Kysha
A floresta ao meu redor estava completamente silenciosa. Nenhum som de insetos, nenhum ruído de pássaros. Olhei em volta, intrigada, e me perguntei se os animais haviam se calado em sinal de respeito… ou de luto. Um sorriso amargo escapou antes que eu pudesse intervir.
Talvez as coisas ficassem mais intensas quando o meu verdadeiro cio chegasse — o de verdade, não aquela distorção que o metamorfo-leão provocou em mim. Se fosse sequer parecido com aquela experiência, talvez Charlie e eu criássemos, enfim, um vínculo emocional mais profundo. Se o que eu senti por Darius — alguém que eu desprezava — servisse de exemplo, então com meu parceiro de destino as coisas só poderiam ser melhores. Ou assim eu queria acreditar.
Ao longe, vi Charlie sair da multidão e caminhar para o centro do círculo. Era a minha deixa. Uma agitação súbita se formou no meu estômago; respirei fundo e dei o primeiro passo para fora da floresta.
Bem na beira do círculo, Emily aguardava, mãos entrelaçadas sob o queixo e um enorme sorriso no rosto. Ela não era um lobo, mas recebeu permissão para assistir, desde que ficasse afastada — assim como a equipe de filmagem.
Tudo que eu conseguia me concentrar era em não tropeçar no vestido. A última coisa que queria era cair de cara no chão na frente de todos. À medida que me aproximava da multidão, encontrei o olhar dos meus pais. Mamãe enxugava as lágrimas de felicidade; papai mantinha a postura firme, esforçando-se para parecer o mais majestoso possível.
A Décima Primeira Alcateia me observava com entusiasmo, mas a Nona Alcateia mantinha uma reserva quase gélida. O pai de Charlie, alfa da Nona, me encarava com uma expressão que beirava o desinteresse. O irmão mais novo de Charlie, Gavin, parecia preferir estar em qualquer outro lugar. Mantive a cabeça erguida, tentando ignorar os olhares sombrios. Talvez alguns familiares de Charlie compartilhassem da mesma opinião que Kolton e Darius tinham sobre ele. Era direito deles. Não importava o que nossas famílias ou amigos pensassem: Charlie e eu estávamos destinados um ao outro.
Então o vi.
Darius, de pé ao lado de Kolton. Uma pontada de raiva atravessou meu corpo. Ele não pertencia oficialmente à Décima Primeira Alcateia — não deveria estar ali. Isso só podia significar que meu pai abriu uma exceção para ele.
A raiva, porém, evaporou quando percebi um pequeno grupo de agentes da Arcanum na borda externa do círculo. Peter e Jorge estavam acompanhados de vários membros de alto escalão do conselho. O coração apertou: Darius tinha razão, meus superiores estavam descontentes. O metamorfo-leão escapou, e parte da culpa recaiu sobre mim. Achavam que eu fui descuidada ao ingerir a droga que ele me ofereceu. Em minha defesa, aquele miserável foi rápido e preciso — drogar meu vinho com a destreza de um mágico que faz uma moeda sumir.
Cerrei os dentes e me forcei a focar no que importava: minha cerimônia.
Quando finalmente olhei para Charlie, quase vacilei. Ele não tinha as runas nem os símbolos tradicionais pintados no rosto. Continuei andando, mas não pude evitar a pergunta silenciosa: por quê? Talvez a Nona Matilha não fosse tão tradicional. Ainda assim, Charlie vestia uma das roupas mais belas que eu já vi e, quando cheguei mais perto, ele deu um passo à frente para me encarar. Minhas preocupações se dissiparam por um instante.
Ficamos frente a frente por alguns segundos desconfortáveis. Tradicionalmente, o macho falava primeiro, mas Charlie desviava o olhar, como se buscasse algo na multidão. Eu já participei de cerimônias da Nona Matilha? Talvez fizessem as coisas de modo diferente.
Revirei os olhos em pensamento e decidi tomar a iniciativa. Tinha certeza de que a Deusa ignoraria uma mudança tão pequena no protocolo.
