Darius
Kolton sentou-se à minha frente. Ele tinha se recolhido ao quarto depois que a mãe começou a falar sobre a cerimônia, e eu me juntei a ele logo em seguida. Mesmo depois de três dias, eu ainda remoía o que aquele babaca do Charlie tinha feito.
Kolton estava mergulhado em uma tarefa da faculdade, enquanto um jogo de basquete passava na TV com o som quase no mínimo. Eu fingia assistir, mas por dentro estava fervendo.
Sempre me orgulhei de ser alguém capaz de perdoar e seguir em frente. O passado era passado; erros aconteciam, e, em teoria, a vida continuava. Só que o egoísmo e a infantilidade de Charlie quando viu Kysha sangrando quase até a morte em meus braços… isso eu não conseguia engolir. Enquanto ela chorava de dor, com o corpo tremendo e o ferimento de faca escorrendo sangue quente, tudo o que Charlie fez foi reclamar, espernear e exigir ir para casa — e ainda ficou furioso porque eu havia encostado “no que era dele”. Como se Kysha fosse um carro ou imóvel que ele tivesse comprado.
Um preguiçoso de merda, um filhinho de papai — mas o que mais esperar do herdeiro mimado do alfa da Nona Alcateia? Os pais de Kysha estavam radiantes com a ideia de fortalecê-la através desse casamento, como se isso fosse elevar o prestígio da matilha. Eu tentei compartilhar da empolgação, mas como aceitar que o cara tinha levado cinco anos para marcar a cerimônia? Cinco malditos anos! Kysha tinha feito o exame de sangue para acasalamento e se unido a ele meia década atrás, e só agora Charlie decidiu oficializar. Que sentido isso fazia?
No dia em que ela aceitou a união, Kolton me contou que Kysha não estava nem um pouco entusiasmada. Diante dos pais, porém, foi corajosa: sorriu, fingiu confiança e deixou que eles comemorassem a “honra” de ter o filho de um alfa como companheiro predestinado para sua filha.
Depois que conheci Charlie, entendi perfeitamente a falta de emoção dela. No papel, ele podia parecer um prêmio; na realidade? Era como um brinquedo barato no fundo de uma caixa de cereal — bonito de longe, mas sem graça, mimado e irritantemente chato.
Ser um lobo solitário me deu uma perspectiva diferente de como nosso mundo funcionava. A maioria das outras criaturas encontrava parceiros por amor: humanas, fadas, sereias… eles simplesmente se apaixonavam. Nós, não. Para os lobos, o sangue definia o destino. E ficar preso a um i****a como Charlie — que não enxergava além do próprio umbigo, incapaz de perceber o risco que Kysha corria — me parecia uma sentença c***l.
Na minha opinião, exame de sangue não era forma de encontrar um companheiro. Mas quem diabos me perguntou? O Conselho da Arcanum nunca bateu à minha porta pedindo sugestões. Se algum dia o fizesse, eu teria algumas verdades para despejar.
— Cara, você tá bem? — a voz de Kolton me arrancou dos pensamentos.
Olhei para cima. Ele me observava com um olhar misto de preocupação e confusão; meus pensamentos deviam estar estampados no rosto.
Balancei a cabeça, tentando disfarçar. — Só penso em como, no fim, parecem ser apenas os seus pais que estão realmente ansiosos pela cerimônia de acasalamento. Se é assim, por que eles não cancelam?
Kolton soltou uma risada breve. — Boa sorte em convencer Kysha disso. Confie em mim, já tentei. Conversamos várias vezes, mas ela não está nem um pouco encantada com Charlie.
— Percebi desde o primeiro dia — retruquei —, mas ela é teimosa. No começo era sobre seguir a tradição, mas agora quer provar que a Décima Primeira Matilha é forte, especialmente depois das tensões do último ano. Para ela, esse acasalamento não é uma bênção pessoal; é um pacto para proteger a matilha.
Ele deu de ombros, resignado. — É o que é.
