Fragile ties

1768 Palavras
Klaus Gargia era um neurocirurgião respeitado pela alta sociedade de Missouri e sempre que tinha oportunidade ostentava sua posição. Os cabelos eram um mar cinza e rugas marcavam sua face cansada; em todos os hospitais da região, alguém já ouvia falar de seu nome e respeitava seu trabalho. Em Kansas City, era conhecido e requisitado quase todas as semanas. Sua presença impunhava respeito — até mesmo quando se estava com a família, a autoridade que Klaus possuía preenchia todo o espaço e aquilo incomodava Jeremiah em proporções absurdas. Era como seu pai fosse além do humano. O olhar em sua direção era sempre acusatório e naquela vez não era diferente. Jeremiah tinha quase nada parecido com o pai, apenas a antiga cor dos cabelos e dos olhos. De resto, a aparência se assemelhava a mãe. Mesmo sendo 10 centímetros mais alto que seu pai, Jeremiah se sentia minúsculo perto dele. Ele usava jaleco com seu nome bordado de lado com linhas azuis, uma combinação harmoniosa com a sua camisa social da mesma cor. — Veio visitar seu pai? — perguntou Klaus em tom amargo. — Estou aqui à trabalho — respondeu Jeremiah prático. — Sua mãe sente sua falta. Você não vai lá desde 4 de julho. — disse com uma reprimenda implícita. Eles estavam no final de setembro e isso lhe dava quase três meses que não ia à casa de seus pais. Não que ele não sentisse falta de sua família, mas ele desejava apenas visitá-los em feriados como Ação de Graças e Natal. Ainda assim, era difícil evitá-los quando eles moravam em Kansas City e viviam trabalhando em hospitais próximos à Lee’s Summit. Era por isso que, sem planejamento algum, esbarrou com Klaus Gargia no corredor do hospital da cidade. Jeremiah suspirou pesado, desejando ser essa a resposta que seu pai desejava. — Bem, acho que você pode vir nos ver hoje à noite. — falou o cirurgião segurando-o pelo ombro. A mão de Klaus era forte, pesada. Jeremiah observou para os dedos precisos de seu pai e entendeu aquilo era uma ordem, não uma sugestão. — Eu não sei, pai... — Seu irmão vai estar aqui e sua mãe deseja ver a família reunida — insistiu. — Você sabe que eu não ligo para isso, — ele revirou os olhos — mas sua mãe sim. Eu estava pra ligar pra você ainda mais cedo. — Pai... — Ele olhou para o final do corredor, procurando pela família dos Levitans — Eu preciso ir. Estou aqui à trabalho. — Tudo bem se você não quiser ir. — Ele balançou a mão em desdém — Mas se mudar de ideia, apareça às sete. Soltou-lhe o ombro e saiu pelo corredor no sentido contrário ao que Jeremiah ia. Gargia balançou a cabeça espantando os pensamentos conflituosos e apressou o passo pelo corredor torcendo para que achasse a sala onde Marie Levitan estava. Não teve muita dificuldade em encontrá-los, já que avistara a enfermeira dando as últimas informações para os parentes. Aproximou-se e escutou a mulher reforçar as regras para os visitantes com delicadeza. Logo que a enfermeira abriu a porta, a família de Marie entrou na sala rapidamente. Não querendo atrapalhar aquele momento tão íntimo, Jeremiah decidiu esperar do lado de fora. Cruzou os braços e encostou-se na parede do hospital ponderando as palavras de seu pai. Não tinha reais motivos para não querer ir a um jantar de família, afinal, rever seu irmão depois de tantos meses seria bom. Passava tanto tempo trabalhando que basicamente esquecera de que haviam pessoas que ainda se importavam com ele, apesar de ser daquele jeito estranho dos Gargia. Mesmo com a certeza do afeto de seus pais em sua mente, Jeremiah não conseguia se sentir confortável quando estava em um dos jantares que sua mãe oferecia. Já havia se passado 10 anos, mas ele não enxergava mais do que a decepção que trouxera aos seus pais na adolescência, uma época onde havia se rebelado e cometido mais erros do que pudesse contar em toda sua vida. Sentia-se envergonhado por ter feito sua mãe ficar noites acordada até tarde o esperando chegar ou por ter dado tanto prejuízo com um dos carros que ganhou do seu pai. Foi a primeira e última Mercedes que teria na vida. Era insensato, imprudente e rebelde quando mais novo e a vergonha pelos seus atos imaturos ainda lhe era carregada nas costas desde que decidira tomar um rumo melhor na vida. Até mesmo sua escolha de trabalhar para a polícia não agradou seu pai, que desejava que seu filho mais novo tomasse algum rumo na área de saúde. Ainda assim, o fato de ter seguido sequer uma carreira já era válido, tendo em vista que todos esperavam que ele vivesse às custas dos pais até onde o dinheiro o levasse. Gargia se sentia um péssimo companheiro para seu irmão desde que entrara na puberdade e Andrew ingressava na universidade de química. O detetive sempre soube que estava à sombra de um irmão mais velho inteligente, mas vê-lo se tornando um dos cientistas químicos e farmacêuticos mais famosos do século XXI, revolucionando a área industrial, era demais para competir. Sabia que ele fazia coisas malucas às vezes, no entanto, não esperava que um dia iria idealizar um dos remédios antidepressivos mais aclamados pelos psiquiatras, enquanto ele perseguia ladrões de