Endireitei os ombros, ergui o queixo e comecei:
— Eu, Kysha Nataly Durst, entrego meu corpo e minha alma ao meu companheiro predestinado, Charlie Chadwick Stark. Meu futuro é dele, assim como o futuro dele é meu. Cada lua cheia, cada respiração, cada dia, estarei sob seu amparo assim como ele estará sob o meu. Eu o reivindico como meu companheiro plena e completamente. Faço isso diante de nossa matilha e da dele, sob o olhar da própria Deusa da Lua, Heline. Que ela nos abençoe, se também me reivindicares.
Enquanto recitava, tentei manter meus olhos nos de Charlie, mas percebi que o olhar dele permanecia fixo em alguém na multidão. Bastou um rápido desvio para eu perceber em quem: Darius. Uma energia nervosa percorreu meu corpo. O suor se acumulou em minhas axilas, e as palmas das mãos ficaram úmidas. Minha loba interior se encolheu ainda mais no abrigo que eu construí, como se quisesse se esconder do espetáculo. A preocupação dela ecoava em mim.
Charlie parecia desconfortável, como se não soubesse o que fazer a seguir. Pelos deuses, ele não aprendeu a falar? Seria esse o problema? A irritação e a ansiedade cederam lugar a um fio de raiva.
Inclinei-me para a frente e sibilei:
— Você pode começar a qualquer momento.
Ele pigarreou e lançou um olhar incerto por cima do ombro, em direção ao pai e ao irmão. O nó no meu estômago se congelou em uma pedra de dúvida. Não era assim que deveria ser. Algo estava errado. Muito, muito errado.
O pai de Charlie assentiu com um gesto imperioso. Então Charlie se virou para mim — ainda sem me encarar nos olhos. De repente, uma náusea subiu pela minha garganta.
— Eu, Charlie Chadwick Stark, filho do alfa da Nona Matilha, sob o olhar da Deusa da Lua Heline, rejeito essa companheira por considerá-la desonrosa e carente de devoção. — A voz dele ecoou pela capela.
Meu mundo girou. O estômago se revirou. Choque e descrença me paralisaram; só consegui impedir que as pernas cedessem. Uma dor aguda atravessou meu peito, forte como a lâmina de uma faca. Chegou aos ossos, às entranhas, ao coração. Foi então que compreendi: ele falava sério. Rompeu o vínculo predestinado entre nós. Não era uma piada c***l. A conexão mágica havia sido despedaçada.
Gritos de fúria irromperam da Décima Primeira Alcateia. Insultos se sobrepunham em um ruído quase ensurdecedor. Meu futuro inteiro desmoronou em um sopro. Ainda tentei capturar o olhar de Charlie, mas ele já tinha se virado, retornando para o lado do pai.
Ignorando a confusão, o alfa da Nona avançou e bradou, apontando um dedo acusador para mim:
— Estávamos dispostos a ignorar a estranha incapacidade dessa mulher de se transformar, mas não podemos permitir que o futuro alfa da Nona Alcateia se prenda a alguém que se deita com qualquer um. Uma prostituta não é uma companheira aceitável para um alfa!
— f**a-se, seu desgraçado! — a voz de Kolton se ergueu, mais alta que todas as outras.
Uma prostituta? Senti as pernas fraquejarem e comecei a escorregar para o chão. Foi como levar um chute no peito. O ar me faltou. Eu não conseguia respirar. Era como se estivesse sufocando. Tudo se despedaçou num instante.
A voz de Emily cortou o tumulto:
— Ela não é uma prostituta! Se você pensa isso, é um i****a!
A repreensão dela foi recebida com vaias furiosas de ambos os lados. Por não ser metamorfa nem pertencer a nenhuma das alcateias, Emily não tinha direito de falar ali. Minha preocupação com a segurança dela latejou por um instante, mas a névoa que me envolvia não se dissipava.
