiram em aprovação.
Na manhã seguinte, os tambores de guerra ecoaram pelas montanhas.
Milhares de guerreiros marcharam atrás de seu chefe.
Nenhum deles imaginava que aquela campanha mudaria o destino de todos.
E, principalmente...
Condenaria Tufão a um destino pior do que a própria morte.
O som atravessava montanhas, vales congelados e florestas antigas, anunciando que a Tribo do Lobo n***o marchava para mais uma conquista.
À frente de milhares de guerreiros estava Tufão.
Montado em um enorme lobo de guerra n***o, usava sua pesada capa de pele sobre os ombros. As duas espadas presas à cintura balançavam a cada passo do animal.
Seu rosto era firme.
Seu olhar não demonstrava medo.
Atrás dele, homens e mulheres armados carregavam machados, lanças, escudos e arcos.
Todos confiavam em seu chefe.
Todos acreditavam que voltariam para casa com mais uma vitória.
Durante dias atravessaram rios congelados, florestas cobertas por neve e penhascos perigosos.
Pelo caminho encontraram aldeias destruídas.
Casas reduzidas a cinzas.
Animais mortos.
Nenhum sobrevivente.
Alguns guerreiros faziam o sinal de proteção dos antigos deuses.
Outros sussurravam que aquela terra havia sido abandonada pelos espíritos.
Mas Tufão não acreditava em medo.
Na quarta noite de viagem, um de seus batedores retornou completamente desesperado.
— Grande Chefe... eu vi o lugar.
Tufão levantou os olhos.
— Fale.
— A floresta... ela está morta. Nenhum pássaro canta. Nenhum animal vive ali. Há símbolos estranhos gravados nas árvores... e ouvi vozes... vozes que não eram humanas.
Alguns guerreiros se entreolharam.
O silêncio tomou conta do acampamento.
Tufão permaneceu imóvel.
Então se levantou.
— Amanhã entraremos naquela floresta.
Um dos anciãos da tribo deu um passo à frente.
— Grande Chefe... dizem que aquela bruxa não luta como os homens. Ela amaldiçoa. Ela invade a mente. Talvez devêssemos...
Antes que terminasse, Tufão o encarou.
O velho abaixou imediatamente a cabeça.
— Um chefe que recua por causa de histórias não merece liderar uma tribo.
Ninguém voltou a questioná-lo.
Na manhã seguinte, o exército avançou.
Quanto mais caminhavam, mais estranho tudo ficava.
As árvores eram negras.
A neve desaparecia em alguns trechos, como se o próprio chão estivesse doente.
Corvos observavam cada passo dos guerreiros.
O vento parecia carregar sussurros.
Mesmo os lobos da tribo começaram a rosnar, inquietos.
Pela primeira vez em muitos anos...
Até os guerreiros mais experientes sentiram medo.
Mas Tufão continuou caminhando sem diminuir o passo.
Ele não sabia.
Aquela floresta não havia sido escolhida pela bruxa por acaso.
Ela já o esperava.
Desde muito antes de ele decidir marchar até ali.