A aceitação dele só aumentou minha irritação. Inclinei-me para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Kysha está prestes a arruinar a própria vida com esse babaca. Você, no lugar dela, não faria isso. Por que ela não enxerga?
— Não estou dizendo que você esteja errado — respondeu Kolton, a voz baixa —, mas ela se sente obrigada a provar o próprio valor porque não consegue se transformar. Carrega esse peso como se fosse um fracasso.
Fiquei em silêncio. Ele tinha razão, mas havia coisas que Kolton não sabia — e não cabia a mim contar.
Meu olhar caiu sobre o livro em suas mãos. Senti um orgulho discreto do meu amigo. Kolton vinha se esforçando para concluir os créditos numa faculdade comunitária, sonhando em se transferir para a Universidade Talbot, em Fangmore City, a capital dos metamorfos-lobos. Mas seus pais insistiam que ele terminasse os estudos nas Terras Selvagens Orientais, para ficar por perto e, um dia, assumir o posto de alfa. Eu achava isso uma tolice. Nem ele nem Kysha tinham liberdade para decidir o próprio futuro; os pais os tratavam como crianças.
Kolton fechou o livro com um estalo e esfregou os olhos cansados. — Ok, preciso de uma pausa. Se continuar estudando, vou ficar vesgo. Quer um lanche ou algo assim?
Levantei-me e me espreguicei. — É. Depois preciso verificar algumas coisas com alguns dos meus colegas. Estou aqui há dias, preciso ver se eles estão bem.
Eu era um lobo solitário, mas, ao longo dos anos, acabei me juntando a um pequeno grupo de rapazes. Éramos todos iguais: lobos que haviam perdido a própria matilha de alguma forma e agora estavam por conta própria. Eu me tornei o líder de fato, embora ninguém tivesse declarado isso em voz alta. Os pais de Kolton nos acolheu há muito tempo — o que, no começo, gerou um pequeno escândalo. Ainda assim, fizemos o possível para provar que valíamos a pena.
A maioria dos metamorfos desprezava lobos solitários. Essa era uma das razões pelas quais eu raramente dava minhas opiniões a alguém além de Kolton. Nunca seríamos membros oficiais da Décima Primeira Matilha, e, sinceramente, tudo bem. O apoio de uma matilha, porém, nos mantinha mais seguros do que se estivéssemos totalmente sozinhos.
Segui Kolton pelo corredor em direção à sala de estar, mas parei quando vi Kysha sentada na beirada do sofá. Emily estava inclinada sobre ela, pintando círculos e símbolos delicados no rosto da amiga. Kysha parecia tão serena, tão tranquila, que não consegui evitar perceber — de novo — o quanto ela era linda.
Uma nova onda de raiva me atingiu. Eu estava ali há dias, dormindo no sofá do quarto de Kolton todas as noites, esperando Kysha acordar, se recuperar, e Charlie não tinha aparecido uma única vez. Nem sequer para ver como estava a mulher que seria sua companheira predestinada. Cerrei os dentes, mas mantive o rosto impassível quando Emily nos notou.
— Ei, pessoal — disse Emily, com um sorriso. — E então, como está a noiva radiante?
Kysha abriu os olhos e, ao me ver, a irritação atravessou seu semblante como uma nuvem escura. Antes que eu pudesse responder, ela retrucou:
— Guarda para si, Darius. Não preciso ouvir sua opinião. Ela não significa nada.
Respirei fundo para me manter calmo. — Que honra a minha opinião ser tão valorizada — respondi, num tom irônico. — É uma pena que o seu futuro companheiro não se importe o bastante para passar por aqui. Pelo jeito, ele não se importa nem se você está viva. — Dei de ombros, fingindo indiferença.
Kolton soltou uma risada curta, mas Kysha me lançou um olhar que poderia cortar uma pedra. — Você não deveria estar lá fora, cuidando do seu bando de desajustados? —Ela arqueou uma sobrancelha. — Ou será que o Conselho da Arcanum já te expulsou das operações?
