A Caçada de Coringa
A madrugada tava gelada, mas a raiva fervia no peito de Coringa. Ele andava de um lado pro outro dentro do QG, a Glock girando nos dedos. A carta ainda tava ali, amassada sobre a mesa. A foto da sua falecida mulher nua ao lado do desgraçado do Lucas parecia zombar dele. O sangue subia, latejando nas têmporas.
Coringa: (voz baixa, carregada de ódio)
"Alguém foi muito filho da p**a de querer brincar comigo. Agora vai pagar com sangue."
Um dos vapores, um moleque magrelo de boné e camisa larga, coçou a nuca antes de falar.
Vapor: (meio nervoso)
"Chefe... descobriram quem largou essa parada na boca. Foi um moleque novo... ainda nem tem maldade no bagulho. Mas falaram que depois que ele largou a carta, correu pra dentro de uma igreja cristã."
Coringa parou, apertou os olhos e soltou uma risada seca.
Coringa: (sorriso de escárnio, mexendo na arma)
"Então o filhote de crente achou que Deus ia salvar ele? Quero ver se Deus vai meter a mão quando eu encostar no r**o dele."
Ele olhou pros homens ao redor. O time tava formado. Vapores armados, todos prontos pra invadir qualquer canto do morro se ele mandasse.
Coringa: (tom de comando)
"Vamo cercar essa p***a. Quero esse moleque na minha frente AGORA!"
O bonde desceu as vielas do morro igual sombra, os passos rápidos e certeiros. A igreja ficava na parte mais baixa, um barracão grande, pintado de branco, com um letreiro escrito "Jesus é o Caminho". Coringa sentiu a ironia.
Eles chegaram arrombando a porta, assustando todo mundo. Os crentes gritaram, o pastor congelou no púlpito. O cheiro de vela e perfume barato misturou-se ao suor frio da tensão.
E então ele viu o moleque. Pequeno, franzino, tentando se esconder atrás dos bancos.
Coringa avançou, puxando o pivete pelo colarinho.
Coringa: (tom gélido, aproximando o rosto do garoto)
"Foi tu, né? Foi tu que largou aquela merda no meu morro?"
O moleque tremia, os olhos arregalados de puro pavor. Mas antes que ele pudesse responder, uma voz feminina cortou o ar.
Beatriz: (tom firme, sem hesitar)
"Solta ele!"
Coringa virou a cabeça e encontrou o olhar dela. Uma mulher. Mas não era qualquer mulher. Ela tava de pé, peito inflado, postura desafiadora. Os olhos cravados nele, sem um pingo de medo.
Por um segundo, ele sentiu algo estranho no peito. Mas não abaixou a cabeça.
Coringa: (entortando o sorriso, ainda segurando o garoto pelo colarinho)
"E tu é quem? A mãezona protetora do pecador?"
Beatriz deu um passo à frente, o olhar pegando fogo.
Beatriz: (fria, desafiadora)
"Sou a mãe dele. E tô mandando você soltar AGORA!"
Os vapores já cercavam a igreja, armas em punho. Um deles empurrou um crente que tentou se aproximar. O clima pesou mais ainda.
Coringa soltou uma risada baixa, puxou a pistola e encostou direto na testa do moleque. O garoto congelou, Beatriz arregalou os olhos, mas não recuou.
Coringa: (voz arrastada, provocativa)
"Se esse moleque não abrir a boca e me contar quem mandou ele, eu estouro os miolos dele aqui mesmo. Bora, fala logo, pivete!"
O garoto choramingou, mas antes que falasse qualquer coisa, Beatriz avançou.
Beatriz: (gritando, desesperada, mas firme)
"Ele não sabe de nada! Ele só entregou porque alguém mandou. Você quer brigar? Então briga comigo! Mas não toca no meu filho!"
Coringa apertou mais o cano contra a testa do moleque, olhando Beatriz de cima a baixo. Ela tremia de fúria, mas não de medo.
E isso mexeu com ele.
Coringa: (estreitando os olhos, analisando ela)
"Interessante... Faz tempo que ninguém me olha desse jeito. Cê tem coragem, hein?"
Beatriz cuspiu no chão.
Beatriz: (olhar fixo, desafiando)
"Não é coragem, é instinto. Eu protejo o que é meu."
Coringa sorriu. Um sorriso perigoso.
Coringa: (balançando a cabeça, quase divertido)
"Então protege ele no cativeiro. Porque agora vocês dois vêm comigo."
Os vapores agiram rápido. O garoto gritou quando foi puxado, Beatriz tentou lutar, mas era impossível contra os homens armados.
