Jeremiah havia marcado exatos 5 minutos desde que o Capitão Pollack aparecera na TV da sala de espera do hospital falando sobre os corpos achados em Raytown. David havia usado todas as palavras ditas por Gargia através do telefone quando Marie entrou na ambulância desacordada. Ela havia caído na inconsciência logo que desceram do sótão. Assim que colocou os dois pés no chão do primeiro andar, o detetive agarrou o corpo mole e fraco nos braços. Apenas depois de avisar ao capitão o que acontecera e a adrenalina no seu sangue diminuir o ritmo, Jeremiah percebeu que seu colete estava tingido de sangue que não o pertencia. A polícia da cidade de Raytown foi acionada, mas eles sabiam que não tinha mais o que fazer a não ser encontrar o assassino.
Seguindo as ordens do seu superior, Gargia foi junto com alguns policiais para o hospital esperar os amigos e familiares da vítima com o objetivo de passar as informações necessárias. Enquanto esperava, as indagações explodiam como fogos de artifício na mente do detetive e a imagem dos corpos decapitados lhe aterrorizava.
Enquanto velava junto com outros oficias a segurança de Marie Levitan, a equipe da perícia investigava o local com minuciosidade. Era questão de tempo até que achassem alguma pista.
O detetive levantou-se para pedir informações sobre a saúde da Levitan assim que três pessoas entraram como um furacão na sala de espera. Instintivamente, todas as pessoas que aguardavam de forma paciente no local ergueram seus rostos em direção à confusão que se instalava ali.
— Onde está minha sobrinha? Onde está Marie Levitan? Diga me onde ela está! — Antes mesmo da recepcionista dizer algo, a mulher baixinha, aparentando estar na casa dos trinta, gritou. Os cabelos pretos estavam bagunçados e o vermelho do rosto era marcado por olheiras de noites m*l dormidas e choros contínuos.
— Meu amor, — um homem ao seu lado a segurou pelo ombro — tenha calma!
— Calma? Meu irmão está morto, Ryan! Toda família que eu tinha morreu! Apenas Belle está viva. Eu quero vê-la!
Enquanto a mulher gritava com Ryan, o outro homem que entrara com eles conversava calmamente com a recepcionista, conseguindo as informações que procurava. Ele usava terno e tinha os cabelos cheios de gel, penteados para trás de forma pomposa. Mantinha uma pose serena, profissional e prepotente de quem mandava e não recebia ordens. Jeremiah comparou-o com um dos principais personagens de Suits encarnado em toda sua glória e arrogância.
— Com licença, — falou Gargia educadamente — vocês são parentes da senhorita Levitan?
Ryan suspirou aliviado e olhou para o detetive com gratidão estampada no rosto por ter interrompido aquele escândalo de sua esposa. Arrumou ligeiramente a gola de seu suéter branco e estendeu a mão com um sorriso.
— Sim, e você deve ser o detetive que o capitão Pollack nos falou. — respondeu ele afável.
Jeremiah correspondeu o seu cumprimento. O homem, que estaria no auge de seus 35 anos, tinha as mãos bastante calejadas e um aperto forte.
— Meu nome é Ryan Dixon. Sou esposo da irmã de Chad. Estamos devastados com a atrocidade que aconteceu.
O detetive observou o rosto de Ryan procurando algum vestígio de tristeza genuína, no entanto, encontrou apenas o luto respeitoso que qualquer ser humano com alma teria naquele momento. A então tia de Marie arrumou seus cabelos rapidamente e passou a mão no rosto enxugando as lágrimas que ainda estavam em sua face.
— Fallon Dixon. —apresentou-se — Eu sou... — hesitou — Era... Irmã mais nova de Chad.
— Sinto muito pela sua perda, senhora Dixon. — Jeremiah falou com a voz neutra.
Um silêncio fúnebre ressoou entre eles enquanto seus pensamentos vagavam pela família morta. O homem engravatado, que falava com a recepcionista minutos antes, coçou a garganta chamando-os atenção.
— Ah! — exclamou Ryan. — Esse aqui é Elliot Russel, noivo de Marie.
O detetive fitou-o. Elliot era quase tão alto quanto ele e aparentava possuir sua idade. Mostrava-se ser um homem silencioso e era dotado de uma animosidade no olhar pertencente à sua profissão. Em sua íris azul gelo, havia uma calma bem calculada, uma faixa que cobria os verdadeiros sentimentos que tumultuavam sua mente.
— Prazer. — Ele lhe estendeu a mão. Jeremiah apertou de bom grado com um movimento pequeno nos lábios apenas para que as covinhas do seu rosto aparecessem.
