No escuro

1955 Palavras
Caminhei por entre os corredores cheios com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa em direção ao refeitório. Eu não estava interessada em quem estava ao meu redor. Apenas frustrada com todas as circunstâncias que me obrigavam a estar ali. O mundo, de repente, ficava estranho demais para que pudesse ser compreendido. Uma enorme porta quase ao fim do corredor anunciava em cores opacas como as paredes: Refeitório. Quando entrei, o cheiro de frituras me dominou, e meu estômago se contorceu. Eu não sabia dizer se estava realmente com fome ou apenas nervosa. Apenas sabia dizer que aquele cheiro estava acabando comigo. O enorme balcão com os tanques de comida tomava conta de uma enorme parede aos fundos do refeitório, e mesas redondas se empilhavam de adolescentes por todos os cantos que eu olhasse. Folders falando de bandas locais e cartazes da diretoria cheios de avisos enfeitavam as paredes brancas, e enormes ventiladores pendiam do teto. Assim como fitas e serpentinas escapavam em direção ao chão. Os avisos e convites sobre a festa de Halowheen dominavam o espaço em si, criando uma espécie de ambiente próprio para uma festa à fantasia. Outras duas enormes portas de vidros estavam abertas no outro canto, dando para um bonito jardim e ventilando o local. Suspirei, concluindo que não estava a fim de por nada para dentro. Havia uma mesa vaga perto das portas de vidro, e me arrastei para lá, realmente ansiosa por acabar com tudo aquilo e poder voltar o quanto antes para casa. Cruzei os braços em cima da mesa de granito enquanto observava o movimento alegre ao meu redor. Como as pessoas podiam estar sempre tão... felizes? Havia algum motivo especial para tantos gritos e gargalhadas. Talvez houvesse algo circunstancial que não me deixava entender o alvoroço ao meu redor. Eu não sabia se desejava fazer parte de tudo aquilo. Apenas queria... Bem. Minhas dúvidas eram tantas que eu nem mesmo sabia o que queria. Fosse lá o que fosse, não tinha nada a ver com caminhar sorridente por aí com os fones do iPod balançando ao redor do pescoço e molho de tomate se derretendo e escorrendo pelas veiradas da boca. Como alguns meninos que eu observava agora. Quando me dei conta, duas bandejas caíram a minha frente, fazendo um som oco ao estalarem no tampo da mesa. Olhei para cima, a tempo de ver a mancha de rosa do suéter se misturando com o loiro do cabelo e possivelmente o creme da camiseta. Parecia uma coisa só, até discernir Mitchel e Helena. _Não vai comer nada? _sua voz ríspida me tirou de meus devaneios, e ensaiei um dar de ombros enquanto os dois se sentavam. _Estou sem fome. _Fala sério, Pegam. Se continuar desse jeito, até o fim do verão você vai estar convertida numa massa gelatinosa de couro e osso... _ela caiu na cadeira já abocanhando um sanduíche integral com alguma coisa pastosa no meio _Se você já está horrível assim, como não vai ficar? _Dá um tempo... _Mitchel riu dando uma visualizada em seu macarrão com molho de tomate na bandeja _E então, Perséphone, como está sendo seu primeiro dia? _Não tão m*l _menti, sentindo a vontade de sorrir e retribuir a gentileza se espalhando por mim, por que, de uma forma ou de outra, Mitchel era o único até agora que estava realmente sendo simpático comigo. Algo nele me fazia sentir... aceita. Mesmo que meu mundo parecesse me rejeitar. Era uma sensação familiar. Reconfortante. Embora esquisita. _Isso é bom _ele assentiu se concentrando em seu lanche _Ouvi dizer que vocês estão preparando uma peça de teatro para o Halowheen. É verdade mesmo? _É _balancei a cabeça _Eles estão... Ele levantou seus olhos para mim. _Eles? _Não estou dentro _dei de ombros, me lembrando da cena desagradável da aula de Literatura _De um jeito ou de outro, eu nem gosto muito de Bruxas mesmo... Helena se