A semana havia começado com promessas de paz.
Cassie estava mais entrosada com os amigos de Hoseok. Começava a se sentir parte de algo maior, mais acolhedor. As aulas fluíam, os pequenos momentos com Hoseok se tornavam cada vez mais íntimos — não apenas fisicamente, mas em alma, em partilha, em cumplicidade.
Ela ria mais.
Dormia melhor.
E pela primeira vez em anos… sonhava.
Mas nem todos os fantasmas aceitam ser enterrados.
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A carta
A manhã estava cinzenta. Uma fina garoa cobria os telhados de Seul. Cassie desceu para o café da manhã e encontrou a governanta com uma correspondência nas mãos.
— Tem algo para você, senhorita Cassie.
Ela estranhou. Ninguém sabia seu novo endereço, exceto a universidade e Hoseok.
Pegou o envelope e viu o nome dela rabiscado com pressa. O selo era internacional. Brasileiro.
O coração dela parou por um instante.
Remetente: Edson Hunter.
Seu pai.
Cassie subiu correndo as escadas, trancou a porta e rasgou o envelope com dedos trêmulos. A letra era desleixada, manchada em alguns pontos — talvez de lágrimas, talvez de álcool.
> “Cassie,
Não sei por onde começar. Não sei se você vai ler. Mas a casa está vazia desde que você foi embora. E a culpa me persegue como um cão raivoso.
Eu tô doente. E sozinho.
Se ainda tiver algum pingo de compaixão, escreva. Me diga que você tá viva.
Me diga que me perdoa.”
Cassie deixou a carta cair. As palavras giravam em sua cabeça. Raiva. Pena. Medo. Tudo misturado.
Alguém bateu na porta. Era Hoseok.
— Está tudo bem?
Ela demorou para responder. Depois de um longo silêncio:
— Entra.
Ele viu o envelope rasgado no chão, e o rosto pálido de Cassie. Ajoelhou-se, sério.
— O que aconteceu?
— Meu pai me escreveu. — Ela mostrou a carta com mãos geladas. — Ele sabe que estou viva. E me quer de volta.
Hoseok leu a carta em silêncio. Quando terminou, fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
— Você não vai voltar.
— Não sei o que fazer, Hoseok. Eu… ele é meu pai. Mas também é o homem que me quebrou.
Ele segurou o rosto dela com cuidado.
— Você não deve nada a ele. Nada.
— E se ele vier até aqui?
— Então eu vou proteger você. Com tudo que eu sou.
Ela desmoronou nos braços dele, o corpo tremendo. Era como se toda a dor do passado tivesse sido arrancada e exposta outra vez.
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À noite
Cassie ficou em silêncio o dia todo. Hoseok permaneceu por perto, respeitando o espaço dela, mas vigilante.
Naquela noite, quando todos na casa já dormiam, ela bateu na porta do quarto dele.
— Posso ficar aqui?
Hoseok puxou-a para dentro sem hesitar. Ela se aninhou nos braços dele como alguém que procura abrigo em meio a uma tempestade.
— Faz amor comigo, Hoseok — ela pediu, num sussurro. — Me mostra que eu tô viva. Que sou de verdade.
Ele não respondeu com palavras.
Seus beijos vieram lentos, carinhosos, como se quisessem reconstruir cada pedaço ferido dentro dela. As mãos dele não tocaram com pressa, mas com reverência. Como quem cura. Como quem ama.
Na penumbra do quarto, não houve apenas prazer — houve redenção.
Cada suspiro era um “eu estou aqui”.
Cada gemido, um “você merece ser amada”.
E quando seus corpos finalmente se uniram, foi como se o passado tivesse sido silenciado por um instante. Só existiam eles. Só existia aquele agora.
Cassie chorou. Não de dor. Mas de alívio.
Porque ali, naquele quarto, nos braços dele, ela finalmente se sentiu inteira.