O pai de Charlie voltou a gritar:
— Ela entrou no cio nos braços de outro metamorfo. Um lobo solitário imundo! O fato de a Décima Primeira Alcateia ser fraca o suficiente para se aliar a essa escória é prova de que são inferiores e indignos de nossa aliança!
A cerimônia descambou em caos. Membros de alto escalão da Décima Primeira começaram a gritar que me baniriam da alcateia, que me expulsariam como uma loba solitária, qualquer coisa para apaziguar a Nona. Alguns eram parentes, outros eu julgava amigos. Agora, todos me ofereciam em sacrifício. Vi Kolton empurrar um dos que gritava. Meu pai, de rosto pálido e olhar atordoado, encarava o chão como se o mundo tivesse se rompido sob seus pés. Mamãe soluçava no lenço, incapaz de encontrar meus olhos.
Os membros do conselho se afastaram com expressões de nojo; Jorge e Peter me lançaram um último olhar de pena misturada a desapontamento antes de virarem as costas. Tudo estava se desfazendo. Era como se minha vida inteira tivesse sido um balão e as palavras de Charlie, o alfinete. Eu precisava consertar aquilo. Deveria haver um jeito. Essa era minha única chance de fazer minha matilha se orgulhar de mim.
Firmando as pernas, avancei, agarrei a manga de Charlie e o puxei, forçando-o a me encarar. Talvez as criaturas da mata compartilhassem a opinião de Darius sobre o que estava prestes a acontecer.
Darius? Por que, em nome da Lua, eu estava pensando nele agora? Suspirei, cerrando os dentes, e me repreendi por permitir que a mente vagasse justamente no dia da minha cerimônia de acasalamento. Uma fantasia breve ameaçou tomar forma, mas bati a porta mental com força antes que a imagem se completasse.
Hoje era sobre Charlie e eu.
Não, Darius.
Forcei-me a voltar ao presente. Meu vestido era de uma beleza quase c***l. O tecido vermelho, diáfano, arrastava-se atrás de mim, flutuando sobre as pétalas de rosa espalhadas pelo caminho. Mas os pensamentos sobre a roupa foram engolidos pelo ritmo apressado do meu coração à medida que o momento de deixar o abrigo da floresta se aproximava. O murmúrio da multidão chegava cada vez mais nítido.
Inclinei-me para espiar além de um tronco e vi a Décima Primeira Alcateia inteira reunida para a cerimônia — centenas de rostos pintados com as marcas tribais em espirais e runas que simbolizavam parceiros predestinados e fertilidade. As cerimônias de acasalamento, tão antigas quanto a própria lenda da Deusa da Lua, eram comemoravam festivas. O brilho de expectativa no olhar de todos deveria me contagiar, mas só fez o nó de tristeza em meu peito pesar ainda mais.
Eu não amava Charlie. Eu sabia disso. Nossa aliança não passava de um acordo de poder. Gostaria de amá-lo — quem não gostaria de ao menos sentir um lampejo de paixão pelo noivo? —, mas era o que era. Fazia o que precisava pela minha matilha.
Entre metamorfos, o amor raramente decidia quem se unia a quem. O destino escolhia, e ponto. Se havia algo que me confortava, era saber que, ao unir-me à Nona Matilha, meus pais e todo o meu clã ganhariam influência. O orgulho deles me empurrava para a frente e abafava, por um instante, a melancolia. Eu daria a Charlie quantos filhotes ele quisesse, ainda que a ideia de acasalar com ele não me despertasse nenhum desejo. A simples imagem dele me possuindo fazia minha pele se arrepiar — e não de prazer. Mesmo assim, eu seria a melhor companheira possível, cumpriria meu papel com um sorriso treinado.
Talvez tudo fosse menos árduo se eu cedesse à tentação da droga que aquele metamorfo-leão me drogou. Bastaria uma dose para que meu corpo quisesse o que meu coração recusava. A ideia rondava minha mente como um sussurro perigoso.
