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2126 Palavras
Ema Passava do meio dia quando acordei. O garotão estava esparramado no sofá que é bem menor que ele, o que posso fazer? O irmão dele parece um alce. O Daniel está dormindo em minha cama. Eu não achei certo deixá-lo ir à procura de um hotel tão tarde da noite. Entrei de mansinho no quarto para pegar uma roupa e percebo que está vazio, só tem um bilhete em cima da cama bagunçada. '' A partir de segunda, esteja às sete horas no escritório '' D. S. Nossa, só chegue às sete? Nenhum obrigado, mas, fazer o quê? O tio Dênis não avisou o indivíduo que não serei a secretária dele? Falando no chefinho, preciso falar com ele sobre minha transferência. O único problema é que vou ficar longe da minha mãe e das minhas amigas piradas. Preparo o café e desço para comprar pão e queijo na panificadora da esquina. Quando estava voltando, um senhor passou com um carro de mão, vendendo variadas frutas, como estou com preguiça de ir à feira, comprei algumas para passar a semana. Danilo já estava acordado quando cheguei. Ele estava devorando a última bandeja de comida congelada que restava na geladeira. Vou ter que ir ao supermercado retocar minha comida congelada. — Onde conseguiu pão e frutas à essa hora? — o garotão pergunta de boca cheia. Vou para a minúscula cozinha, — A panificadora fica aberta até às 14 hs, ao menos a da esquina e um senhor muito gentil passou vendendo frutas. Vai querer queijo quente? — pergunto com o pão na mão. — Não, essa gororoba me deixou empachado. — Vejo-o passando a mão sobre a barriga dando um arroto. —, desculpa. Coloco o queijo no pão e depois ponho na sanduicheira, enquanto coloco o café na xícara. O pão está pronto. Enquanto tomo meu café do almoço por que a manhã já foi à muito, observo o garotão só de cueca largadão no sofá. — O que está assistindo? — pergunto depois de tomar um gole da bebida quente. — O quarteto fantástico na temperatura máxima. — responde sem tirar os olhos da TV. — Crianção. — brinco, ele não liga. — Bobeia pra ver se eu não te mostro o crianção. — resmunga. Faço uma careta. — Engraçadinho. — falo ao colocar mais um pedaço de sanduíche na boca. Neste exato momento os dois celulares começam a tocar. — É a minha mãe. — Danilo avisa ao atender — É o seu pai. — falo ao atender. — Boa tarde, chefinho? — digo com um sorriso no rosto. — Boa tarde, filha! Pode trazer esse irresponsável pra casa? — pede. — Posso sim. Vou colocá-lo num táxi. — Não querida, quero que você venha junto com ele. Preciso falar com você. — voz dele soa séria. — Está bem, estamos a caminho. – aviso. — Até logo. — ele desliga. Danilo foi para o quarto falar com a mãe. Guardei as frutas na geladeira e começo a arrumar a mesa. — Mamãe quer a gente em casa agora. — ele avisa ao sair do quarto. — Seu pai falou algo parecido, estou pronta em 15 minutos. — aviso entrando no quarto. Pego a toalha e corro para o banheiro. Depois que sai o garotão entrou.Visto uma calça jeans básica e uma blusa branca com estampa de beijo. Faço um coque no cabelo, passo um rímel e um gloss lilás. Danilo já está vestido e me esperando. — Vamos de táxi? — pergunta esperançoso. Dou-lhe um sorriso travesso. — Nem pensar, Vamos de busão. — pego a bolsa e abri a porta. — Vamos. — chamo e ele faz cara feia mais obedece. *** Adoro ver a cara do Danilo quando anda de ônibus. Ele não gosta, mas não reclama. As experiências dele com transporte público se devem a mim, não vejo necessidade de gastar uma fortuna com táxi. Os ônibus não são lá essas coisas mas quebram um galho e sem mencionar o quanto economizamos. Ao descer do ônibus, decido parar no carrinho de tacacá da dona Maria. Eu sou louca por tacacá! — Oi, dona Maria? — cumprimento a bondosa senhora que criou os filhos apenas vendendo comidas típicas. — Oi, como você está querida? — a mulher pergunta toda faceira. — Muito bem. — direciono minha atenção ao Danilo — Vai querer