01 ENSAIO DE CASAMENTO

2557 Palavras
Passava das nove da manhã, Sarah estava aflita desejando que aquele ensaio infernal terminasse logo. Havia trabalhado a madrugada inteira no bufê da senhorita Rose Marrie, onde ficava a maior parte do tempo em pé servindo mesas. Por isso estava tão cansada. Apesar de todo o desgaste, valia muito a pena, pois assim ela conseguia ganhar um dinheiro extra para ajudar a pagar as contas. Naquele instante estava esgotada, exausta de tantos detalhes daquele ensaio interminável. Apenas havia aceitado aquele convite de madrinha por amar tanto sua grande amiga Maryene ou Mary, como gostava de chamá-la. Mas tanto requinte e etiqueta não tinham nada a ver com Sarah. Desde o início não conseguia se sair nada bem com a senhora Eva Beneth, que segundo Mary era a melhor cerimonialista da cidade. Sarah até se esforçava para fazer tudo certinho, mas tinha dificuldades, pois delicadeza, não era muito o seu forte, além de não estar acostumada com todas aquelas regras. E como as coisas não poderiam ser piores, notava uma certa implicância da parte de Eva, que nunca estava satisfeita com o seu desempenho e não se cansava de chamar sua atenção o tempo todo, demonstrando toda sua antipatia, como neste exato momento: — Postura Srta. Sarah! Postura! — falou com seu tom de voz autoritário que sempre usava. Sarah insistia em declarar que Eva simplesmente não lhe suportava, entretanto, Mary acreditava que fosse coisa da imaginação de sua amiga. Ela Precisou respirar fundo para ver se conseguia aliviar toda tensão que lhe consumia. Mas estava sendo impossível. Então abaixou a cabeça e bufou enquanto reclamava baixinho, para que a senhora Eva não lhe ouvisse ou diria: "Reclamar também não é nada delicado senhorita Sarah! " Era em momentos como esse, que Sarah agradecia por Antony não estar presente. Certamente ele iria se divertir às suas custas, por ela ser tão desajeitada, bem diferente das belas modelos refinadas a que ele estava acostumado. Aquela não era a primeira vez em que Sarah ficava plantada na igreja a espera de Antony, o "Perfeitinho". Era assim que ela preferia chamá-lo, com toda ironia possível, já que estava enfadada de ouvir todos ao seu redor lhe apresentando a infinita lista de qualidades que ele tinha, sobre o quanto ele era cavalheiro, educado e um bom rapaz. Quando na verdade ninguém a convenceria de que ele não passava de um metido que não foi capaz de comparecer a nenhum dos ensaios. Isso sim era indelicadeza! Ela não conteve seus pensamentos. Os dois haviam cursado o ensino médio juntos. Foram tempos terríveis do qual ela não gostava de se recordar. Agora ela conseguia respirar aliviada por não precisar mais dos óculos nem dos aparelhos que tanto a incomodavam naquele período. Se recordava de toda popularidade de Antony, e que estava sempre rodeado das moças mais lindas e dos rapazes mais conhecidos, eles formavam um grupinho invejável e ele era cercado e adorado por todos e todas, por ser o melhor do time de futebol da escola. Foi graças a Antony que a equipe ganhou vários prêmios. Sempre jogou muito bem, até que foi descoberto por um "olheiro", desses que procuram prodígios para investir em suas carreiras. Então o garoto jogador, se mudou com a família para o sul, pois havia sido contratado para jogar em um time Júnior profissional. Desde então, Sarah nunca mais o viu. Com o passar do tempo soube que ele entrou para um time profissional pouco conhecido. As poucas informações que ela tinha dele eram o que a mídia informava raramente, já que ele não era tão famoso assim. Apesar de que recentemente seu nome estava relacionado ao de uma atriz muito famosa, Lara Bitencur. Segundo as fofocas, eles estavam tendo um caso. Breno, o noivo, insistia que fossem apenas boatos, mas sendo ele o