A última coisa que ela viu antes de ser jogada dentro do carro foi o olhar de Coringa, ainda cravado nela. Ele ainda sentia aquele estranho arrepio no peito.
Mas agora não era hora de pensar nisso.
Era hora de descobrir quem tava mexendo com ele. E de ensinar aquela mulher que ninguém, NINGUÉM, desafiava Coringa e saía ileso.
O Cativeiro
O carro subia o morro na escuridão da madrugada, os pneus cortando as ruas estreitas e cheias de vida, mesmo naquela hora. Dentro do veículo, o silêncio era tenso. Beatriz segurava o filho contra o peito, o coração disparado, mas a expressão firme. Coringa dirigia na frente, sem olhar pra trás, enquanto um de seus vapores vigiava os dois com uma pistola no colo.
O garoto choramingava baixinho, e Beatriz sussurrava palavras tranquilizadoras. Mas a verdade é que ela mesma tava tentando manter o controle. Ela sabia que aquele homem ao volante era um monstro, alguém sem piedade. Mas também sabia que não podia se dobrar.
O carro parou em frente a uma casa grande, escondida no meio do morro. Dois vapores abriram a porta e arrancaram os dois de dentro do carro. Beatriz tentou lutar, mas foi empurrada com força, caindo de joelhos no chão do cativeiro.
Coringa entrou logo atrás, fechando a porta com um estrondo.
Coringa: (cruzando os braços, olhando pra Beatriz com um sorriso de escárnio)
"Então, mãezona, ainda quer bancar a braba?"
Beatriz levantou devagar, encarando ele de frente.
Beatriz: (voz firme, sem desviar o olhar)
"Se você encostar no meu filho, eu juro que..."
Coringa deu um passo à frente, interrompendo com um riso seco.
Coringa: (voz baixa, ameaçadora)
"Tu jura o quê? Vai orar pra Deus me castigar?"
Ele soltou uma risada debochada e se virou pro garoto, que tremia no canto do cômodo.
Coringa: (agachando-se na frente do menino, falando num tom gelado)
"E aí, pivete? Vai falar quem mandou tu largar aquela carta ou eu vou ter que ensinar como funciona as regras do morro?"
O menino engoliu seco, os olhos arregalados de medo.
Beatriz: (se colocando entre os dois, com raiva nos olhos)
"Ele não sabe de nada! Você tá ameaçando uma criança, seu covarde!"
Coringa travou o maxilar, os olhos se estreitando. A forma como ela o encarava, como se não tivesse medo, o irritava e ao mesmo tempo... despertava algo estranho dentro dele.
Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, puxando-a bruscamente pra mais perto.
Coringa: (voz arrastada, olhos cravados nos dela)
"Tu não sabe com quem tá mexendo, mulher. Eu acabo com vidas sem piscar. Se eu quisesse, cês dois tavam mortos agora."
Beatriz sentiu a respiração quente dele contra sua pele, mas não desviou o olhar.
Beatriz: (voz firme, sem hesitar)
"Se fosse tão simples, já tinha feito. Mas não fez. Por quê?"
Coringa apertou mais o rosto dela por um segundo, sentindo a raiva borbulhar. Ele não gostava de ser desafiado. Ainda mais por alguém como ela.
Coringa: (soltando-a bruscamente, rosnando entre os dentes)
"Porque eu gosto de ver o desespero primeiro."
Ele se afastou, esfregando a mandíbula, tentando afastar a irritação – ou seja lá o que fosse aquilo que ele sentiu ao olhar nos olhos dela.
Coringa: (voltando a olhar pro menino, agora mais sério)
"Vou te dar uma chance, moleque. Pensa bem antes de abrir essa boca. Quem mandou tu largar aquela carta?"
O garoto tremia, mas antes que falasse, Beatriz segurou sua mão com força, transmitindo segurança.
Beatriz: (olhando diretamente pra Coringa, determinada)
"Eu já disse. Ele não sabe."
Coringa riu de novo, mas dessa vez era um riso sem humor. Ele passou a língua pelos dentes, encarando Beatriz por um longo momento.
Coringa: (desviando o olhar, chamando um dos vapores)
"Joga eles num quarto. Deixa eles sentirem o peso da situação. Amanhã a gente vê o que faz."
Os vapores empurraram Beatriz e o menino pra dentro de um cômodo pequeno e trancaram a porta.
Coringa ficou parado no meio da sala, olhando pro chão.
Algo naquela mulher tava mexendo com ele de um jeito que ele não entendia.
Mas uma coisa era certa: ninguém desafiava Coringa e saía sem pagar o preço.
E ela ia aprender isso. Do jeito difícil.