Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Capítulo 1
A fazenda Recanto das rosas, sempre foi uma referência, quando se falavam no cultivo de flores, desde a época da escravidão, até os anos dois mil, quando tudo começou a desandar.
A família Massaro que veio da Itália a décadas, sempre foi bastante elitista e preconceituosa, pelo menos alguns integrantes, eles tinham certos modos de viver e costumes, que desde o passado, eram muito inapropriados, isso foi passando de geração em geração.
Depois de um rompimento na família e uma briga entre irmãos, por herança, tudo foi incendiado, todas as plantações morreram, com pragas ou vandalismos, assim os deixando a beira da falência.
Francesco era o patriarca do pedaço dele, e nunca mais, falou com o irmão Giuseppe ou qualquer descendente, que nasceu do outro lado da cerca, com o passar dos anos, os filhos de Francesco e Egilda, foram se afastando das raízes, indo morar na cidade grande e os deixaram na fazenda.
Egilda era uma mulher de temperamento muito difícil, mesmo sem ter tantas condições financeiras, como na juventude, se mantinha como alguém que estava sempre, a cima de todos ao redor.
Sua vida foi sofrida, com um marido agressivo, que a traia muito, especialmente com as empregadas, que sofriam mais ainda, nas mãos dela, eram impedidas de sair da fazenda, até de casar, estudar, verdadeiras escravas e isso, lá pelos anos dois mil até atualmente.
Como as condições só pioraram, as últimas a trabalharem lá, foram mulheres da mesma família, teve até uma que fugiu de lá com um peão, diziam que ela era filha do patrão, algo que ninguém provou.
Já com os filhos adultos e sempre distantes, Egilda teve uma "funcionária" que era muito humilde, sem estudos, uma moça que apareceu lá, para trabalhar no pomar, e acabou ficando para servi-la e limpar a casa, em poucos meses morando lá, tentou esconder a gravidez o máximo possível, mas foi descoberta, ao dar a luz a uma menina.
Quando Egilda viu que era uma menina, gostou da idéia de a criar, para lhe servir, e seu marido já de idade avançada, não aguentava nem o próprio corpo direito, então na cabeça dela, não seria traída e nem teria que lavar um copo ou as próprias calçolas, e isso, sem pagar nem um salário.
A mãe de Cayenne, trabalhava muito e em troca, tinha um teto e comida, também um lar para sua filha, que crescia achando tudo de r**m, normal.
Cayenne foi o nome que Francesco escolheu para a menina, era um tipo de rosa, que mais cultivavam lá, no passado.
Poucas vezes no ano, Francesco e Egilda, iam visitar os filhos, que a mais de dez anos, não pisavam na fazenda, todos eles odiavam lá, na verdade. E nunca nem souberam da existência de uma menina, crescendo lá.
Quando Cayenne tinha seis anos, sua mãe quis mandá-la para a escola, mas Egilda insistiu em não deixar, dizendo que a polícia, ia tomar a menina dela, sempre inventava histórias para coagir e conseguia sem dificuldades.
Ninguém nem sabia, da existência da menina, ela foi proibida de brincar livremente, porque as vezes, passavam pessoas por lá, trabalhadores, vizinhos, então todos os dias, Cayenne ficava fechada em um quartinho, quando anoitecia, ela podia sair e era ensinada a fazer muitas tarefas, limpando a casa.
Quando ela tinha dez anos, sua mãe adoeceu, sangrou muito com hemorragia e foi para o hospital inconsciente, nunca mais voltou e quando Cayenne soube, que tinha perdido a mãe, logo foi alertada, de que cuidar da casa, era obrigação dela, ou não teria a onde morar e seria presa, torturada por policiais.
Os anos se passaram e nada mudou, a não ser o desabrochar de Cayenne, que era muito bonita, esforçada e obediente, por sorte bastante saudável, ela nunca adoecia e nem foi para lugar algum, nem a escola, médicos ou simplesmente passear, ela não conhecia o mundo real, fora daquelas cercas e muros.
Ela sabia falar muito bem, corretamente, porque era corrigida sempre, mais ler e escrever, não sabia, e claro, Egilda fazia isso, de propósito, para mantê-la com rédeas curtas, sempre incomunicável, bastante inocente e boba.
Quando Francesco caiu de cama, uma enfermeira foi contratada, Cayenne teve que mudar a rotina, ela passava o dia todo presa, trancada em um quartinho nos fundos, desenhando e dormindo, e a noite, tinha que limpar a casa, lavar roupas, cozinhar, quando o sol sumia, era a melhor hora do dia, ela podia ouvir músicas, dos discos de vinil, e ocupar sua cabeça, mesmo tão limitada. Andava pelo escuro sem medo de nada.
Todos os dias eram exatamente iguais, ela ia ao galinheiro, no pomar, andava pela fazenda como um fantasma, quando o sol nascia, a mesa do café estava sempre pronta, Egilda a acompanhava e colocava um cadeado na porta.
Cayenne nunca nem pensou em fugir ou desobedecer, as únicas coisas que ela fazia de errado, era espiar o quintal, por uma fresta na madeira da janela quando chegavam visitas e as vezes ir até uma cachoeira, que ficava na propriedade mesmo.
Quando Francesco foi internado a beira da morte, Egilda deixou instruções bem claras, de que Cayenne não poderia nunca, fazer qualquer barulho, porque os familiares iriam vir e ninguém podia saber que ela morava lá.
A chave do cadeado, ficava no pescoço de Egilda, todo o tempo. Na janela foi colocado por Cayenne mesma, seguindo ordens, uma ripa de madeira, para impedir que abrissem.
Depois que Francesco morreu, seus filhos e netos vieram passar dois dias, com a intenção de venderem tudo e dividirem, mas Egilda não aceitou, nem quis ir ficar com eles na cidade.
Deixou Cayenne trancada por dois dias, fazendo as necessidades em um balde, comendo com economia, pães, frutas e tomando água, foi quase impossível dormir durante aqueles dias, ela queria ver as visitas, ficou ouvindo muitas conversas atrás da porta, a maioria nem fazia sentido (pelo menos para ela) e os nomes, nem todos ela já tinha ouvido falar.
Além disso, Cayenne estava muito triste, porque tinha um amor fraternal por Francesco, e nem pode se despedir, todos já pareciam ter ido dormir, ela estava chorando baixinho, deitada na rede, que era sua cama, levou um susto com a janela se mexendo, ouviu uma voz masculina jovial
"Devem ter armas aqui, tenho direito de ficar com elas"
"Me ajuda abrir, vai logo mano"