Eu estava decidida a me manter firme, a ser mais madura — dessas resoluções que a gente toma quando se cansa de se sabotar. Eu sabia que precisava parar de me deixar levar por impulsos que só me colocavam em situações insanas. Aquela era a minha chance de mostrar serviço, de provar que eu tinha vindo para São Paulo com um propósito — e que era mais do que só sobreviver.
Já tinha me deixado levar por Fernando e transformou minha vida num verdadeiro inferno, depois por uns flertes vazios que não me levaram a lugar nenhum... até chegar no desastre da noite com o noivo da minha chefe. Um erro. Um baita erro.
Cheguei naquele apartamento fabuloso e senti um impacto real. Nunca tinha estado em um lugar assim — e olha que eu achava já ter visto bastante coisa. Mas ali era diferente. Eu não tenho amigos ricos, e a Bárbara, quando quer companhia para esse tipo de coisa, prefere a Loren. Então pra mim, tudo aquilo era novidade. Surreal.
Logo na entrada, me vi cercada por peças de design que eu só conhecia pelas revistas e pelas redes sociais. Cada quadro, cada móvel, cada detalhe... Era tudo impecável. A entrada era acolhedora, mas o que vinha depois parecia coisa de filme: uma sala tão grande que caberia meu apartamento inteiro ali — e ainda sobrava espaço. Um triplex. Um verdadeiro show de sofisticação.
A vista era toda envidraçada, de parede a parede, e só ela já dava uma pista de como seriam os quartos lá em cima. E, claro, o salão gourmet... a cereja do bolo. Era como se aquele lugar tivesse sido feito para impressionar — e funcionava. Eu mesma fiquei sem palavras. Mas respirei fundo e me lembrei: eu não estava ali para me encantar. Estava ali para crescer.
Eu estava apreensiva. Não por Magno ser amigo de Liam — isso já não me causava mais tanto incômodo —, mas sim por tudo que ouvi de Loren. Ela foi direta: ele era um homem exigente. E não do tipo que elogia por educação ou aceita qualquer sugestão para não causar atrito. Exigente mesmo.
Bárbara estava finalizando uma reforma enorme no andar superior do triplex, e era um dos prédios mais caros — e cobiçados — de São Paulo. Tudo ali precisava estar impecável. Magno não era só um cliente qualquer. Era um daqueles nomes silenciosos que todos conhecem, mesmo sem saber direito quem é. Nunca fora casado, o que de certa forma me intrigava, porque o Magno que conheci em um momento leve, descontraído, era bem diferente da figura poderosa que estava investindo tanto naquela obra. Era difícil imaginar que aquele mesmo homem, de chinelo e riso fácil, era o mesmo que movimentava cifras e decisões como se fossem peças num jogo de xadrez.
Sobre Bárbara, apesar de seu prestígio, havia comentários. Algumas críticas às suas reformas, projetos entregues às pressas, detalhes m*l finalizados. E ainda assim, ela se mantinha como referência. Isso só aumentava a minha responsabilidade — e o receio de ser associada a qualquer falha, mesmo que não fosse minha.
Eu não estava ali para agradar ninguém fora do âmbito profissional. Nunca cogitei usar da minha aparência, nem de nenhum charme forçado. Queria ser vista pelo que eu sabia fazer. E só.
Assim que entramos — eu, Loren e Bárbara — me surpreendi. Magno nos recebeu com o sorriso tranquilo de quem parecia não estar preocupado com nada. Usava uma bermuda, moletom e chinelos. O oposto do que imaginei. Era quase um menino em casa, à vontade, e isso me desarmou um pouco.
Disse que haveria um casamento em breve, e sorriu ao mencionar isso. Eu já havia autorizado os retoques finais no projeto e conhecia bem Miguel, o projetista. A parte de cima era dedicada à filha pequena de Magno — uma menina de três anos que passava os finais de semana com ele sempre que possível. Havia algo de bonito e, ao mesmo tempo, íntimo nesse espaço. Aquilo já não era só uma obra; era afeto, era vínculo. Isso me tocou.
Enquanto Bárbara e Loren alinhavam detalhes com os pedreiros e com Miguel, Magno se aproximou de mim. Queria minha opinião.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, observando tudo ao redor. A parte de baixo era incrivelmente sofisticada, quase impessoal de tão perfeita. Mas já conseguia visualizar a parte de cima sendo invadida por pequenos detalhes infantis. Um carrinho rosa esquecido no chão, por exemplo, quebrava os tons sóbrios do cinza e do marrom predominantes. Era um contraste... bonito. Humano.
Virei-me para a janela e deixei os olhos passearem pela vista estonteante da cidade. Dali, São Paulo parecia perfeita. Nenhum contraste com favelas, nenhuma cicatriz urbana à vista. Tudo era linha reta, arranha-céus e céu azul filtrado por vidro antirreflexo.
— Elara, é isso mesmo, né? — ele me chamou, apontando para a sacada com a piscina de borda infinita. — Lembra daquela conversa que tivemos? O que acha de adaptarmos aquela peça pra essa área?
Seu tom era leve, mas seus olhos pareciam estudar cada gesto meu.
— Talvez uma peça menos chamativa — respondi, ponderando. — Algo que contraste bem com a pilastra que vai levar aquele marrom.
— Eu nem sei se gosto mais daquele marrom — disse ele, pensativo. — Por isso estou perguntando. Comprei as peças, mas queria mesmo a sua opinião. Foi você quem escolheu, e são magníficas. Acho que aqui, nesse mármore travertino, ficariam perfeitas.
— Obrigada pelo elogio — respondi, surpresa pela sinceridade dele. — Isso é importante pra mim. Esse aqui será o espaço gourmet, certo? Talvez um azul mais escuro trouxesse contraste sem pesar.
— Perfeito! — ele respondeu com um brilho nos olhos. Um pouco intenso demais. Quase me fez desviar o olhar.
Foi quando Bárbara se aproximou com o tablet na mão. A voz suave, os olhos mais atentos ao que acontecia entre nós do que ao projeto em si.
— Então, Elara, o que conseguimos fazer aqui? — perguntou, como se quisesse me dar espaço. — E Magno, você queria aquelas peças. A Elara está aqui, como pediu.
Naquele momento, percebi que Bárbara não falava só como profissional. O jeito dela... era de alguém que apresentava um amigo para alguém em quem confia. E isso me deixou ainda mais alerta.
Era como se, de repente, meu trabalho estivesse à beira de se transformar em algo mais visível. E eu precisava manter o equilíbrio entre o que sentia, o que via... e o que jamais poderia permitir.