Kadu A noite era um manto pesado sobre o morro, mas a casa estava mais escura do que o costume: não havia homens na laje a trocar cigarros, nem o som baixo de rádios. Só a respiração dela preenchia os cantos do quarto onde eu me sentava, a distância curta demais para ser confortável e longa demais para ser apenas companhia. Eu vinha de uma semana que parecia exaustão condensada: tiroteios, reuniões, rompe-costuras de traições. O corpo doía; a cabeça, por incrível que pareça, doía mais. Deitei sem conseguir adormecer. A respiração dela — Anna — veio como um marcador. Olhei para as mãos, para as cicatrizes que o tempo me concedera. Há muito tempo, as minhas mãos foram armas por instinto e também por necessidade; hoje eu via nelas o que causaram. Pensei em quantas vidas eu havia triturado n

