Episódio 3

1809 Palavras
A agência de casamentos que criei juntas com a Sarah é o nosso filho em comum. A nossa justificativa para as noites sem dormir, os fins de semana perdidos e milhões de xícaras de café. É aqui que realizamos os sonhos dos outros, mesmo quando os nossos afundaram há muito tempo. Depois de estacionar o carro, saio para a calçada e inalo o ar da cidade que já está quase escuro. Há um cheiro de flores, um pouco de cansaço e um pouco de expectativa. O edifício de cinco andares me recebe com a sua fachada familiar, e num instante estou empurrando as portas de vidro e entrando num espaço luminoso, simples mas acolhedor. Anastasia, nossa administradora, levanta os olhos da tela e sorri para mim: — Olá, Samanta! Como foi a reunião? — Impressionante. Digo com um leve toque de sarcasmo. — A noiva quer um casamento ao nível das cerimônias mundiais. Dirijo-me lentamente à minha secretária. O espaço ao redor é branco, com toques dourados quentes. As paredes estão decoradas com fotos: noivos sorrindo, arcos florais, bailes sob as estrelas. Todos esses casais confiaram em nós, e não os decepcionamos. Sento-me, ligo o laptop e abro uma nova pasta: Cristina Radchenko. Casamento. Introduzo os primeiros dados da noiva e noto que Sarah entra no escritório. Minha irmã bebe café da xícara enquanto caminha e parece irritada. — Dia r**m? Perguntou, olhando-a fixamente. Sarah não se parece em nada comigo, embora tenhamos apenas dois anos de diferença. Ela é alta, esbelta e mais parece uma modelo do que uma organizadora de eventos. O seu cabelo castanho está penteado num bob perfeito até os ombros. E eu sou um pouco mais baixa que ela, com cabelo longo e loiro acinzentado e sempre com olhos verdes cansados... — Terrível. Ela resmunga e senta-se na sua secretária à minha frente. — Essa cliente vai me deixar louca. Imagine, ela quer dez pôneis porque é o desejo da filha para o aniversário dela. Onde vou conseguir dez pôneis para amanhã?! Não sei como ajudar a minha irmã, porque eu também já estive em situações semelhantes. Os clientes que nos pagam pensam, por alguma razão, que podemos alcançar as estrelas do céu, e não se importam que seja impossível. — Escuta, vou ligar para o Vlad. Digo. — Acho que ele tem um amigo que tem uma fazenda de cavalos. — Sério? Sarah anima-se imediatamente. — Diga ao Vlad que não ficarei em dívida. Só suspiro e, pegando o telefone, saio para o quintal do prédio. Aqui está um design interessante que nos permite vir para o terraço com cadeiras e uma mesa para pensar ou trabalhar ao ar livre. Sento-me numa cadeira confortável, marco o número de Vlad e ouço os longos toques. O ar na varanda é fresco, frio e cheio do aroma de madeira molhada – choveu recentemente. Aqui está tranquilo. Só se ouvem os sons dos carros que passam na rua, mas neste canto acolhedor parece um mundo à parte, onde tudo desacelera um pouco. Estou sentada na cadeira, segurando o telefone no ouvido, ouvindo os toques. Um, dois, três. Já acho que Vlad não vai responder, quando finalmente: — Olá, Samanta. Diz a sua voz profunda e familiar no alto-falante. — Olá. Sorrio involuntariamente. — Tenho um pequeno, mas urgente favor para te pedir. — Como sempre. Ele ri. — Pensei que finalmente tinha se lembrado de mim e queria me convidar para um encontro. — Sinto muito. Tenho estado muito ocupada ultimamente. Digo com um tom de desculpa. — Diga-me, o que é desta vez? Vlad não me pergunta que assuntos são esses, e sou grata por isso. — Você tinha um amigo que tinha uma fazenda de cavalos, não é? Precisamos... bem... dez pôneis. Para amanhã. Uns segundos de silêncio do outro lado da linha indicam que Vlad está em choque. — Você está brincando? Ele finalmente reage. — Queria, mas não. É o aniversário da filha de uma cliente da Sarah. É complicado. O clássico – "dinheiro não é problema, arranje-me um dinossauro". — Não tenho dinossauros, mas vou tentar pensar em algo com os pôneis. Dê-nos algumas horas. Se eu encontrá-los, te ligo. — Vlad, você é ouro. De verdade. Obrigado. Digo com alívio. — Se eu conseguir, você me deve um jantar. Melhor dois. — Negócio fechado. Sorrio e desligo. Fico sentada por alguns minutos, encostando no encosto da cadeira, olhando para o céu. Uma nuvem leve passa lentamente sobre a minha cabeça, e em mim fica um pouco de tranquilidade. — E então? Sarah sai para o terraço e senta-se ao meu lado. — Vlad tentará conseguir os pôneis para você. Digo. — Ele é incrível. Sarah sorri para mim amplamente. — Sim, ele é. Concordo. — Querida, você não acha que é hora de aceitar a proposta dele e levar o seu relacionamento com ele a um nível mais sério? Suspiro. Não passa um dia sem que tenhamos essa conversa. Ela está encantada com o Vlad. Eu, honestamente, também. Mas, além do se*xo com ele, não me atrevo a ir mais longe. Sinto-me como se estivesse presa. Vlad conhece a minha história. Sabe o quão difícil é para mim abrir-me para as pessoas. Ele conseguiu me levar para a cama, mas