maior defensor de Antony, para Sara não tinha credibilidade alguma. Mary sempre insistia em dizer, que Sarah era mesmo implicante. Mas não se tratava disso. Apenas não gostava de pessoas que fingiam ser o que não eram. Detestava esse tipo de hipocrisia. Diziam tanto que Antony era uma pessoa humilde e simples, quando na verdade suas redes sociais diziam o contrário. Nelas ele ostentava uma vida de luxo e farras, apesar de que todos sabiam que o time nem pagava tão bem assim, mas era apenas o suficiente para sobreviver com sua mãe no sul. Pelo menos era o que os pais de Breno falavam. Mesmo assim todos ao seu redor não faziam outra coisa a não ser defendê-lo de qualquer acusação que Sarah fizesse contra ele, e isso era muito frustrante! Agora estava ali, de saco cheio de toda aquela formalidade, além de ter que aturar a chatice da senhora Eva que pegava em seu pé, Sarah ainda precisava encarar os olhares das amigas de Mary, as outras madrinhas. A maioria ela nem tinha muito contato, eram metidas, e tinham bastante ciúmes da amizade de Mary com Sarah. Algumas delas namoravam ou estavam em algum tipo de relacionamento, e como Sarah era a única solteira do g***o, teve que se conformar em se tornar acompanhante de Antony, afinal não havia mais nenhum outro padrinho solteiro e disponível, além do mais ele era o primo favorito de Breno, os dois tinham uma amizade grande, eram como irmãos. Cresceram juntos e Breno, o noivo fazia questão de tê-lo como padrinho de honra. Por isso Sarah precisou aceitar ser o seu par naquele altar. As outras madrinhas eram todas finas e elegantes. A família de Mary pertencia à elite social da cidade. Sarah era a mais simples de todas naquele momento. Ela não havia conseguido passar em casa para se trocar. Por isso se destacava com sua calça jeans, que lhe atrapalhava bastante nos movimentos, e seu AllStar predileto preto. As outras usavam roupas caras e provavelmente haviam passado horas no salão de beleza. Mary desfilava com seu maravilhoso Chanel, algo que provavelmente Sarah usaria apenas em eventos como "o casamento", mas que para Mary fazia parte do seu look comum no dia a dia. Muitas vezes se sentia desconfortável com todo o luxo de sua amiga, mas isso não tornava menor o carinho entre elas. Sarah precisava se concentrar para o dia da cerimônia, sabia que não seria nada fácil caminhar naqueles carpetes macios, ainda por cima de saltos. Qualquer passo errado seria fatal, poderia se desequilibrar e se estatelar pelo chão. O que seria um vexame completo. Somente aqueles pensamentos lhe faziam perder o fôlego. Temia tudo! De tropeçar, cair e até mesmo de vomitar por causa do nervosismo, afinal não estava acostumada a ter muita atenção voltada para si, normalmente ficava em pânico quando isso acontecia. Talvez fosse por causa dos traumas de adolescência causados pelos óculos e aparelhos, tempos terríveis aqueles. Ela tentou por alguns instantes afastar de seus temores e se concentrar naquele momento. O maldito ensaio! Após o ensaio de treino da entrada dos padrinhos, todos partiram para segunda etapa. A senhora Eva Beneth dava as instruções para que cada um se posicionasse em seu devido lugar no altar. Pela milésima vez ela destacou sobre as posições dos padrinhos: — Sempre o lado direito vai pertencer aos padrinhos do noivo. E lado esquerdo reservado aos da noiva! Por favor não confundam isso! — Eva disse, dando uma olhada nada discreta para Sarah, lhe deixando rubra de vergonha. Todos ali presentes a encaravam, e ela pôde ouvir alguns cochichos sob os olhares esnobes das amigas de Mary. Qualquer um sabia muito bem que toda aquela repreensão era para ela, pois no último ensaio havia se posicionado do lado ao contrário no altar. Não se sentia confortável com todas aquelas regras inúteis. Sempre