Mesmo estando sério a maior parte do tempo, Jeremiah era considerado simpático apenas por causa dos rasgos em suas bochechas que a qualquer movimento em seu rosto apareciam sem aviso prévio. Desde a adolescência, as covinhas em seu rosto era sua arma que o deixava mais convidativo. Com isso, Elliot riu de forma branda, já que sorrir abertamente naquela situação não era certo.
— Eu falei com a recepcionista. — informou Elliot. — Belle está bem, mas precisa descansar. Visitas só serão permitidas daqui a mais ou menos quarenta minutos.
E suspirou frustrado.
Jeremiah imaginou o quão desesperado Elliot ficara nos últimos dias: sua noiva desaparecida junto com a família, a angústia da incerteza de não saber se ela ainda estava viva. Imaginou que, desde que soubera que Marie respirava, tinha vontade de correr em sua direção, prendê-la em seus braços, dizer que tudo ficaria bem e nunca a deixaria escapar.
— Por que não nos sentamos? — sugeriu Ryan.
Ele anuiu e, junto com os outros, se sentaram nas cadeiras da sala de espera.
Assim que senhor Dixon sentou-se na cadeira, se pôs a falar sem parar:
— Nos últimos dois dias estávamos espalhando vários cartazes para achá-los. Uma pena não termos tido resultados satisfatórios — lamentou enquanto explicava a estratégia que sugerira à polícia, as quais foram deliberadamente ignoradas.
Gargia deu uma rápida olhada nos parentes dos Levitans tentando captar o sentimento de cada um. Elliot batia o pé no chão e olhava para a recepção cada vez que alguém ameaçava ir à sua direção, enquanto Fallon chorava copiosamente ao lado de seu marido, o único que parecia estar confortável a situação. A forma dinâmica que Ryan narrava os fatos vividos nos últimos dias intrigava o detetive; o homem estava aparentando que, no mínimo, não sabia do fim trágico que o desaparecimento da família proporcionou.
— Os corpos estavam em uma casa em Raytown? — Ryan perguntou, virando-se para Jeremiah.
— Sim, em uma casa abandonada. — confirmou Jeremiah com cuidado para não dizer mais do que devia.
— Como estavam os corpos? É verdade que... — Fallon perguntou, mas logo se interrompeu temerosa. — Não vai ser caixão fechado, não é?
Gargia lambeu os lábios sentindo um pequeno peso na garganta. Desviou o olhar para o chão, tentando buscar palavras brandas para amenizar a situação.
— Acredito que não, senhora.
Os olhos de Fallon se encheram de lágrimas, mas as enxugou rapidamente com a ponta dos dedos. Ela lançou um olhar duro para frente e cerrou o punho batendo com força na coxa.
— Eu quero justiça. — Sua voz soou como sussurro convicto. — Ache esse maluco, esse psicopata! — Ela ordenou virando-se para o detetive. — Mate-o se for preciso.
Jeremiah balançou a cabeça concordando, mas manteve-se calado. Percebendo a tensão gradual que se estabelecia, Elliot se pôs a fazer perguntas superficiais sobre o caso. Era cedo demais para dizer qualquer coisa, mas eles pareciam ansiosos por qualquer informação que fizesse a morte daquela família fazer sentido. Cautelosamente, Gargia explicou que não tinha nenhuma novidade sobre o culpado e que tudo que sabia era o que tinha acontecido naquela manhã.
Ao ouvir as palavras pouco satisfatórias, Fallon mostrou-se agitada e frustrada. Ela esperava que o detetive Gargia tivesse em mente ao menos um suspeito, mas tudo indicava que ele sabia tanto quanto eles. Levantou-se rapidamente quando uma enfermeira estava se aproximando. A mulher arrumou o jaleco e sorriu.
— Marie Levitan está bem. — disse ela. — Apenas alguns ferimentos leves, fisicamente está saudável. Ela pode vê-los, mas receio que não é o momento para fazer perguntas. — Lançou um olhar significativo para o detetive. — Sejam pacientes, ela ainda está em estado pós-traumático.
Rapidamente os três adultos acompanharam a enfermeira com pressa, mostrando sua ansiedade em rever Marie o quanto antes. Jeremiah acompanhou-os devagar, não querendo atrapalhar a conversa entre a família. Checou o celular procurando qualquer mensagem de Stifler, sem sucesso. Olhou suas redes sociais e aplicativos de mensagem, mas o perito não enviara nada, deixando-o preocupado. Viu, então, que já havia se afastado do grupo e que eles já estavam a outro corredor. Apressou o passo para juntar-se aos parentes da vítima quando uma voz o fez parar subitamente. Ele conhecia muito bem aquele som grave e autoritário que acompanhara todos os passos de sua vida. Sinônimo de pressão, aquela voz ainda ressoava em seus ouvidos quando ele sentia que o que ele fazia não era suficiente e que nunca o seria. Era o tom de sua consciência, que culminava sua cabeça quando seus erros eram maiores do que ele podia suportar.
— Filho?