Eu acordei, melhor, despertei. Ainda deitado na cama percebi que a Hinata dormia com a cabeça em meu peito, eu travei na mesma hora e depois relaxei quando percebi que não tive pesadelos, nem pressa em ficar acordado, meu corpo estava totalmente relaxado e a vontade em estar ali. Olhei pra ela que dormia tranquilamente, seu cabelo estava bagunçado e eu achei que ela ficou ainda mais bonita assim. Mesmo deitado eu passei o olho pelo quarto, as paredes são brancas o guarda-roupas é de portas de espelho, tinha uma foto dela e de quem eu acredito ser o Neji no criado mudo, ele era igual a ela, só que bem mais alto, mas tinham os mesmos olhos, no outro tinha uma com ela, uma menina que também era igual a ela e um senhor, já com cabelos brancos, mas igual ao Neji, eles têm uma presença muito grande. Eu estava tão concentrado olhando as coisas que não percebi quando ela acordou, e levei um susto quando percebi que ela me olhava. Hinata começou a rir.
-Você não deveria se assustar com tanta facilidade.
-Isso não é engraçado.
-O que?- Ela se sentou- Claro que é- ela olhou bem pra mim- Você está vermelho- e voltou a gargalhar- É hilário.
Eu me sentei também, ainda escutando as risadas da Hyuuga.
-Ta bom- ela suspirou depois de tanto rir- Só é engraçado que você leve um susto desses- eu virei o rosto para olhar para ela.
-Porque?
-Porque você parece não ter medo de nada- eu não respondi, mas eu tenho medo de uma única coisa, da morte- Bom, vamos tomar café?
-Você não vai trabalhar?
-Hoje é sábado- ela deu um sorrisinho- eu também não sou uma escrava, tenho os direitos trabalhistas a meu favor- ela disse rindo e se colocando de pé- Vou tomar um banho e preparar o café.
Eu me levantei e fiquei sem saber para onde ir ou o que fazer então fui até a mini varanda do ap, nós estamos numa parte da cidade que fica bem de frente para a praia, o dia está bem nublado, mas eu não me lembro de ficar deitado enrolado numa coberta bebendo alguma bebida quente, eu só me lembro de bombas, tiros e todo o horror da guerra. Balancei a cabeça afastando esses pensamentos da minha mente e quando me virei dei de cara com a Hinata me olhando.
-Meu Deus, porque você faz isso?- Eu perguntei.
-Isso o que?
-Encarar as pessoas em silêncio.
-É que você tem alguma coisa, não sei dizer, acho que é a sua postura- eu não falei nada- Bom, você pode tomar um banho se quiser- ela me estendeu a toalha.
E assim eu fiz, tomei um banho rápido e coloquei a mesma roupa que estava antes. Quando cheguei na cozinha ela estava preparando ovos mexidos, eu resolvi fazer com ela o mesmo, mas não funcionou, porque ela começou a rir e disse.
-Eu sei que você está aí.
-Não tem graça fazer isso com você.
-Oh meu Deus que fofo- ela veio até mim e apertou as minhas bochechas.
Eu a ajudei a terminar o café e comemos enquanto conversávamos, era tão fácil e o assunto saída de uma forma tão descomplicada que foi simples ficar horas com ela ali, quando nos levantamos para lavar os pratos já era quase a hora do almoço.
Eu fui embora logo depois, fui caminhando para casa bem devagar. Não gosto muito daquele lugar desde que meu pai morreu, parece que eu sou um intruso, ainda mais agora. Abri o portão com a chave e fui caminhando tranquilamente, a sala estava vazia então eu fui para o meu quarto me trocar, coloquei um short jeans e uma camiseta branca e assim que desci as escadas dei de cara com a minha mãe.
-Agora resolveu aparecer?
-O que?
-Onde estava Naruto?
-E porque isso te interessa?
-Porque eu sou sua mãe- ela disse com as mãos na cintura, eu fiquei em silêncio- Responde, onde você estava?
Eu neguei com a cabeça e virei as costas.
-Você não vire as costas pra mim.
-Porque está fazendo isso?
-Isso o que?
-Fingindo ser a minha mãe, você não é. Deixou de ser quando resolveu parar de falar comigo por querer seguir o caminho do meu pai.
-Você não tem o direito de falar assim comigo.
