Daniel Stifler era conhecido pelo departamento por sua inconstância. Apesar de ser qualificado para o cargo, sua personalidade apenas destacava sua esquisitice. Cheio de trejeitos, o cientista forense amava seu trabalho de forma que mesmo as cenas mais preocupantes e grotescas o extasiava. Um gênio incompreendido, Stifler mantinha sempre o cabelo ruivo bem penteado e carregava um sorriso estranho e cheio de dentes. Poucos pareciam ver mais do que um garoto que andava esquisito e possuía mais espinhas do que o normal para quem já havia saído da puberdade.
Jeremiah Gargia, no entanto, o aceitou como pupilo assim que Daniel começou uma conversa sobre Criminal Minds e como deveria ser interessante trabalhar para FBI. Apesar da sua obsessão por serial killers — coisas que graças a Deus não era recorrente em Lee’s Summit —, o tanto que Stifler era curioso, ele era inofensivo.
Jeremiah encontrou-o tirando fotos da cena do crime. Os corpos já haviam sido encaminhados ao OCME* e, assim que chegasse na delegacia, as imagens das estradas de Raytown iriam estar disponíveis para averiguação. Ainda havia uma equipe vasculhando o perímetro da casa com cachorros de caça e mais tarde organizaria as convocações para depor na polícia. Com cuidado, o detetive começou a vasculhar por algum furo em seus planos, mas parou assim que percebeu que Stifler não estava sozinho.
Fiscalizando o trabalho da perícia, o Detetive Richard Lawrence caminhava pelo sótão impacientemente. Jeremiah respirou fundo, temendo que a presença de Lawrence significasse o que havia cruzado sua mente, embora a verdade estivesse escancarada à sua frente: depois de três meses sem um parceiro, finalmente o capitão havia lhe designado alguém para trabalhar junto com ele. No entanto, esperar por um novo colega de trabalho nunca foi-lhe tão desanimador, levando em consideração que teria que lidar com o maior almofadinha da delegacia.
— Algum problema, Richard? — indagou Jeremiah, ensaiando uma expressão serena, porém cautelosa.
— O que aconteceu com sua camisa?
Jeremiah soltou um resmungo ao perceber que ainda tinha manchas vermelhas em sua vestimenta. Eram discretas, mas era seu dever ter no mínimo a trocado.
— Problemas de trabalho, eu acredito — respondeu sem se abalar.
Richard, no entanto, incomodou-se com sua atitude.
— Está aí o porquê de não se mandar qualquer detetive para o campo.
Jeremiah colocou as mãos nos bolsos da calça, a sensação térmica baixando assim que encarou sem medo o melhor e mais insuportável detetive de Lee’s Summit.
— Concordo, detetive — disse ele.
Stifler levantou o olhar de sua câmera, estranhando a atitude de Jeremiah. Gargia era conhecido por não levar desaforo para casa e sua atitude cordial era anormal para aqueles que o conheciam.
— Agora, se me der licença o detetive qualquer aqui precisa fazer seu trabalho.
Daniel levantou as sobrancelhas e segurou o riso. Observou Jeremiah aproximar-se de Stifler, que sorriu ante ao amigo.
— Dia difícil?
— Nem me fale — respondeu Gargia — Diga-me o que era tão interessante que me fez vir até aqui.
Com uma animação renascida, Stifler se pôs a falar do modo organizado em que o criminoso executou o assassinato. Tudo indicava que a diferença da hora da morte era de menos de um dia e havia apenas três cadeiras no sótão, não quatro. Havia pacotes de salgadinhos e doces jogados por todas as partes; todos dentro da validade. Os pequenos pacotes de suco de caixa e garrafa de água foram levados em busca de um DNA que pudesse levar ao culpado.
Apesar de ser explicado para o Detetive Gargia, Lawrence os rodeava como abutre em busca de respostas. Ele anuía, fazia notas e perguntas, transformando a paciência de Jeremiah em graus menores a cada segundo. Seu jeito invasivo era fogo aceso perto da pólvora que era o temperamento de Gargia. Embora tenha melhorado com a idade, sua essência impaciente ainda permanecia intacta diante de idiotas que não sabiam seu lugar.
E, com toda certeza, Lawrence era um deles.
— Vou precisar que tragam os cachorros para farejar a área de dentro. Talvez tenha algo que estamos esquecendo. Lá fora, encontrei algumas pegadas que iam para fora do perímetro em que os policiais estavam, vocês deveriam dar uma olhada — disse Richard meio sugerindo, meio ordenando.
De toda maneira, ainda assim recebeu o olhar arqueado de Gargia de “você sabe que esse caso é meu?” que era muito mais efetivo do que as palavras propriamente ditas.
Foi quando Lawrence sorriu, o bastardo.
— O que há, Gargia? Não me diga que não sabe que somos parceiros a partir desse caso?