📖 Capítulo 15 – O Julgamento

503 Palavras
Cassie estava no quarto, lendo um trecho antigo do diário da mãe, quando ouviu a batida seca na porta. — Sou eu — disse Hoseok, com a voz baixa, mas tensa. Ela abriu, e ele entrou. O olhar dele não era de raiva. Era de peso. De dúvida. De receio. Cassie sentiu o estômago revirar. — Aconteceu alguma coisa? Hoseok se aproximou devagar, tirando um papel dobrado do bolso. — Alguém me mandou isso. Ele entregou a folha a ela. Era uma impressão do boletim de ocorrência brasileiro. Cassie congelou. Lá estava tudo: o nome do pai. As acusações falsas de furto. O relato de que ela havia fugido sem enfrentar o processo judicial. O papel manchado pelo carimbo do ano em que a vida dela desmoronou. Ela não conseguiu segurar as lágrimas. — Cassie… — Hoseok começou, com cuidado. — Por que você nunca me contou? Ela apertou os olhos com força, como se isso pudesse conter a dor. — Porque era sujo demais. Eu queria que você me visse como eu sou agora. Não como eu fui forçada a ser. Hoseok se sentou ao lado dela no chão. — Então me mostra. Me deixa ver tudo. Doa o que doer. Cassie respirou fundo. E falou. --- A verdade — Eu tinha dezessete anos. Meu pai era alcoólatra. Quando minha mãe morreu, ele… mudou. Começou a me bater. Primeiro com gritos. Depois com tapas. Depois com cinto. — Teve uma noite… — a voz dela falhou — …em que ele me prendeu no quarto, sem comida. Quando consegui fugir, fui até a polícia. Mas ele já tinha feito a denúncia antes… me acusando de roubo. Hoseok arregalou os olhos. — Ele te acusou… de roubar a própria casa? — Disse que eu tinha levado o dinheiro da conta dele. O pouco que eu peguei… foi pra comprar uma passagem. Eu precisava fugir ou ele ia me m***r. — Não havia ninguém pra me defender. Nenhum parente. Nenhum advogado. Então eu fugi. Deixei tudo. Fui parar aqui com um nome limpo… mas uma alma suja de medo. Cassie encarou Hoseok, agora em silêncio. — Se quiser me odiar agora… tudo bem. Mas ele não disse nada. Apenas se aproximou. Envolveu-a nos braços. E a abraçou com força. — Eu nunca, nunca, vou te odiar por ter sobrevivido. Cassie desabou no peito dele. — Você é a mulher mais forte que eu já conheci — sussurrou ele. — E eu te amo por completo. Com todas as suas cicatrizes. --- Uma promessa Mais tarde, já deitados, de mãos entrelaçadas, Hoseok murmurou: — Vamos voltar ao Brasil. Um dia. Não pra fugir, mas pra fechar esse ciclo. Juntos. Cassie o encarou, surpresa. — Você faria isso? — Eu faria qualquer coisa que te trouxesse paz. — Além do horizonte, lembra? A gente vai encontrar o nosso. Ela sorriu em meio às lágrimas. Naquele momento, o passado já não era uma prisão. Era apenas uma estrada antiga… que os dois estavam prontos para deixar para trás.
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