Nervosa, alisei o vestido pela centésima vez. O vermelho profundo — quase a cor do sangue — foi escolha de Emily, depois de muito debate. O primeiro vestido que ela me mostrou era branco, com camadas de tule e cetim; fiquei boquiaberta de horror. Levei quase uma hora para explicar que, entre lobos, branco era reservado a casamentos de humanos ou fadas. Nós vestíamos cores escuras: vermelho, violeta, azul profundo. Tradição antiga, sem motivo além do costume. Emily jamais pareceu tão confusa.
No fundo, eu entendia a confusão dela. As cerimônias oficiais de acasalamento eram, de certo modo, um espetáculo público de algo que, para a Deusa Heline, já estava decidido no coração. Bastava que os parceiros predestinados reconhecessem a ligação de suas almas para que o vínculo se selasse para sempre. Emily riu quando ouviu isso, quase sem ar, dizendo que não conseguia imaginar Charlie sendo suficiente. Minha mãe, porém, franziu a testa, sombria, enquanto Emily continuava a pintar os símbolos em meu rosto.
Dei um passo hesitante em direção à clareira. Ainda não era o momento certo, mas não consegui resistir à vontade de espiar o círculo sagrado. Já assisti a dezenas de cerimônias ali, mas tudo parecia diferente quando se tratava de mim. A Nona Alcateia uniu à minha, formando uma roda perfeita em torno da clareira ancestral, havia séculos para selar uniões. Eu sabia, desde o dia em que o exame de sangue confirmou nosso laço, que um dia pisaria naquele espaço. Cinco longos anos se passaram em discussões com Charlie sobre quando cumprir o ritual — cinco anos de frustração para os meus pais.
Suspirei, ciente de que, enfim, a aliança seria forjada em sangue. As duas matilhas poderiam enfim descansar, seguras de que, com a iminência de guerra entre lobos e outros metamorfos, a união traria força e estabilidade.
No extremo da clareira, uma equipe de filmagem preparava os equipamentos. O mundo inteiro assistiria, fascinado, como se a união de lobos metamorfos fosse espetáculo exótico. Era parte do motivo de o Projeto Rejeitado ter se tornado tão popular. Nunca entendi por que as outras espécies se importavam tanto com a maneira como escolhemos nossos parceiros. O exame de sangue, afinal, havia substituído os combates mortais que, em eras passadas, decidiam uniões e provocavam guerras. Agora, escolher um companheiro se tornou quase tão burocrático quanto uma visita ao dentista.
Minha mãe estava radiante. Era bom vê-la assim. Eu queria que ela aproveitasse cada instante — para mim, tudo aquilo não passava de dever. Charlie seria um bom pai, um alfa forte, capaz de proteger nosso povo. Um par perfeito para a política da matilha. Mas, além disso, eu não sentia qualquer empolgação. Até minha loba interior permanecia estranhamente silenciosa. A vida inteira ouvi dizer que ela vibraria de alegria ao se unir ao companheiro predestinado. E, no entanto, dentro de mim, reinava apenas um silêncio inquietante, como se até minha própria essência aguardasse… outra coisa.
Talvez as coisas ficassem mais intensas quando o meu verdadeiro cio chegasse — o de verdade, não aquela distorção que o metamorfo-leão provocara em mim. Se fosse sequer parecido com aquela experiência, talvez Charlie e eu criássemos, enfim, um vínculo emocional mais profundo. Se o que eu sentira por Darius — alguém que eu desprezava — servisse de indicação, então com meu parceiro de destino as coisas só poderiam ser melhores. Ou assim eu queria acreditar.
Ao longe, vi Charlie sair da multidão e caminhar para o centro do círculo. Era a minha deixa. Uma agitação súbita se formou no meu estômago; respirei fundo e dei o primeiro passo para fora da floresta.
Bem na beira do círculo, Emily aguardava, mãos entrelaçadas sob o queixo e um enorme sorriso no rosto. Ela não era um lobo, mas recebera permissão para assistir, desde que ficasse afastada — assim como a equipe de filmagem.