engasgou com o sanduíche. Mitchel lhe passou um copo branco de suco, e ela se apressou em tomar o líquido com urgência. Franzi o cenho, enquanto ela balançava a cabeça fazendo biquinho. _Você é tão i****a às vezes... Torci os tornozelos por baixo da mesa, suspirando desanimada _Eu sei. _Cara, fala sério! Isso está uma droga. Será que isso pode ficar ainda pior? Oh sim, é claro que pode. _uma voz feminina e muito familiar soou a cima de minha cabeça, me fazendo recear não ter ido direto para o banheiro me trancafiar ao invés de escolher uma mesa. _É a coisa mais sem gosto que eu já comi. É o mesmo que panquecas sem mel, dá para acreditar? Esse é o primeiro molho sem tempero que eu como. A ruiva se sentou mastigando ao lado de Mitchel, com uma bandeja cheia de macarronada e algumas batatas fritas por cima. Seu cardigã escuro combinava com as galochas da mesma cor, e os cabelos estavam amarrados num coque apertado, como se puxassem cada fiapo de sua pele para trás, dando-lhe um aspecto estranho. Ela também era bonita. Quase tanto quanto Helena, se possível fosse. _Ei, Mona, não diga isso _Mitchel protestou _Está ótimo, mas você não gosta de nada, como sempre. Que tal uma exceção para hoje? Ela mostrou a língua para ele. _E que tal um belo chute nesse seu traseiro? _Vocês dois, já chega _Helena ordenou apontando para ambos _Encham a boca de comida e parem de discutir. Ela era tão autoritária, que novamente a invejei. Mona voltou seus olhos para mim, como se tivesse me reparado na mesa _e no Planeta Terra _pela primeira vez. Ele jogou algumas batatas na boca e suspirou. _Sinto muito sobre ontem, Perséphone _ela me surpreendeu, dizendo, ainda que seu tom não fosse inteiramente simpático ou até mesmo gentil _Eu só... bem, eu confundi você com outra pessoa, ok? Ela evitou me olhar, e uma voz fraca no fundo de minha mente me palpitou que ela não estava sendo completamente sincera. _Tudo bem... _murmurei, aceitando jogar seu jogo. Helena olhou de Mona para Mitchel, e de Mitchel para mim. Ele também estava pensativo, sobretudo quando Mona começou a olhar dele para Helena. Havia algo de estranho naquela mesa. Uma tensão se formando... como um elástico que havia sido alargado demais. E não havia como saber o que aconteceria quando ele fosse solto. Sem mais, Mitchel olhou para cima por sobre o meu ombro, abrindo um sorriso e apaziguando o clima da mesa. _Ei, mano! Ele levantou a mão direita e ensaiou um cumprimento com um novo garoto extremamente alto que havia chegado e se prostrado em pé ao lado dele. Demorei um pouco a perceber que era o garoto dos olhos prateados chamado Steyce. Por mais que as feições de seu rosto fossem finas, porém fatais, seu corpo mostrava sua força, dentro de um jeans cós baixo e um cinto de couro incomum. Me ajeitei em meu assento. Eu realmente não queria estar ali... _Onde estava? Chegou meio tarde... _Tive que ir conferir algumas coisas na biblioteca antes... _ele deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos do jeans escuro _Para a aula de Literatura. _Oh, certo. A Peça... _Mitchel balançou a cabeça, apontando para o assento vago ao meu lado _Se sente com a gente, cara... Olhei para cima, tarde demais para me arrepender depois. Os olhos prateados de Steyce flutuaram até mim, me encarando de repente, e ele comprimiu as sobrancelhas, erguendo o queixo reto. Os cabelos desgrenhados se moveram com ele. Seu tom de desprezo foi fundo em meu peito, e sua careta de nojo me acertou como um tapa na cara. _Não, obrigado. _ele desviou os olhos de mim, como se eu fosse menos importante que uma bactéria _Ainda tenho umas coisas para fazer antes de voltar à aula... Quando ele se afastou em passos firmes, meu rosto ainda estava pegando fogo, e uma coisa densa queimava dentro de mim. Por que ele tinha que ser tão rude? O que eu