Cruzei os braços e fitei o teto, como se estivesse fazendo cálculos complicados, antes de encará-la novamente.
— Ah, é mesmo. As agendas se confundem quando uma agente se deixa drogar e quase morre. Se ao menos alguém tivesse aparecido para mandar abortar a missão... Cara, as coisas teriam sido muito melhores se tivessem ouvido o instinto de um certo alguém.
Emily ficou boquiaberta. — Ok, talvez devêssemos conversar sobre algo menos... explosivo.
— O que exatamente você está insinuando, Darius?
Kysha estreitou os olhos.
Lancei-lhe um olhar de falsa surpresa. — Eu? Só estou dizendo que você é um ímã para problemas, e eu tenho que aparecer o tempo todo para te salvar.
Kolton assobiou entre os dentes, reconhecendo que eu acabei de cutucar um vespeiro. Todos conheciam a reputação de Kysha. Ela era uma agente feroz, com prêmios e elogios para provar, mas sua coragem já a havia colocado em situações complicadas mais de uma vez
— o suficiente para que até ela soubesse disso. E, como sempre, sua defensividade surgia depressa.
— Ok, pessoal, eu ainda preciso terminar as unhas dela — interveio Emily, antes que a discussão se transformasse em gritaria. — Estamos prestes a assistir à reprise da última temporada de Breaking bad. Vocês podem ficar, mas só se houver trégua. Entendido?
Kolton fez um som de desdém com a língua. — É como assistir a uma briga de galos. Esse programa é bárbaro. Emily, como você não passa m*l vendo isso?
Concordei com Kolton. Eu sempre tinha evitado a série; não era o meu tipo de entretenimento. Mas, aparentemente, Kolton e eu éramos minoria.
Emily cruzou as mãos no colo e lançou a Kolton um olhar melosamente doce. — Bem, Senhor Lobo, o programa já existe há anos, então claramente não sou a única que gosta.
Kolton sorriu e balançou a cabeça. — Ok. Cada um com seus gostos. Eu vou pegar algo para comer.
Ele se afastou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Emily e Kolton sempre se provocavam como se fossem irmãos. Normalmente eu achava divertido, mas, dessa vez, não consegui achar graça. Continuava remoendo a raiva de Charlie — e o fato de Kysha estar prestes a arruinar a própria vida.
Charlie era podre por dentro, sempre tinha sido. Claramente não dava a mínima para Kysha, mas ninguém parecia enxergar — ou talvez estivessem cegos demais pela perspectiva de alinhar as matilhas.
Eu já estava quase saindo quando parei e me virei para ela.
— Ei, você pode dar uma ajudinha para a sua equipe? Dei a eles um resumo, mas ainda precisam do seu relato. Os figurões não estão nada felizes com o que aconteceu.
Kysha estendeu a mão para que Emily pintasse as unhas e revirou os olhos. — Obrigada, Darius, mas eu já sou bem crescidinha. Dou conta disso. Consigo lidar com as coisas sem que você fique surtando.
Reprimi um gemido de frustração e saí antes que começássemos a trocar novas farpas. Por mais que Kysha e eu não nos suportássemos, ela era minha colega de trabalho — e a irmã do meu melhor amigo. Eu não conseguia evitar me preocupar. Não podia simplesmente desligar esse sentimento, por mais que quisesse.
Amanhã, eu teria que assistir à cena mais insuportável de todas: Kysha se amarrando para sempre a um pedaço de lixo como Charlie. Como eu conseguiria ver isso acontecer? Talvez devesse simplesmente desaparecer. Abandonar minha “matilha não oficial”, renunciar ao conselho e vagar pelo mundo como um verdadeiro lobo solitário. A ideia era assustadora, perigosa — mas, talvez, ainda assim melhor do que ver Kysha ao lado de Charlie dia após dia.
Principalmente sabendo que, para ele, ela não passava de um enfeite, uma peça de vitrine.
Ela era muito mais do que isso. Uma pena que o companheiro predestinado dela jamais fosse capaz de enxergar o que eu via.