02 LEMBRANÇAS

1867 Palavras
Sarah sempre ajudava Mary com os preparativos do casamento depois dos ensaios. Agora, faltando apenas alguns dias para a cerimônia acontecer, havia muita coisa a se fazer. Precisavam conferir a lista de convidados e a noiva ainda não tinha se decidido entre as rosas vermelhas e os lírios roxos. Enquanto terminavam de escolher os arranjos de mesa, a amiga percebeu que Sarah não estava nada bem. Ela parecia triste e distante. Mary sabia que ela passava por uma crise financeira muito grande, possuía dívidas com a faculdade de fisioterapia a qual era sua paixão. Faltava muito pouco para se formar, mas nos últimos meses havia se descontrolado financeiramente e não estava conseguindo quitar suas contas. Sarah sempre foi uma mulher independente, morava sozinha, pagava a própria faculdade, trabalhava em uma famosa clínica da cidade como estagiária. Mas todos sabiam que estavam demitindo vários funcionários por causa do momento econômico que o país está enfrentando. Havia rumores de que o nome de Sarah estava na lista dos próximos a serem dispensados. — O que está acontecendo? Você parece muito preocupada — Mary perguntou enquanto escolhiam as flores. Sarah ainda demorou um instante para responder: — Acho que vou precisar voltar a morar com meus pais — disse com voz de choro. Estava angustiada. — As coisas não vão nada bem não é, amiga? Mary deu um passo abraçando sua amiga. Se tinha algo que Sarah se orgulhava, era de sua independência. Voltar para casa de sua família significava para ela, o fracasso total de sua vida. — O senhor Claudio me avisou ontem que o meu aluguel vai aumentar. — Ah, pense positivo: pelo menos você tem para onde ir. Sarah, seus pais sonham com isso, que você volte a morar com eles. — Eu sei, mas eles também estão muito apertados, meu pai acabou de comprar um barco. Eles pretendem fazer uma viagem para comemorar as bodas de prata. Como Mary se tratava de uma romântica incurável, ela suspirou admirada com os planos dos pais de Sarah. — Que gracinha... Isso é tão, Romântico! — Pois é. Não é justo que eu atrapalhe os planos deles com minhas despesas. Você sabe como eles estão preocupados comigo, já até pensaram em vender o barco pra me ajudar. Mary eu não quero isso! — A voz de Sarah saiu em um tom de desespero. — Mas vai dar tudo certo, amiga. Você irá se formar logo e vai ser contratada pela melhor clínica do país. Em um desses coquetéis chiques dos quais os médicos participam, você irá conhecer um médico lindo e Rico. Vai se casar com ele, nós vamos viajar pelo mundo inteiro. Eu você, seu marido rico, Breno e a Sofia é claro. Sarah franziu a testa. — Sofia? — Perguntou desconfiada. Mary sorriu. — Sim, minha filha — dava uma pausa de propósito, queria assustar sua amiga. — Quando tivermos uma, é claro. Sarah cai na gargalhada, nitidamente aliviada. Mary sempre sabia uma forma de faze-la se sentir melhor. Aquelas ideias eram engraçadas e ela fazia tudo parecer tão fácil. — Ah é... E Se for um menino? — Sarah provocou. Mary respondeu rapidamente como se já estivesse na ponta de sua língua. — Breno Júnior! As duas fazem careta e começam a rir juntas. Concordavam que Breno Junior não era uma boa escolha. — Esta foi péssima, Breno Júnior —Sarah repetia franzindo a testa novamente e fazendo careta. — Verdade amiga, é h******l. Mas o que importa é que você será a madrinha de todos. Sarah fica espantada. — Todos? Quantos vocês pretendem ter? — Breno quer pelo menos um time de futebol! Mary era muito divertida. Sempre fazia graça de tudo. As duas se abraçam, num abraço longo. Mary sempre conseguia arrancar um sorriso nestes momentos difíceis, como somente uma grande amiga conseguiria fazer. A vida de Mary era estável. Seus pais eram empresários e donos da maior rede de enlatados do estado. Ela se formou em administração há dois anos e estava atuando na empresa dos seus pais. As duas se conheciam desde a infância na escola, elas estudaram juntas até concluírem o ensino médio. Mary e Breno também se conheceram do colegial, mas começaram a namorar sério mesmo na faculdade. Eles fizeram o mesmo curso, eram grandes amigos até que a coisa ficou bem séria entre eles. Sarah volta para seu pequeno apartamento. Já era tarde. Havia passado a manhã inteira com sua amiga. Agora sozinha em casa, ela resolveu colocar uma água para ferver. Sabia que um chá cairia bem para relaxar enquanto recolhia as correspondências por debaixo da porta. Seu semblante não era um dos melhores enquanto abria cada uma. O preço das contas de água, luz e gás, estavam muito altos. Ela se recorda realmente que o governo já havia anunciado o aumento das tarifas, mas ela não esperava que fosse tanto. Então se joga no sofá completamente aflita e preocupada. Não sabia o que faria da sua vida. Sempre foi independente e dona de si mesma. Há exatamente quatro anos, havia saído da casa de seus pais em meio aos prantos de sua mãe. Eles nunca se conformaram com sua saída, na verdade Sarah não precisava mesmo ter ido embora, sempre se relacionou bem com eles. Seus pais tinham boas condições de ajudá-la, apenas não poderiam lhe dar muitos luxos, mas com certeza não lhe faltaria nada. Porém, Sarah queria mais. Sentia uma necessidade de criar asas, ser livre e dona de sua própria vida, aliás sua mãe sempre dizia desde pequena: — Essa menina é livre demais, independente demais. Os olhos de Sarah se encheram de lágrimas ao se lembrar de sua mãe, e de seus cuidados excessivos. Ela lhe criou dentro de uma bolha, e ainda assim ela se tornou tão atrapalhada e estabanada. Para