Tudo em que eu conseguia me concentrar era em não tropeçar no vestido. A última coisa que queria era cair de cara no chão na frente de todos. À medida que me aproximava da multidão, encontrei o olhar dos meus pais. Mamãe enxugava as lágrimas de felicidade; papai mantinha a postura firme, esforçando-se para parecer o mais majestoso possível.
A Décima Primeira Alcateia me observava com entusiasmo, mas a Nona Alcateia mantinha uma reserva quase gélida. O pai de Charlie, alfa da Nona, me encarava com uma expressão que beirava o desinteresse. O irmão mais novo de Charlie, Gavin, parecia preferir estar em qualquer outro lugar. Mantive a cabeça erguida, tentando ignorar os olhares sombrios. Talvez alguns familiares de Charlie compartilhassem da mesma opinião que Kolton e Darius tinham sobre ele. Era direito deles. Não importava o que nossas famílias ou amigos pensassem: Charlie e eu estávamos destinados um ao outro.
Então o vi.
Darius, de pé ao lado de Kolton. Uma pontada de raiva atravessou meu corpo. Ele não pertencia oficialmente à Décima Primeira Alcateia — não deveria estar ali. Isso só podia significar que meu pai abrira uma exceção para ele.
A raiva, porém, evaporou quando percebi um pequeno grupo de agentes da Tranquilidade na borda externa do círculo. Peter e Jorge estavam acompanhados de vários membros de alto escalão do conselho. O coração apertou: Darius tinha razão, meus superiores estavam descontentes. O metamorfo-leão escapara, e parte da culpa recaiu sobre mim. Achavam que eu fora descuidada ao ingerir a droga que ele me oferecera. Em minha defesa, aquele miserável fora rápido e preciso — drogar meu vinho com a destreza de um mágico humano que faz uma moeda sumir.
Cerrei os dentes e me forcei a focar no que importava: minha cerimônia.
Quando finalmente olhei para Charlie, quase vacilei. Ele não tinha as runas nem os símbolos tradicionais pintados no rosto. Continuei andando, mas não pude evitar a pergunta silenciosa: por quê? Talvez a Nona Matilha não fosse tão tradicional. Ainda assim, Charlie vestia uma das roupas mais belas que eu já vira e, quando cheguei mais perto, ele deu um passo à frente para me encarar. Minhas preocupações se dissiparam por um instante.
Ficamos frente a frente por alguns segundos desconfortáveis. Tradicionalmente, o macho falava primeiro, mas Charlie desviava o olhar, como se buscasse algo na multidão. Eu já participara de cerimônias da Nona Matilha? Talvez fizessem as coisas de modo diferente.
Revirei os olhos em pensamento e decidi tomar a iniciativa. Tinha certeza de que a Deusa ignoraria uma mudança tão pequena no protocolo.
Endireitei os ombros, ergui o queixo e comecei:
— Eu, Kysha Lana Durst, entrego meu corpo e minha alma ao meu companheiro predestinado, Charlie Chadwick Stark. Meu futuro é dele, assim como o futuro dele é meu. Cada lua cheia, cada respiração, cada dia, estarei sob seu amparo assim como ele estará sob o meu. Eu o reivindico como meu companheiro plena e completamente. Faço isso diante de nossa matilha e da dele, sob o olhar da própria Deusa da Lua, Heline. Que ela nos abençoe, se também me reivindicares.
Enquanto recitava, tentei manter meus olhos nos de Charlie, mas percebi que o olhar dele permanecia fixo em alguém na multidão. Bastou um rápido desvio para eu perceber em quem: Darius. Uma energia nervosa percorreu meu corpo. O suor se acumulou em minhas axilas, e as palmas das mãos ficaram úmidas. Minha loba interior se encolheu ainda mais no abrigo que eu construíra, como se quisesse se esconder do espetáculo. A preocupação dela ecoava em mim.