bolsas nas ruas. Revê-lo poderia ser uma tortura ou uma benção e, felizmente, Jeremiah considerava correr o risco. Saiu de seus pensamentos ao ouvir o coçar de garganta que a enfermeira que os acompanhava fazia. Olhou para frente encarando a mulher esguia de cabelos ruivos o fitar, esperando sua atenção. — Por gentileza, fale-me da situação de Marie Levitan. — Sim, sim. — a enfermeira saiu de órbita. — Ela está bem, receberá alta em breve. Fizemos uma bateria de exames e está tudo ok. Apenas um pouco de desidratação e excesso de remédios para dor de cabeça. Pelo que consta na ficha de saúde de seu médico, ela tem problemas de enxaqueca. Jeremiah assentiu e andou em direção a porta para conversar com a vítima. No entanto, a mão de Evellyn segurando um dos seus braços, o impedindo de continuar. — Ela está em um alto estado de choque. Há um médico psicólogo a acompanhando — explicou em alerta. Evellyn parecia bem mais baixa ao seu lado e precisou levantar a cabeça para encará-lo. — Receio que ela não possa dar algum depoimento nos próximos dias. Cauteloso, Jeremiah aproximou-se da janela ao perceber que as persianas foram abertas. A cena que ele presenciou era do jeito que fora alertado segundos antes. Marie estava com os olhos sem vida, vidrados em um ponto invisível no canto da sala. Elliot sussurrava palavras de conforto enquanto acariciava seus cabelos, contudo, sua noiva não demonstrava está prestando e atenção. A tia de Levitan, no entanto, chorava ao ver a situação deplorável de sua sobrinha - os braços e o pescoço estavam arranhados e repletos de cortes semi-abertos com apenas alguns pontos na mão esquerda. O rosto estava fino e os lábios secos. Um médico de meia idade conversava com Ryan Dixon, que afagava as costas de sua mulher. De repente, lágrimas desceram no rosto da vítima sem que qualquer expressão aparecesse em sua face. Elliot acariciou suas bochechas, enxugando-as com carinho. Olhou para trás e disse algo ao médico. Gargia fitou rapidamente a hora em seu celular e percebeu que já havia passado trinta minutos de sua hora de almoço. Lembrava do recado que o capitão Pollack deixara, apressou-se para entrar no quarto. Assim que abriu a porta, o olhar vago de Marie desapareceu. A íris escura fez questão de mirar nos olhos do detetive. Jeremiah já tinha uma despedida na ponta da língua, porém se demorou na mudança repentina de comportamento da Levitan. Um silêncio estranho invadiu a sala, todos esperando um novo passo de Marie. No entanto, tudo que a Levitan fez foi encarar seu salvador com atenção. Então, o médico coçou a garganta, incomodado com aquela mudança brusca de clima. O detetive pigarreou também e desviou olhar para família que se mostrava confusa com a reação de Marie. — Ela ficará bem? — perguntou Jeremiah ao médico. — Sim, ela ficará. — O homem olhou para os lados e segurou o braço do policial, o empurrando para fora. Gargia cerrou os olhos e assim que percebeu que estavam do lado de fora, puxou o braço rudemente. Quem aquele homem achava que era para puxar-lhe daquele jeito? — Olhe, detetive Gargia, — ele pronunciou seu sobrenome com nojo — não me importo de quem você é filho, você não pode entrar assim no quarto de uma paciente no estado dela. Jeremiah revirou os olhos, exausto. Odiava ir hospitais, principalmente aqueles em que seu sobrenome era reconhecido. — Eu estava junto com a família, senhor... — leu rapidamente seu nome bordado no jaleco — Senhor Boyle. Não consigo ver nada de errado feito por mim. — Você deixou Marie agitada e, por mais que ela vá ficar bem fisicamente, seu estado emocional não é um dos melhores. É anti-profissional da sua parte entrar dessa maneira. Com uma careta indignada e confusa, o detetive fitou o médico tentando entender qual o motivo de ter tanta inveja de seu pai a ponto de tentar irritar um filho dele. — Apenas avise a família que alguns oficiais ficarão em frente do quarto e alguns viaturas continuarão no estacionamento do hospital — avisou, mostrando-se nem um pouco feliz em estar naquela situação. Queria sair daquele hospital o mais rápido possível e começar a pensar no caso dos Levitans. — Escute, garotinho... — o médico apontou o dedo para seu rosto — Isso aqui não é uma delegacia que não se importa com os direitos humanos. Policiais perto do quarto podem acarretar a paciente... — ...uma morte trágica por um assassino que está a solta e matou toda a sua família sem estiverem longe. — Jeremiah o interrompeu claramente impaciente. — E exijo que o senhor me trate com mais respeito. Eu sou um policial e, caso não seja de seu conhecimento, sou autoridade aqui. Boyle abriu a boca em choque pelo que o detetive falara. — Não tenho nada a ver com o que você tem com meu sobrenome, então, não me trate desse jeito. Posso ser jovem, mas não sou i****a. Passar bem. Jeremiah virou-se depois de seu discurso pronto para dividir as equipes que ficariam no hospital, quando sentiu seu celular vibrar. Atendeu rapidamente assim que viu o nome de Stifler brilhando na tela. — Jeremiah, tenho notícias interessantes para você.
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