-Eu tenho, eu tenho sim.
-Você não sabe de nada e anda por aí como se fosse o ser supremo, cheio de pose. O seu pai não era assim.
-Tem razão ele não era, mas eu sou.
-Você não vai falar assim comigo.
-Não vou é? Porque você tem raiva de mim?- eu cheguei mais perto dela e ela deu um passo para trás- FALA!
-Eu não tenho raiva de você.
-Tem sim, e eu quero saber o porquê.
-Eu já falei que não tenho.
-Já que é assim que você quer- eu ia sair, mas ela gritou.
-PORQUE VOCÊ É IGUAL A ELE!- Logo depois veio o choro.
Lágrimas corriam pelo meu rosto, eu continuei parado, estático, meu corpo não atendia aos meus comandos e fiquei ali parado até ela voltar a falar.
-Você é igual e toda vez que olho pra você é como se o Minato estivesse aqui e cada vez que isso acontece um pedaço de mim se vai. Eu amava muito o seu pai Naruto, amava de mais e quando ele se foi eu me agarrei a você porque era a única coisa que ele tinha me deixado. Eu não consigo olhar pra você e não ver a feição séria do Minato quando lia algum relatório, ou de quando ele ria para qualquer coisa que vocês falassem ou de qualquer coisa que eu falasse. Eu só vejo ele em você e tem momentos que eu não sei se isso é bom ou r**m.
Ela ficou em silêncio, mas eu não conseguia dizer nada, então fiquei parado, ainda de costas para ela sem saber o que fazer, ficamos assim por um tempo, até Karin chegar e presenciar esse climão.
-Aconteceu alguma coisa?
-Está tudo bem filha- escutei as duas se abraçando.
Kushina saiu da sala, assim que passou por mim passou a mão pelas minhas costas e pelo meu pescoço. Deu dois tapinhas e partiu para o lado de fora. Eu ainda estava parado e absorvendo tudo o que ela me disse.
-Naruto- eu não respondi e ela ficou de frente para mim- Você está bem?
E foi só aí que eu percebi que estava chorando, passei as mãos correndo pelo rosto e olhei para a minha irmã, ela só me abraçou e eu retribui, chorando ainda mais.
-Vai ficar tudo bem- ela fazia carinho na minha cabeça- Vai ficar tudo bem.
Karin era uma mulher alta, tem o mesmo tamanho que a minha mãe, depois que meu pai morreu ela passou muitas noites dormindo comigo e acalmando as minhas crises de choro, e agora parece que eu voltei alguns anos no tempo. Depois de um alguns minutos ali ela me soltou e eu voltei para o meu quarto, não saí mais, nem peguei celular, acabei dormindo.
Acordei no meio da noite com pesadelos, me sentei na cama e me lembrei de ontem quando dormi abraçado na Hyuuga, eu não pensei em nada que pudesse me assombrar, dormi como um anjo, acho que é o cheiro dela, é reconfortante. Tentei voltar a dormir, mas foi impossível.
Segunda feira chegou e as 5h já estava de pé, desci até a academia e fiz o meu treino, ele dura em média 1h30 ou 2h, saí de lá quase 7h da manhã, fui correndo tomar um banho, mas não contava com a pequena Hyuuga no meio da sala, eu trombei com ela e fomos ao chão, consegui virá-la a tempo e ela caiu por cima de mim.
-Oi- ela disse sorrindo.
-Oi.
-Essa foi uma excelente forma de dizer bom dia- eu sorri- Você deveria sorrir mais.
-Porque?
-Seu sorriso é lindo.
Eu não consegui responder, escutamos alguém tossindo atrás de nós e só aí eu percebi que estava segurando a Hinata pela cintura, a soltei e a ajudei a levantar, me colocando de pé logo em seguida.
-Bom dia Hinata- Kushina disse, ela estava sorrindo- Bom dia meu filho.
-Bom dia- nós dissemos juntos.
-Vamos Hina, temos muitas coisas a fazer.
Assim que a Hinata entrou para o escritório da minha mãe eu subi para o meu quarto, tomei um banho relaxante e coloquei uma cueca, me joguei na cama, parece que eu não dormi nada. Estava jogado quando Karin entrou no quarto.
-Naruto…
-Oi- eu estava com um braço por cima do meu rosto.