tacacá? — pergunto. — Sim, com bastante pimenta. — ele pede diretamente para a vendedora. — Claro e pra você Ema? Completo? — ela pergunta. — Sim, por favor. — confirmo ao me sentar na cadeira de plástico ao lado do carrinho, o garotão faz o mesmo. Não demora para a dona Maria servir o tacacá, fervendo do jeito que eu gosto, de queimar o coração. Bom, deixa eu explicar o que é o tacacá. O tacacá é um prato típico paraense, feito com o tucupi que é o suco extraído da macaxeira, a folha de jambu, que é uma folha que dá sensação de dormência na boca, a goma de tapioca que é sumo do tucupi e o camarão seco. O tacacá é servido em cuia de madeira e bem quente com pimenta de cheiro. Nossa é uma delícia. Pago a dona Maria, dou-lhe um abraço apertado e seguimos para a casa do senhor Silva. Não demorou para chegarmos ao condomínio Grão Pará. — Oi, seu Francisco. — saúdo alegremente o velho porteiro, — Olá, senhorita Ema. Como está? — ele pergunta gentilmente. — Estou muito bem e o senhor? — Estou como Deus manda. — responde ao liberar a nossa entrada. — Até daqui a pouco seu Francisco. — falo assim que o portão se abre e passamos por ele. — Até logo, menina. — Por que você sempre é tão gentil com todo mundo? Até o mala do meu irmão você trata bem. — Danilo pergunta como se fosse errado ser educado com as pessoas — A maneira como eu trato as pessoas chama-se educação, algo que você esqueceu que existe por que não falou um oi para a dona Maria e nem para seu Francisco. — Sou um pouquinho grossa pois não gosto que as pessoas critiquem o modo como trato o meu próximo. — Não os conheço para falar alguma coisa. — ele é rude. — Não precisa conhecer a pessoa para ser educado. — retruco. Danilo fica calado o resto do percurso até a casa dos pais. Paramos em frente a enorme casa que contêm cinco quartos, mais dois quartinhos dos funcionários. Cada quarto tem seu banheiro — incluindo os dos funcionários — um banheiro para visitas, sala de estar, sala de tv, sala de jantar, cozinha, lavanderia, biblioteca e o escritório do chefinho. Do lado de fora possui uma enorme área de lazer com uma enorme piscina que não ouso chegar perto porque não sei nadar. Essa foi a casa que eles alugaram já que a outra está em reforma. Por incrível que pareça outra é um pouco maior, a diferença é que tem três andares. Sinceramente, não vejo vantagem nenhuma de ter uma casa tão grande para poucas pessoas, sendo que Daniel tem seu apartamento. Uma vantagem é que uma casa desse tamanho garante o emprego de cinco pessoas, garantido assim o sustento de suas famílias. O garotão está sem a chave, por este motivo, ele apertou a campainha. Demorou um pouquinho para Madalena atender, mais assim que ela abre a porta dou-lhe um enorme sorriso junto com um abraço de urso. Ela cobre os finais de semana da Marília. — Oi pra você também menina maluquinha. — ela cai na risada quando comecei a despejar diversos beijos por seu rosto. — Ema, a Madalena tem que voltar ao serviço. — Danilo fala indo direto para as escadas. — Pelo visto o humor desse aí não melhorou em nada. — Madá observa. — Ele ficou assim no exato momento que colocou os pés neste condomínio. — tento justificar o comportamento do garotão. Dona Madalena me pega pelo braço e me leva até o escritório do senhor Silva. — O patrão me deu ordens para levá-la ao escritório assim que chegasse. — ela bate na porta e entra logo em seguida. Escuto apenas alguns murmúrios, e logo após Madalena sai do escritório. — Pode entrar menina. Até daqui a pouco. — Obrigada Madá, até logo. — entro, meu coração quase sai pela boca, o senhor Silva não está sozinho, Daniel está aqui e a cara que faz ao olhar para mim faz corpo todo se retrair, não de maneira boa. — Já estou indo. — Daniel fala. Levanta-se e sai, sem trocar uma única palavra comigo. Assim que ele sai me recomponho e volto a atenção para o senhor Silva. — Boa tarde, chefinho. — lembro que não o havia cumprimentado ainda. — Boa