fazia confusão. Mas também que diferença faria estar à direita ou esquerda? Pensou baixinho, completamente enfadonha de tudo aquilo, mas o fato era que sempre se atrapalhava sendo alvo daqueles olhares. Sua maior v*****e naquele momento era de sair correndo daquele lugar. Se afastar daquelas pessoas tão esnobes e metidas. Mas ficaria por sua amiga, que não merecia que ela fizesse o que desejava. Então decidiu que o melhor a se fazer, era ignorar todos eles. De nada adiantaria ficar reclamando, mas não via a hora daquele casamento acontecer logo e acabar mais rápido ainda. Além de gastar o que não tinha, ela não aguentava mais aqueles ensaios e, apesar de todos os seus esforços, não tinha o mesmo reconhecimento que Antony. Ele, no entanto, era aclamado, mesmo sem ter comparecido nenhuma vez os ensaios. Algumas das madrinhas se derretiam ao dizer o quanto Sarah era sortuda em tê-lo como um acompanhante. Mary acreditava que todas elas gostariam de estar em seu lugar. Afinal ele era famoso na cidade e dono de uma beleza incrível. Mesmo assim, não queria dar o braço a torcer, para ela, Antony sempre seria um metido, mesmo sem conhecê-lo. No passado se lembrava de não terem se falado muito na escola. Era bastante tímida e Antony sempre esteve rodeado pelas garotas mais lindas. As poucas vezes em que ele se aproximou, foram para comprar os deliciosos bolinhos que a mãe de Sarah fazia para vender, o que ajudava na renda da família. Antony sempre escolhia os de chocolate com nozes que eram seus prediletos. Ele comprava, pagava e se despedia sem dar tempo de iniciarem qualquer tipo de diálogo. Mas também não fazia diferença, pois sempre odiou pessoas como ele, que se achavam superiores e melhores que os outros. "Por mim podem ficar com ele inteirinho!" Sempre dizia a Mary. Se elas o quisessem estava disposta a entregá-lo de bandeja. Mary sempre ficava muito brava. Sarah até já havia tentado negar o convite de madrinha por várias vezes, mas a noiva era muito dramática e considerou essa hipótese totalmente inaceitável. Ainda que tentasse se justificar pela dificuldade financeira, e até mesmo pela relutância de aceitar Antony como parceiro, não foram o suficiente, e realmente ela era uma amiga e tanto, e fazia muita questão em ter Sarah ao seu lado no dia mais importante de sua vida. Então havia aceitado por Mary, por todo carinho que tinha por ela. Agora teria que se preparar para enfrentar tudo que estava acontecendo e o que viria a acontecer no sábado. Mas a verdade era que no exato momento ela precisava se concentrar naquele bendito ensaio do qual ela se sentia tão perdida e a pior parte ainda nem havia começado...Sua pior performance era na dança. Aquilo sim a deixava muito nervosa. Ela tentava insistentemente secar as mãos na parte de trás da calça, pois elas transpiravam de nervoso. Aquele era o momento do maior "espetáculo", ensaiar a valsa. Se tinha algo que Sarah não sabia fazer era dançar. Sua coordenação era pior ainda em ritmos, e na falta do "Senhor Perfeitinho" ela tinha que ensaiar com o avô de Mary. Charles, de pouco mais de 70 anos. Um senhor forte para sua idade e bastante simpático, porém muito assanhadinho. Ele passava horas fazendo piadinhas de sua fama de "pegador" da juventude e fazendo elogios desnecessários. Naquele momento ali, com o senhor Charles, depois de quase pisar nos pés dele pela milésima vez, ela quase caiu ao se desequilibrar após um rodopio. Felizmente ele lhe segurou firme impedindo a queda, mas suas mãos foram descendo quase passando por sua b***a. Ela sorri semicerrando os dentes, tentando ser simpática, enquanto afastava suas mãos dele que era muito ousado em alguns momentos e isso lhe irritava bastante. Mary nitidamente se divertia com um belo sorriso no rosto do outro lado do