Estamos deitados na penumbra, respirando de forma irregular, tranquilos, mas não em silêncio. Vlad toca o meu ombro com os dedos, como se estivesse tocando um piano velho, com cuidado, sabendo que sou um instrumento danificado, não afinado à perfeição.
O seu calor ainda me envolve, é tranquilo e seguro. Nele posso me esconder, mas não viver.
— Me sinto bem com você, Sam. Ele sussurra, e eu apenas assinto em silêncio. Não respondo, porque não tenho palavras.
Sei que isso não é suficiente para ele. E eu sei que não é justo.
Gostaria de ser aquela mulher que o ama em troca. A que ele merece. Mas em mim ainda vive outra pessoa. A velha eu, com o coração partido, abandonada no altar. A mulher que durante seis anos guardou silêncio sobre a sua dor, criou a filha, salvou-se com o trabalho e não se atreveu a enfrentar o passado.
Vlad é uma oportunidade para uma nova vida normal. O destino me deu, mas ainda não me atrevo a aceitá-lo.
Meu coração... está naquele dia, naquele vestido branco, com lágrimas nas bochechas e um futuro desfeito.
— Você ainda o ama, não é? Pergunta Vlad. Tranquilamente e sem reproche.
Contenho a respiração e não respondo imediatamente.
— Não sei se é amor. Talvez apenas uma ferida que não cicatrizou.
— E não há espaço para mim no seu coração. Ele sussurra.
Dói-me ouvi-lo, porque ele tem razão.
— Sinto muito, Vlad. Eu... eu tento.
— Eu sei. Ele suspira.
O silêncio volta a cair entre nós. Olho para o teto, e ele está ao meu lado, sem mais me tocar.
É assim que começam as nossas noites apaixonadas, e é assim que terminam. Trago lágrimas amargas, encolhida contra o corpo do homem que me ama, mas não consigo amá-lo de volta.
Na manhã seguinte, acordo primeiro e preparo o café da manhã para nós. Daryana conta a Vlad os seus planos para hoje, e ele escuta atentamente, tomando o seu café.
Daryana ama o Vlad. Ela se sente atraída por ele como se ele fosse seu pai. Vejo e aceito em parte. Mas é outra razão pela qual ainda não encontrei um lugar para Vlad no meu coração. Porque lá vive o Máximo...
Acompanho Vlad até a porta e nos beijamos apaixonadamente no corredor, como se ambos tivéssemos esquecido aquela conversa noturna.
Vlad vai, e eu volto com a minha filha, e nos preparamos para sair. Não tenho muitos dias de folga, então hoje quero passar o dia com a minha filha e dedicar todo o tempo possível a ela.
Vamos ao parque, aos brinquedos mecânicos e depois à sala de jogos para crianças. Gosto de ver os olhos alegres da Daryana e a sua risada feliz.
Quando voltamos para casa, minha filha vai dormir imediatamente, e eu cuido da limpeza e de preparar a comida. Hoje deixei a babá livre, então vou cuidar das tarefas domésticas sozinha.
A campainha me traz de volta à realidade, então corro para abrir antes que Daryana acorde. Na porta está Sarah com uma sacola numa mão e uma garrafa de vinho na outra.
— Dia r*uim? Perguntou, deixando-a entrar no apartamento.
— Adivinhou. Ela resmunga. — Preciso urgentemente de um copo.
Minha irmã tira os sapatos e vai para a cozinha. Coloque a garrafa na mesa e pegue as frutas.
— Onde está a pequena? Ela pergunta.
— Dormindo. Hoje foi um dia cheio de atividades. Digo, colocando uvas e tangerinas num prato. — O que aconteceu?
— Percebi que preciso de umas férias. Diz a minha irmã, levantando-se e tirando o saca-rolhas da gaveta. Abre a garrafa com confiança, e eu coloco as taças na mesa.
— Eu te disse isso há muito tempo. Sorrio. — E também precisas de um homem.
— Não é seguro. Ela suspira e serve-se vinho até a borda. — Por nós, irmã!
Sarah não me espera e toma um bom gole. Sento-me em frente a ela e também bebo, mas lentamente.
O sabor do vinho é um pouco áspero, mas suave. Um calor se espalha pela minha boca, e com ele, a calma. Aquela que só se sente à noite, quando o dia finalmente se transforma em noite, e por um momento você se permite tirar todas as máscaras. Mesmo diante de si mesma.
Estamos sentadas na cozinha, como nos velhos tempos, quando ainda morávamos juntas num pequeno apartamento alugado sem água quente, mas com grandes sonhos. Então éramos pobres, jovens, com raiva do mundo e tão inseparáveis. Agora temos um negócio, uma reputação, estabilidade, mas muitas vezes nem sequer temos tempo uma para a outra.
— Sabe. Começa Sarah, girando a taça entre os dedos. — Eu amo o meu trabalho. Mas às vezes eu só quero que todos esses clientes desapareçam. Desapareçam junto com os pôneis, os fogos de artifício e seus...: Podemos ter isso também?
— Imagina que há trabalhos piores. Respiro fundo.
— Preferiria viver nas montanhas. Sarah ri. — Preparar um café matinal numa fogueira. Sem internet. Sem estes: Senhora Sarah, queremos dez tipos de champanhe. E sem homens.
Capturo o seu olhar.
— O Denis está te incomodando? Pergunto diretamente.
— Denis? Ela levanta as sobrancelhas. — Não. De fato, Denis parece ser o único homem neste planeta que merece atenção, mas não estou em condições de dar a ele.
Sinto pena da Sarah. Como eu, ela tem a sua própria história de amor infeliz, e agora não consegue, ou não quer, abrir o seu coração para outros homens.
— E como vai com o Vlad? Pergunta, mudando de assunto. — Espero que você tenha agradecido a ele pelos pôneis.
— Agradeci a ele. Ela suspirou. — Mas de novo estamos num beco sem saída.
— Você não pensou... Ela diz com cuidado. — ...Que é hora de deixar Máximo ir?
Agarro a taça com força. Coloco-a lentamente na mesa.
— Penso nisso todos os dias. Digo em voz baixa.
— Mas você não deixa ir.
Só dou de ombros.
— Não é tão fácil.
— Eu sei. Ela suspira e cobre a minha mão com a dela. — Mas tente fazê-lo. Vlad é bom e te ama.
Só assento, porque não sei mais o que dizer. Sarah tem razão, mas meu coração não pensa o mesmo.