tarde, filha. — ele se escora na poltrona e faz sinal para eu sentar, prontamente obedeço. O senhor Denis é um homem admirável, não aparenta ter sessenta e dois anos de idade, e é muito severo com os filhos, porém muito amoroso com a esposa. Comigo é os dois, severo e amoroso. Trabalho há sete anos com ele e não tenho do que reclamar. Sinto-me triste em me afastar dele e da sua esposa, afinal não os verei com tanta frequência estando em outro Estado, espero, de verdade me adaptar a São Paulo, ao novo emprego e a nova chefe. Sinto meu coração se apertar um pouco pois tenho sentimentos muito bons para com a família Silva, com exceção de Daniel, todos sempre foram muito bons comigo e minhas amigas, cuidaram de mim como se fosse uma filha. Ele termina de redigir alguma coisa no celular e depois volta-se para mim. — Ema, realmente deseja a transferência para o escritório de São Paulo? — pergunta cruzando as mãos em cima da mesa. Abro um pequeno sorriso ao dar a resposta. — Sim, acredito que será uma experiência incrível. — tento soar convicta em minha resposta. Ele fixa os olhos nos meus. — Estou decepcionado com você. - Fala num tom de desaprovação. — Minha decisão o desagradou? — pergunto. — Sim, pois você está fugindo! Sei que não gosta de trabalhar com meu filho, no entanto, quando te dei a válvula de escape não pensei que você fosse recusar e sim aceitar o desafio chamado Daniel. — fico sem ação, isso foi um teste? — Senhor eu... — tento me explicar. — Não acabei de falar. - Ele me interrompe —, você sempre foi tão determinada. Nunca se deixou abalar, nem mesmo pela sua mãe que tanto a despreza, mas nem por isso desistiu dela e nem se deixou abater por isso. — fala, olhando-me nos olhos. — O que o senhor quer que eu faça? Seu filho não me suporta e eu nem sei o porquê. — tento me defender. Tio Dênis dá um meio sorriso. — Quero que não desista! Não existe pessoa mais qualificada para trabalhar com meu filho. Eu sei que ele tem o temperamento difícil, é arrogante e trata todo mundo desdém, entretanto se você tive paciência e for persistente, tenho certeza que ele vai ceder. — Sinto muito, não posso. — não vou me deixar convencer por essa conversa. — Por favor, não negue um pedido desse velho. — ele abranda um pouco. Estou me sentindo em um beco sem saída. Não posso decepcionar o senhor Silva, mas... não quero passar por aquele inferno de novo com o Daniel. Até hoje tenho pesadelos com aquela semana que trabalhei com ele. Foi horrível! Acho que ele percebe que não vou ceder, então toma a palavra. — Eu tenho uma proposta. Se você trabalhar por seis meses com o Daniel e perceber que não tem como permanecer ao lado dele, eu mesmo ponho você em um avião para São Paulo. — Senhor… — tentei argumentar mas não encontro palavras para isso. Sempre fui uma pessoa otimista que topa qualquer desafio e nunca me deixo abater por nada. Mas, o Daniel me intimida de uma forma que eu não consigo nem revidar, pra falar a verdade eu nunca revido. — Não posso. — completo por fim. — Por favor, se não fizer por mim… faça por sua mãe e seu irmão. Eles estão muito tristes com a sua transferência e tenho medo que o comportamento do Danilo piore sem você aqui. — ele pega no meu ponto fraco. Balanço a cabeça negando, os amo mas se chamada de porca não é legal. — Pelas crianças do centro de apoio, por suas amigas. São apenas seis meses, o que pode dar errado em seis meses? — ele insiste. "Tudo pode dar errado"— penso. Continuo negando com um leve balançar da cabeça. — Seis meses é muito tempo. — falo. — Minha filha, estou te pedindo apenas seis meses. Não maltrate o coração doente do seu velho pai assim. — ele segura minha mão e faz carinho, dando-me um sorriso que me desarmou por completo. Tio Dênis me venceu usando de chantagem emocional, e como a boa trouxa que sou, aperto a mão dele. — Seis meses. — acabo cedendo sem muita animação.
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