salão. Ela já havia lhe dito que se caso não aceitasse Antony como seu acompanhante, apenas lhe restaria seu avô como opção, ou seja, ela estava perdida. — Viu como poderia ser pior que ter Antony como parceiro? — Mary cochichou enquanto se encontravam em um dos passos na dança, sorrindo como quem estava adorando aquela situação. Breno apertava Mary contra o seu corpo fingindo repreendê-la pelo comentário irônico. — Mary, seu avô é uma boa opção. Dizem que ele faz o maior sucesso entre as vovozinhas do g***o de encontro nas quartas feiras! — Breno tentava conter o riso enquanto falava. Sarah apenas revirou os olhos insatisfeita com a brincadeira de seus amigos. Qualquer um sabia que realmente aceitar Antony como acompanhante seria sua melhor opção. Enfim senhora Eva anuncia o término do ensaio. Ela dispensa todos agradecendo pela dedicação, afinal este era o último encontro de preparação, pois o casamento seria no próximo sábado: — Pessoal, sábado será o grande dia em que nossos queridos Breno e Maryene enfim subirão ao altar. Então não se esqueçam do que viram durante os ensaios. Quero todos bem elegantes no dia! Eva Beneth era aplaudida e ovacionada por todos, afinal diziam que fosse a melhor cerimonialista. No entanto Sarah era a única que permanecia relutante. Quando os aplausos cessaram, ela continuou: — Muito obrigada a todos pela dedicação, alguns muito e outros pouco é claro! — ela dizia olhando Sarah por cima dos ombros. Em resposta ela revira os olhos mais uma vez, já estava cansada daquilo tudo. — O que essa mulher tem contra mim? — Sarah perguntou baixinho para Mary. Mas foi completamente ignorada por sua amiga, afinal ela sempre a viu como uma paranoica. Mary não notava nenhum problema no tratamento de Eva com sua amiga. E Sarah sabia muito bem que qualquer discussão seria em vão, afinal Eva, era a melhor organizadora de cerimônias e Mary não iria abrir mão. Sarah ainda precisava ajudar sua amiga com algumas coisas. Então precisou esperar, e enquanto Mary se despedia de todos, sempre com a devida atenção, Sarah aproveitava para conferir suas mensagens no seu aparelho iphone. Após alguns minutos Breno surgiu carregando suas bolsas como o homem educado e cavalheiro que era seguido de sua noiva. Os dois estavam radiantes de alegria, afinal o casamento estava chegando. — Acho melhor eu me conformar em ter Charles como parceiro, pois eu duvido que Antony apareça aqui neste sábado. E já vou avisando meu vestido é bem decotado! Não me responsabilizo por qualquer infarto que ele possa ter! Sarah dizia em um tom brincalhão. Na verdade, queria provocar seus amigos. Eles sabiam muito bem que aquele havia sido o último ensaio, e que Antony não poderia ter faltado. Ela acreditava que os dois não teriam argumentos para defendê-lo. — Ele vem sim! — Mary afirmou com bastante convicção. — Ele pediu desculpas mais uma vez, Sarah, por não vir hoje. Ele tinha um treino importante. — Breno tentou justificar. — Sim. Nem hoje e muito menos nos anteriores — ela disse sem conter seu sorriso sarcástico. O casal sabia que aquela era mais uma crise de ataques à Antony que estava se iniciando das muitas que ela já teve. Mary e Breno se entreolharam rindo. Eles já conheciam aquele filme. Iriam iniciar uma longa discussão da qual era impossível convencê-la de que seu primo não era esse mau caráter que ela tanto idealizava. Breno respirou fundo e disse: — Eu sei que você não gosta muito dele, mas Antony é um cara bacana, você vai ver. Antes de fechar a porta, Sarah os enfrenta com um sorriso sarcástico como resposta. Depois se vira para frente a fim de encerrar aquele assunto, antes que Breno começasse a listar as mil qualidades de Antony Sillve e toda sua garantia de compatibilidade.
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