O primeiro encontro após...

1228 Palavras
Quando voltei para Riviera, eu estava radiante. Recebi até elogios pela forma profissional como conduzi tudo com Magno. Mantive o foco — não deixei a conversa escapar nem por um segundo para assuntos pessoais. Só falamos de design, da reforma, do projeto. E olha… foi difícil. Precisei sorrir, manter a gentileza, sem deixar transparecer o que se passava dentro de mim. Meu coração pesava por causa de Bárbara. Eu me sentia suja, desleal. Pensei: não sou confiável. Loren passou a me olhar de um jeito estranho, como se desconfiasse de algo. Mas eu logo a cortei com um comentário direto, e ela voltou ao lugar dela. Depois do almoço, sentei na minha mesa como de costume e mergulhei na revisão de alguns projetos. Minha cabeça estava no futuro, e pela primeira vez em muito tempo eu senti: estou na carreira certa. Já pensei em seguir os passos do meu pai, médico. Depois considerei pedagogia, como minha mãe. Mas, no fundo, eu sempre gostei de inventar coisas. E foi isso que me trouxe até aqui. — Bom dia! Claro. Era lógico que alguma coisa tinha que vir tirar o meu brilho. Era o Liam. Deixou um copo de café na minha mesa e foi direto até a de Loren — onde, por acaso, também deixou outro. Eu fiquei olhando. Loren era bonita, charmosa… mas tinha namorado. Não sei se cairia nas investidas dele, como eu caí. Mas vai saber… tudo é possível. Meu coração vacilou um pouco. Não dá pra deixar de ser uma garota ingênua da noite pro dia. Mas, antes que a fraqueza me dominasse, eu reagi. Peguei o café que ele comprou na lanchonete do lado… e joguei no lixo. Copo, líquido, tudo junto. O que eu não esperava era que os dois estivessem me olhando naquela hora. — Eu tô meio baqueada… meu estômago depois do almoço não tá legal — improvisei, tentando disfarçar. Liam me lançou um olhar breve e perguntou sobre Bárbara. Eu disse que ela estava resolvendo algo em outra obra. Sempre que ela está fora, ele se acha no direito de tomar conta de tudo: conversar com os vendedores, se meter em decisões... inclusive comigo. Decidi que precisava de um momento sozinha. Fui até o banheiro — não pra lavar o rosto, porque não queria tirar a maquiagem — mas pra respirar. Me olhei no espelho e me lembrei da última conversa que tivemos. As palavras dele voltaram como um soco no estômago: “Te comi naquele sofá”. Aquilo me embrulhou por dentro. Eu não podia pegar atestado, não podia dar brecha, não podia vacilar. Eu não queria mais errar. — Elara, você consegue — sussurrei pra mim mesma. Molhei a nuca, respirei fundo e saí daquele banheiro certa de que Liam estaria ocupado, ou longe… mas não foi bem assim. — Liam te espera na sala da Bárbara — disse Loren, confusa. — O quê? O que ele quer? Ele nem é meu chefe. — Você sabe como ele é. Gosta de controlar tudo. E aquele café jogado fora… poderia ter me dado. — Foi m*l, Loren. Desculpa mesmo. Fiquei vermelha, nervosa. Uma mistura de raiva, vergonha, arrependimento. Suspirei fundo e fui até a sala da Bárbara. Lá estava ele, como se fosse o dono do lugar, sentado na cadeira da minha chefe. — Fecha a porta — disse ele. Não consegui. Cada parte do meu corpo queria fugir dali. Eu estava pronta pra fazer um escândalo se ele ousasse me tocar ou qualquer outra gracinha. Estava tudo bom demais pra ser verdade, era o meu dia e Liam chegou para atrapalhar. Certamente estava ali pelo café que joguei fora. — Magno não é homem pra você. Senta! Ela vai te convidar pra jantar, você vai recusar. Depois eu resolvo o resto com ele. — Tem mais alguma coisa? — Pedi pra você sentar. — Eu não quero sentar. Eu só quero trabalhar. E aliás, não te interessa com quem eu saio. Eu já tô vacinada contra certos babacas ricos que se acham donos do mundo. Liam levantou calmamente, fechou a porta, me olhou de cima a baixo, com aquele olhar fechado, mas sedutor. Eu estava paralisada com aquele homem que um dia achava tanta coisa boa e agora, era um arrogante sem vergonha na cara. — Você é uma criança. É jovem demais. Não sabe de nada… Ele estendeu a mão e puxou uma mecha do meu cabelo. Me afastei de imediato. — Me respeita! O fato de você ter dinheiro e poder não te dá o direito de fazer o que quiser comigo. Fica longe de mim, Liam. Passei por ele, abri a porta e saí buscando equilíbrio, tentando não desabar. Eu me sentia humilhada, invadida. E sim, meus sentimentos estavam um caos. Eu sou uma mulher — e sei que muitas vezes a gente se derrete por quem não deve. Mas eu não quero isso. Não mais. Voltei pro andar de cima meio zonza, com mil pensamentos atravessando minha mente. E se Bárbara chegasse naquele instante? E Loren, o que contaria pra ela? — O que houve, Elara? — perguntou Andréia. Eu quase a atropelei no corredor. — Nada! Tenho muita coisa pra fazer. Quer alguma ajuda? — Não. Você precisa de alguma ajuda? — Também não. Obrigada, Andréia. Só queria que aquele dia acabasse logo e Liam fosse para bem longe de mim, porém, Liam não estava satisfeito. Isso era óbvio no jeito como ele saiu da sala e voltou para a sala de criação — firme, silencioso, com aquela expressão neutra que escondia tudo e ao mesmo tempo revelava mais do que devia. Meus olhos o seguiram até ele parar bem na frente da minha mesa. E então ele fez o impensável: puxou a cadeira e se sentou de frente pra mim, como se esse lugar lhe pertencesse, como se quisesse deixar claro que eu estava sob seu controle, na minha visão aquilo era assédio moral, mas ele ele está a pouco se lixando para isso. Essa atitude me pareceu uma audácia imperdoável. Um gesto calculado para me constranger… ou pior, provocar a minha queda, minha demissão. Não sei o que se passava pela cabeça dele, mas seus olhos cravados nos meus me fizeram prender a respiração. Ficamos alguns segundos em silêncio, ele apático, como se esperasse minha reação. Loren passou por nós e me olhou com estranheza. Provavelmente ainda tentando entender o que estava acontecendo entre mim e Liam — coisa que nem eu sabia direito e Liam resolve agir. — Loren, quero toda a documentação do apartamento do Magno — ele disse, ainda me observando. — Ele pediu minha opinião, quero dar uma olhada. — Você quer dizer a planta? O projeto? — Pergunta que el sabia que não seria respondida, então ela seguiu: — Estão sob supervisão da Elara — respondeu Loren, sem hesitar. — O próprio Magno solicitou isso. Liam então virou levemente o rosto para mim, com a voz firme, quase provocadora: — Você pode, por favor, mostrar o projeto, Elara? Pisquei devagar, como quem saboreia a raiva contida. Olhei para Loren por um instante, como se quisesse alguma espécie de escudo, mas não havia saída. Encarei Liam, respirei fundo e bufei por dentro. Eu sabia jogar esse jogo também. — Claro, Liam — respondi, com a voz doce e profissional, mas por dentro… eu estava em chamas.
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