Charlie parecia desconfortável, como se não soubesse o que fazer a seguir. Pelos deuses, ele não aprendera a fala? Seria esse o problema? A irritação e a ansiedade cederam lugar a um fio de raiva.
Inclinei-me para a frente e sibilei:
— Você pode começar a qualquer momento.
Ele pigarreou e lançou um olhar incerto por cima do ombro, em direção ao pai e ao irmão. O nó no meu estômago se congelou em uma pedra de dúvida. Não era assim que deveria ser. Algo estava errado. Muito, muito errado.
O pai de Charlie assentiu com um gesto imperioso. Então Charlie se virou para mim — ainda sem me encarar nos olhos. De repente, uma náusea subiu pela minha garganta.
— Eu, Charlie Chadwick Stark, filho do alfa da Nona Matilha, sob o olhar da Deusa da Lua Heline, rejeito esta companheira por considerá-la desonrosa e carente de devoção. — A voz dele ecoou pela clareira.
Meu mundo girou. O estômago se revirou. Choque e descrença me paralisaram; só consegui impedir que as pernas cedessem. Uma dor aguda atravessou meu peito, forte como a lâmina de uma faca. Chegou aos ossos, às entranhas, ao coração. Foi então que compreendi: ele falava sério. Rompera o vínculo predestinado entre nós. Não era uma piada c***l. A conexão mágica havia sido despedaçada.
Gritos de fúria irromperam da Décima Primeira Alcateia. Insultos se sobrepunham em um ruído quase ensurdecedor. Meu futuro inteiro desmoronara em um sopro. Ainda tentei capturar o olhar de Charlie, mas ele já se virara, retornando para o lado do pai.
Ignorando a confusão, o alfa da Nona avançou e bradou, apontando um dedo acusador para mim:
— Estávamos dispostos a ignorar a estranha incapacidade desta mulher de se transformar, mas não podemos permitir que o futuro alfa da Nona Alcateia se prenda a alguém que se deita com qualquer um. Uma prostituta não é companheira aceitável para um alfa!
— f**a-se, seu desgraçado! — a voz de Kolton se ergueu, mais alta que todas as outras.
Uma prostituta? Solta? Senti as pernas fraquejarem e comecei a escorregar para o chão. Foi como levar um chute no peito. O ar me faltou. Eu não conseguia respirar. Era como se estivesse sufocando. Tudo se despedaçara num instante.
A voz de Emily cortou o tumulto:
— Ela não é prostituta! Se você pensa isso, é um i****a!
A repreensão dela foi recebida com vaias furiosas de ambos os lados. Por não ser metamorfa nem pertencer a nenhuma das alcateias, Emily não tinha direito de falar ali. Minha preocupação com a segurança dela latejou por um instante, mas a névoa que me envolvia não se dissipava.
O pai de Charlie voltou a gritar:
— Ela entrou no cio nos braços de outro metamorfo. Um lobo solitário imundo! O fato de a Décima Primeira Alcateia ser fraca o suficiente para se aliar a essa escória é prova de que são inferiores e indignos de nossa aliança!
A cerimônia descambou em caos. Membros de alto escalão da Décima Primeira começaram a gritar que me baniriam da alcateia, que me expulsariam como um lobo solitário, qualquer coisa para apaziguar a Nona. Alguns eram parentes, outros eu julgava amigos. Agora, todos me ofereciam em sacrifício. Vi Kolton empurrar um dos que gritara. Meu pai, de rosto pálido e olhar atordoado, encarava o chão como se o mundo tivesse se rompido sob seus pés. Mamãe soluçava no lenço, incapaz de encontrar meus olhos.
Os membros do conselho se afastaram com expressões de nojo; Jorge e Peter me lançaram um último olhar de pena misturada a desapontamento antes de virarem as costas. Tudo estava se desfazendo. Era como se minha vida inteira tivesse sido um balão e as palavras de Charlie, o alfinete. Eu precisava consertar aquilo. Deveria haver um jeito. Essa era minha única chance de fazer minha matilha se orgulhar de mim.