-Quero conversar com você.
-Já estamos conversando Karin.
-Olha pra mim- ela estava calma, o que pra mim era novidade, mas mesmo assim continuei tampando o meu rosto, conseguia sentir meus olhos queimando e meu corpo tensionado, ela suspirou- Eu sei o quanto a morte do nosso pai de machucou e de uma forma inexplicável mais do que a qualquer um da casa, sei que foi para o exército para se sentir mais perto dele, por isso não disse nada quando anos atrás você anunciou que seguiria carreira, mas você não pode abandonar a mamãe, não pode nos abandonar e principalmente, não pode abandonar a você mesmo, eu vi, desde que voltou, você não é mais o mesmo, sei que onde você estava tinham muitas tragédias, mas esse não é você, você Naruto é alegre, feliz, seu sorriso contagiava todos, mesmo quando estava triste fazia de tudo para ver sempre o lado bom das coisas, eu lembro quando você nasceu, me lembro do papai babando por você dia e noite, lembro quando você ficava esperando por ele no chão da sala, lembro da sua gargalhada quando nós brincávamos com ele, mas a nossa vida não para, não pode parar, o papai é uma parte muito importante de nossas vidas e um dia quando estava triste ele me disse- ela suspirou mais uma vez “Lembre-se que a vida não é triste, mesmo que exista momentos em que só é possível chorar”. O papai não ia gostar de te ver assim, nem você nem a mamãe.
Eu já sentia todo o meu rosto molhado pelas lágrimas, Karin se deitou e me abraçou forte, eu me virei e ela me cobriu, Karin sempre foi meu porto seguro, ela sempre foi muito madura e foi a minha irmã que me ajudou em todas as minhas dificuldades.
Chorei até pegar no sono. Acordei com as mãozinhas da Naomi me fazendo carinho, abri um dos olhos, ela estava com o rosto bem na frente do meu, passando a mão pelo meu rosto, quando viu que eu acordei ela sorriu.
-Vamos brincar titio, ninguém quer me levar ao parquinho.
-E você resolveu me acordar pra te levar- ela deu um sorriso radiante.
-Você é o mais legal da casa- eu sorri.
-Ta bom, vai avisar a sua mãe, eu vou me trocar.
***
É incrível como a Hinata fica bonita iluminada pela luz do sol, quando estava saindo com a Naomi ela se ofereceu para ir conosco, ela está sentada ao meu lado olhando para a pequena que brinca com outras crianças e eu não consigo tirar aos meus olhos dela, não sei porque, mas de alguma forma eu me sinto em paz ao lado dela, mesmo com o meu coração batendo forte.
-O que foi?- ela disse.
-O que?- ela olhou para mim.
-Você está me encarando- eu fiquei envergonhado e ela sorriu- Não precisa ficar com vergonha, eu gosto.
-Que os outros de olhem?
-Que você me olhe- ela disse e voltou a olhar Naomi- Tenho a sensação de estar sendo observada pelo mar, e eu gosto muito da sensação.
-Eu não sei como me portar do seu lado- admiti.
-Acredite, eu também fico nervosa.
-Não parece.
-E você não parece com o Naruto que todos me descreveram.
-Como assim?
-Perguntei de você para todo mundo e devo admitir, fiquei com um pouco de inveja de ver o quanto todo mundo admira você- fiquei sem responder- Nagato fala de você com os olhos brilhando, você é literalmente o herói dele, Karin fala de você com muito cuidado na voz, ela quer sempre te proteger, isso dá pra ver de longe, e os nossos amigos então, falam de você com sorrisos enormes, lembram dos dias que passaram juntos com uma saudade tremenda e são poucas pessoas que conseguem deixar marcas assim nos outros, meu pai costumava dizer que as pessoas passam pela nossa vida, umas ficam anos, outras mêses, algumas até dias, mas existem aquelas que quando passam por você te marca, e essa marca fica fincada em nossos corações, como se um fio nos ligasse, essas pessoas são para levar para a vida toda, não importa o quão distante elas estejam.
Ela me olhava nos olhos e eu não conseguia desviar dos dela, meu corpo de levava para frente, já conseguia sentir a respiração dela no meu rosto, eu só conseguia olhar para a boca dela.
-Eu quero um sorvete Tio.
-Naomi...