meu coração continua guardado a sete chaves. Ao voltar para casa à noite, troco para um short e uma camiseta e vou para o quarto da minha filha. Acabei de me despedir da babá dela, e agora só estamos nós duas no apartamento. Daryna acabou sendo minha cópia exata. Não herdou nada do pai. Talvez seja o melhor. Não posso dizer. Daryna está brincando com os seus brinquedos no quarto, então aproximo-me e me sento no tapete de pelúcia macio. — Você vai ficar em casa amanhã? Pergunta a minha filha, penteando o cabelo rosa da boneca. — Sim. Sorrio. — Amanhã iremos ao shopping. Primeiro ao cinema, e depois à sala de jogos para crianças. — Viva! Daryna pula pelo quarto, e a sua alegria é tão genuína, tão pura, que involuntariamente escondo o meu rosto nas mãos – não por cansaço, não. Senão pelas emoções que se acumularam durante o dia e que agora transbordam como uma inundação primaveril. A felicidade está perto, está aqui – naquele sorriso infantil, na corrida pelo quarto, naquelas tranças e mãos pequenas. Deito-me no tapete, sentindo meu corpo relaxar gradualmente. Daryna corre para mim, se aconchega ao meu lado e apoia a cabeça na minha barriga. — Você é a melhor mãe. Ela sussurra. Quero responder algo caloroso, mas da minha garganta só sai um suave: e você é a melhor, filha. Ela ainda não sabe tudo. Não sabe o quão difícil foi para mim ficar sozinha com ela quando ela era pequena. Não sabe quantas noites chorei enquanto ela dormia. Ele não sabe que a chegada dela me salvou da escuridão. De desespero. Da morte. A campainha da porta me tira de um estado estranho entre pensamentos ansiosos e um esquecimento quase doce. Levanto-me com cuidado, tentando não acordar Daryna, que adormeceu aninhada contra mim no tapete. Aproximo-me da porta descalça e olho pelo olho mágico. É o Vlad. Abro a porta e, de fato, é ele, sorrindo, de jeans, camiseta e com dois buquês de flores nas mãos. Um é exuberante, de rosas-brancas, amarrado com uma fita creme. O outro é menor, de tulipas coloridas, leve, brilhante, primaveril. — Espero que não seja tarde demais. Ele diz, inclinando a cabeça, como sempre, um pouco brincalhão. — Quase. Sorri com o canto dos lábios. — Mas as flores salvam a situação. — Então, isso é para você. Ele me entrega o grande buquê. — E isto. Ele se inclina e mostra as tulipas. — É para a sua princesa. Porque ela é uma verdadeira heroína: ela aguenta uma mãe tão trabalhadora. Não consigo conter o riso e me afasto: entre, super-herói com flores. Vlad entra no corredor e para, olhando para mim atentamente. — Dia difícil hoje? Sento-me e pego as rosas, inalando seu aroma. Tão delicado. — Todos os meus dias são assim. Você sabe. Digo. — Daryna está dormindo? Vlad olha ao redor. — Sim. Ela adormeceu no tapete.Você pode levá-la para a cama? Enquanto isso, vou colocar as flores na água. — Claro. Vlad se dirige para o quarto da minha filha, e eu vou para a cozinha com os buquês. Quando ele volta, estou enchendo um vaso com água. Sinto as suas mãos na minha cintura, e então ele me abraça por trás e me beija no pescoço. — Senti a sua falta, gatinha. Ele sussurra, e a minha pele se arrepia. Ele sempre me chama assim. Não me incomoda, honestamente, mas não consigo retribuir o carinho com palavras. — O que aconteceu com os pôneis? Pergunto, virando-me para ele. Vlad sorri. Ele é muito bonito. Loiro de olhos azuis e corpo atlético. Sarah o chama de meu bilhete da sorte, mas ainda não me atrevo a usá-lo. — Eu arrumei tudo. Sarah está ciente e está discutindo diretamente com o dono da fazenda. — Uau! Rio. — Ela deve estar encantada. — Claro que sim! Ele suspira. — Ela disse que você me pagaria. — Estou vendo. Passo os dedos pelo braço dele, e Vlad acompanha as minhas mãos com o olhar. Os seus olhos escurecem instantaneamente, e o meu coração começa a bater mais rápido. Não se passam nem cinco segundos antes de eu me levantar nos seus braços, e eu envolvo a sua cintura com as minhas pernas. Enquanto nos beijamos, Vlad me leva para o meu quarto, conhecendo o caminho de cor. Nos deixamos cair na minha cama e, num instante, os pensamentos sobre os pôneis, Sarah, o trabalho e, o mais importante, Máximo, se desvanecem da minha mente. Vlad tem uma habilidade maravilhosa de me fazer feliz. E embora não dure tanto quanto eu gostaria, é o suficiente para me recarregar. Ele é um homem maravilhoso, e talvez com ele eu fosse a mais feliz do mundo, mas não consigo superar os meus próprios limites. Ainda não posso. Ainda amo Máximo. Apesar de como as coisas terminaram entre nós, o meu m*aldito coração se recusa a esquecê-lo. Por isso durmo com Vlad, mas nunca lhe disse que o amo. Ele sabe e aceita, mas eu entendo que isso não pode durar para sempre. Vlad não só quer dar, mas também receber, e eu ainda não estou pronta para isso, e por mais que eu tente mudar a configuração do meu coração, não funciona. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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