EPISODIO 1

1712 Palavras
EPISÓDIO 1 Seis anos depois Odeio engarrafamentos. Mas odeio ainda mais ter que me apressar para algum lugar e ficar presa nessa fila interminável de carros. A música toca pelos alto-falantes, e os meus dedos batucam nervosamente no volante. Sei que vou chegar catastroficamente atrasada, mas não posso fazer nada. A menos que deixe o carro no meio da estrada e continue a pé. O telefone começa a tocar, e sem nem mesmo olhar para a tela, eu sei quem é. — Olá, querida irmã! Digo e sorrio amplamente. — Não me diga que você não vai chegar à reunião. Resmunga Sarah. — Tudo bem. Não direi. — M*erda! O tom da voz dela não me promete nada de bom. — Escuta, levei a Daryna para natação. Digo. — Demorei um pouco conversando com o treinador. E agora este m*aldito engarrafamento. — Talvez você devesse cancelar a reunião? Não é bom chegar atrasada na primeira reunião com os clientes. sugera Sarah. — Chegarei! Digo alegremente, porque os carros começam a se mover. — Que bom. Suspira a minha irmã. — Me ligue depois. Quero saber como foi tudo. Joguei o telefone de volta na minha bolsa e respirei fundo, porque os carros continuavam em movimento. Viro da estrada principal para a rua onde fica o restaurante e deixo o carro no estacionamento. Pego o meu caderno, coloco a bolsa no ombro e, com o som dos meus saltos altos, vou em direção à entrada. — Boa tarde! Em que posso ajudá-la? Pergunta uma simpática garçonete. — Reservei uma mesa para as duas. Digo. — O sobrenome é Savchuk. A moça verifica as reservas, e eu olho ao redor do salão procurando a noiva que quer contratar os meus serviços. Parece que ela também está atrasada, o que não deixa de me alegrar. A garçonete me leva à mesa e, imediatamente, peço um café gelado. Não faria m*al refrescar-se enquanto tenho a oportunidade. Envio uma mensagem para Sarah dizendo que estou no local, e levanto os olhos do telefone quando ouço o som de saltos no chão. Se aproxima uma garota muito bonita, como uma boneca. Cabelo loiro longo, olhos azuis e lábios rosados. Qualquer modelo invejaria sua figura. E eu sinto um pouco de inveja. Ao seu lado caminha outra loira, mas não tão impressionante. Talvez seja a irmã ou amiga da noiva. — Olá! Samanta, é você? Pergunta Cristina. A noiva. Felizmente, já conversamos por telefone e vi as suas fotos nas redes sociais, então tenho uma ideia de com quem estou lidando. — Olá. Sim, sou eu. Digo e, levantando-me, dou-lhe a mão. — Esta é a Marta, minha amiga. Diz Cristina, e elas se sentam na minha frente. Sento-me e tiro meu caderno da bolsa, pronta para fazer as minhas perguntas. Pego a caneta e abro o caderno em uma página em branco. Na primeira página, sempre escrevo o nome, a data e uma breve nota. Primeira reunião. Levanto o olhar para Cristina, que se acomoda confortavelmente diante de mim, e entendo que essa garota não quer apenas um casamento – ela quer um espetáculo. — Então, Cristina, conte-me, como você imagina seu casamento perfeito? Sorrio profissionalmente, embora ainda sinta um pouco de nervosismo por causa do trânsito e do atraso. — Quero que todos fiquem de boca aberta. Ela diz sem hesitar. — Tudo tem que ser perfeito. A música, a iluminação, as flores. Tudo deve parecer saído de um filme. Entende? Entendo. Muito bem. Não é a primeira noiva assim, e com certeza não será a última. Mas esta... esta não quer um casamento, quer uma sessão de fotos com o espanto dos outros como pano de fundo. — E outra coisa: só quero rosas brancas. Só brancas. E o vestido será de Paris. E os fotógrafos só da minha lista. Ela acrescenta com um sorriso perfeito, como se estivesse ditando uma ordem em um hotel. Meu olhar desliza involuntariamente para Marta, sua amiga. Ela está sentada em silêncio, sem emoções, apenas lançando olhares rápidos e avaliativos para mim de vez em quando. Tenho a sensação de que a trouxeram aqui à força, mas posso estar enganada. — Quem vai cuidar da coordenação no dia do casamento? Alguém da sua família, ou confia completamente em mim e na minha equipa? Perguntei, anotando no caderno "toneladas de rosas brancas – verificar fornecedores". —Só você. Responde Cristina. — Não quero que minha mãe ou minha irmã se intrometam. Quero ser uma convidada na minha própria festa, não uma gerente. É para isso que eu pago, não é? Sorrio, embora sinta um ligeiro tique no canto dos lábios. — Exatamente. Então, vou anotar tudo e preparar um orçamento preliminar e um conceito. Acho que em dois dias terei uma apresentação pronta. E quanto ao local onde a cerimônia será realizada? Já escolheu alguma coisa? — Confio em você. Ela sorri. — Quero uma sala enorme e um terraço. É imprescindível. A cerimônia ao ar livre e um grande arco de flores naturais. — De rosas? — Exatamente. Cristina assente satisfeita e, em seguida, inclina-se para a frente e acrescenta inesperadamente: só uma coisa: o casamento tem que ser melhor que o da Tania Moroz. Você já ouviu falar dela? — Fui a organizadora. Sorri. — Isso é perfeito! Cristina aplaude. — Então você terá que se superar. Você conseguirá? — Claro. Rapidamente anoto o resto dos desejos de Cristina – uma fonte de champanhe, uma área lounge para convidados VIP, músicos ao vivo exclusivamente, um bolo de pelo menos cinco andares, preferencialmente com cristais ou imitações. Sei como tornar tudo isso realidade, é só uma questão de orçamento. E parece que não haverá problemas com isso. Com isso, nos despedimos. Elas saem com aquela confiança que só têm as pessoas acostumadas a obter tudo imediatamente. E eu fico na mesa, revisando rapidamente minhas anotações antes de ir embora também. Ligo o navegador, traço a rota para o complexo esportivo onde Daryna me espera, e ponho-me a caminho. Durante o trajeto, penso em uma única pergunta: como será o namorado da Cristina? Imediatamente, uma imagem se forma na minha mente. Obviamente, deve ser como ela: estético, rico, com bom gosto e, sem dúvida, influente. Um jovem empresário ou herdeiro de um grande negócio. Alto, em um terno caro, com um relógio que custa dezenas de milhares. Nada pode ser medíocre ao lado dela – tudo tem que ser perfeito junto a Cristina. Até o amor. E naquele momento, não sei por que, mas um nome surge na minha mente. Máximo Orlovsky. Lembro-me do dia do meu próprio casamento há seis anos. O dia que se tornou o pior da minha vida. Nunca mais vi Máximo depois disso. Mudei-me para outra cidade e lá nasceu minha filha. Há dois anos eu voltei para cá, mas ainda não o encontrei e não tenho ideia de como ele está vivendo. — Mãe! Daryna corre para mim quando entro no estacionamento do complexo. O seu cabelo molhado está preso em um ra*bo de cavalo, as suas bochechas estão rosadas e seu sorriso é o mais caloroso do mundo. A babá, Olga, a segue com a mochila da minha filha. Me agacho e a abraço forte. Inalo o aroma do seu cabelo e sorrio. — Como foi? Pergunto, soltando-a para abrir a porta traseira. Daryna sobe e senta-se no assento de segurança. A babá senta-se ao seu lado imediatamente. — O treinador me parabenizou. Sorri, minha filha. — E você? Você chegou à reunião? — Sim. Assinto e beijo seu cabelo. Segundo o plano, devo levá-las para casa e depois voltar ao escritório para inserir todos os desejos da Cristina no computador e poder fazer um relatório detalhado. — Amanhã você tem o dia livre? Pergunta minha filha enquanto vamos de carro. — Acho que sim. Reflito. — Se não surgir nada urgente. — Espero que não surja nada, porque quero ir ao cinema. Ela diz com seriedade, e o meu sorriso desaparece imediatamente. Trabalho muito, e às vezes me odeio por não dar à minha filha todo o amor que ela merece. Por isso, espero que amanhã possamos ir ao cinema. Conduzo em silêncio, ouvindo a voz da minha filha no banco de trás, e cada uma das suas palavras me atinge no lugar mais vulnerável. Sei que ela não se queixa. Só compartilha. Mas para mim, a frase dele é como um sinal de alerta. Um lembrete de que às vezes sou mais uma organizadora de festas alheias do que uma mãe para minha própria filha. — Prometo que, se não acontecer nada, nós vamos. Digo, virando-me para ela em um semáforo. — Terá pipoca, um filme e a mamãe será toda sua o dia inteiro. Daryna assente seriamente, como se estivesse ditando uma sentença. — Bem. Mas você já prometeu. E novamente percebo o quanto ela entende para seus cinco anos. Talvez demais. Em casa, ajudo rapidamente a babá a levar as coisas, beijo a minha filha, peço que ela assista um pouco de televisão ou brinque com suas bonecas, e volto para o carro. Pensamentos opressivos voltam a me assaltar enquanto estou sozinha, e é muito difícil lutar contra eles. Tentei não pensar em Máximo por seis anos. Não me lembrar daquele dia. Não me lembrar de como eu estava em pé no meu vestido branco ao lado do altar, enquanto ele me mostrava fotos falsas e ia embora. Não me lembrar como minha melhor amiga saiu do quarto dela. Não me lembro de como fugi, segurando a barriga, porque ali já batia um pequeno, quase imperceptível, mas muito vivo pulso de Daryna. Não sei se conseguirei olhar nos olhos dele se algum dia nos encontrarmos. E menos ainda sei se quero esse encontro. Ele me destruiu uma vez. E embora eu tenha mudado meu sobrenome, me mudado, reconstruído a minha vida do zero, ainda levo dentro de mim os fragmentos de mim mesma. Eu carrego o ressentimento que nada pode curar. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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