havia feito para ele afinal de contas? Suspirei, lutando contra as lágrimas que ainda estavam guardadas para momentos como esse em meus olhos. Ultimamente, elas estavam vazando sem aviso prévio muito frequentemente por acontecimentos mínimos. Todos na mesa haviam notado. Não havia como negar. _An... _Mona gaguejou remexendo seu macarrão, tão sem graça quanto Mitchel _E então? Vai vir à festa de Halowheen? _ela perguntou se dirigindo a mim. Mesmo a contra vontade, eu ainda mirava Steyce sumindo em meio às outras pessoas do refeitório _É bem provável que não... _Acredite em mim, você na vai querer ficar em casa, Pegam _Helena disse em meio as suas mastigadas graciosas, gesticulando com a mão esquerda _Stela faz uns biscoitos horríveis e vai fazer você ficar prostrada à noite toda na entrada da casa para distribuí-los. Sem contar uma fantasia ridícula que ela fará você usar, e todas estas coisas... _A mesma que ela fez você usar o Halowheen passado? _Mitchel brincou gargalhando, e Helena lhe atirou migalhas de pão proferindo palavrões brincalhões. Mas eu já não estava mais conseguindo ouvir mais nada do que eles estavam falando. Uma nuvem cinzenta pareceu tomar conta de meus tímpanos, esfumaçando minha mente e me desconcentrando do mundo real. Olhei ao meu redor, distraída demais para poder pensar em qualquer outra coisa. Alguma coisa me puxava para fora da mesa. Um desconforto enorme se instalou em meu estômago, me fazendo achar que, se não saísse dali, acabaria vomitando. Torci meus dedos das mãos, abalada por aquela sensação esquisita. Será mesmo que ela tinha que me lembrar o tempo todo que eu era uma aberração bizarra? Levantei sobressaltada, tentada a correr para qualquer lugar ridículo e me esconder do mundo. _Preciso ir ao banheiro _avisei já me afastando e não esperando ouvir alguma resposta a meu comentário. Cambaleei por entre os adolescentes cheios de energia que se empanturravam com todo o tipo possível de calorias extremamente prejudiciais a saúde, e gritavam ao invés de falar. Um atributo humano que eu jamais entenderia: se a pessoa estava do seu lado, era mesmo necessário gritar tão alto assim? Varrendo as paredes com olhos, detectei as portas brancas intituladas WC em letras azuis, mas não senti a mínima vontade de ir até lá agora. Tropecei sobre os próprios pés. Droga. Eu estava no meio do refeitório! Não podia simplesmente ficar ali parada, como uma i****a. Continuei caminhando, em direção ao balcão de comida. Eu ainda não sabia o que fazer, nem como me livrar daquela sensação sufocante. Me dirigi a uma travessa de maças, mas não sabia o que fazer quando parei em frente delas. _Ei, você é a aluna nova? Me virei. Havia uma garota a minha direita, segurando um copo de purê de batatas. Parecia ter a mesma idade que a minha, e seus espessos cabelos castanhos contornavam o rosto pequeno. Assenti com a cabeça e ela sorriu. _Oh, ok. Sou da sua turma sabia? Pode me chamar de Grei. _Ah, claro... _assenti mais uma vez, me sentindo uma excpert em comunicação. Meu vocabulário não estava muito extenso ultimamente. Ela se encolheu, curvando as sobrancelhas. _Sabe... não ligue para o Steyce... _ela deu de ombros, chegando mais perto e cochichando em tom de confidência perto de meu rosto _Ele pode parecer um deus Grego ou sei lá... mas é meio desagradável ás vezes..Você sabe, existe toda a regra sobre garotos bonitos. Todos eles são imbecis. _Eu... não liguei _menti, dando uma rápida olhada na travessa de maças, como uma via de escape. _Bem, isso é bom _ela sorriu mais uma vez _Então você é mesmo amiga deles? _ela apontou a cabeça para a outra direção. Segui seu olhar e compreendi a pergunta quando observei Mona, Mitchel e Mona assentados como um bando enigmático na mesa que eu havia deixado.
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