o desespero de Meire, ela se machucava sempre. Eis o motivo de possuir tantas cicatrizes espalhadas pelo corpo. Aquelas eram marcas de uma infância de muitas travessuras. As lágrimas desciam pelos olhos de Sarah, ela as enxugava com as pontas dos dedos. Se lembrava que no último sábado eles a visitaram em seu apartamento. Depois de uma minuciosa inspeção de Meire sob o olhar de repreensão de Tonny, seu pai. Meire exigiu que Sarah voltasse para casa, pois segundo ela, aquele apartamento era pequeno demais e nada aconchegante. Também reclamou da localidade, somente porque havia passado na tv uma notícia sobre um arrombamento a um apartamento próximo dali. Essa preocupação toda, eram coisa de mãe. Sarah apenas ignorava. Mas agora precisava decidir se continuaria com o aperto financeiro ou engolia seu orgulho e voltava pra casa de seus pais. Sabia que lá seria sempre bem recebida e seus eles ficariam muito contentes. Após respirar fundo, decidiu deixar a nostalgia de lado. Precisava de um bom banho, descansaria um pouco e mais tarde daria continuidade a seu trabalho de conclusão de curso da faculdade. Naquele dia ela não teria aula e, ainda que ela precisasse trancar seu curso, estava decidida em terminar sua pesquisa na qual estava se empenhando há vários meses. Estava recebendo vários elogios de seus professores e até mesmo na clínica em que estagiava. Graças ao seu trabalho, Sarah pôde colocar sua tese em prática sob autorização da coordenadora, tendo como gratificação a recuperação de vários pacientes provando que suas pesquisas eram eficazes. O assunto abordado era de grande interesse para medicina, possibilitando benefícios e contribuindo bastante para tratamento de lesões como estiramento, distensão, contusão e ruptura. *** Faltavam poucas horas para o início da cerimônia. Sarah acabava de chegar do cabeleireiro. Estava furiosa, pois havia marcado horário, mas o responsável pelo estabelecimento havia passado outra cliente em sua frente, uma mais frequentadora do ambiente que ela. Não pôde fazer nada, caso ela não esperasse estaria perdida, não conseguiria dar um jeito em seu cabelo tão rebelde sozinho. Ficar esperando horas tinha valido a pena, afinal seu cabelo havia ficado maravilhoso. Fizeram um penteado moderno todo jogado para o lado em uma longa cascata de cachos. Sua maquiagem era marcante, definindo bem seus grandes olhos verdes, não gostava muito de se maquiar, raramente passava um rímel ou um brilho labial, Mary sempre insistia para experimentar seus cosméticos e maquiagens, mas ela nunca se interessou. O seu vestido estava em cima do sofá, havia colocado lá para facilitar. Enfim ela respirou fundo. Seus nervos estavam a flor da pele. Faltavam poucos minutos para se encontrar com o homem que no passado havia lhe ignorado completamente, mas desta vez ela não queria ficar por baixo, estava decidida a impressionar Antony. Apesar de não possuir os atributos das lindas mulheres que o acompanhavam, pois Sarah na verdade era bem magra, sua vida era tão corrida que se alimentava muito m*l. Na verdade não tinha tempo e nem apetite. Antes de ir para o quarto ela se distrai em frente a uma fotografia na estante. Se tratava de uma imagem sua de quando ainda usava aqueles aparelhos horríveis. Sarah se aproximou, pegou o porta retrato e se recordou de uma cena da sua adolescência. Sarah tinha 16 anos. Estava observando os rapazes na quadra da escola que estavam treinando para um campeonato importante. Entre eles estava Antony, com seus cabelos escuros encharcados de suor. Ele fazia altos dribles deixando todos embasbacados com seu talento. Algumas garotas estavam na arquibancada, torcendo e se oferecendo com toda a sua libido adolescente. Os garotos estavam tão empolgados com as belas moças que não notaram a presença de Sarah. Mas talvez assim fosse melhor. Muitas das vezes ela queria mesmo era ser invisível, preferia continuar no anonimato. De repente uma pancada forte lhe atingiu. Sarah se desequilibrou e caiu no chão se tornando o centro das atenções. Antony chutou a bola lançando-a para fora e havia lhe acertado em cheio. Ela se levantou devagar completamente desconcertada com todos os olhares voltados para si. Percebeu que era o próprio Antony quem corria em sua direção. Parecia em câmera lenta. Seus cabelos balançavam na medida em que ele corria. Seus belos olhos verdes se destacavam em contraste com o sol. Ela se levantou rapidamente, recolheu seus óculos do chão afim de se recompor. Quando ele se aproximou, parecia simplesmente não a enxergar. Antony deu a volta, recolheu a bola e voltou ao campo. Um semblante de decepção se formou no rosto da jovem de cabelos cacheados e um par de olhos verdes. Sarah limpou sua roupa dando tapinhas afim de expulsar a poeira e colocou seus óculos de volta no rosto. Felizmente não o tinha quebrado. — b****a! Podia pelo menos ter pedido desculpa! — Sarah exclamou bufando. Por este motivo, ninguém lhe convenceria de que Antony Sillve não passava de um metido. Mas ela sabia muito bem que jamais a entenderiam, principalmente seus fãs como Mary, Breno e toda sua família. Até mesmo seus próprios pais o admiravam. No outro dia Tonny, seu pai, estava assistindo a um comentário esportivo na TV, quando o jornalista criticou Antony, seu pai logo reagiu e saiu em defesa do "Senhor perfeitinho". Sarah sabia que esta era uma batalha difícil de vencer. Por isso respirou fundo e foi para seu quarto, era melhor se aprontar, pois certamente se atrasaria mais ainda.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR