2- GABI

1314 Palavras
CAPÍTULO 2 GABI NARRANDO — Eu não vou! — gritei, com a garganta rasgando. — Eu não vou com vocês! Minha voz ecoou pela casa, mas ninguém ali parecia ouvir de verdade. Era como se eu estivesse gritando dentro de um buraco fundo demais pra alguém se importar. Um deles veio pra cima de mim rápido. A mão entrou no meu cabelo com força, puxando sem cuidado nenhum. A dor foi tão forte que meus olhos arderam na hora e um grito escapou de mim antes que eu conseguisse segurar. — Me solta! — eu me debatia, arranhando, chutando o ar. — Me solta! Meus pés escorregavam no chão enquanto ele me arrastava. Eu tentava me agarrar em qualquer coisa — na parede, na mesa, no batente da porta — mas minhas mãos não encontravam apoio nenhum. Atrás de mim, meu pai gritava. — Não! — a voz dele saiu desesperada, quebrada. — Por favor, não leva minha filha! Me dá um tempo! Eu pago! Eu juro que pago! O desespero dele cortava mais do que a dor no meu couro cabeludo. — Me dá só um tempo! — ele implorava. — Ela não tem culpa! É minha filha! Um dos homens se virou pra ele com ódio nos olhos. E sem pensar. Deu um soco. O barulho seco do impacto ecoou pela sala. Meu pai caiu de lado, a cabeça batendo na parede, o corpo mole no chão. — Agora já é tarde — o homem falou, frio. — Você já deu ela. A dívida tá paga. — Não! — eu gritei, chorando, sentindo o peito queimar. — Você não podia! Você não tinha esse direito! Meu pai gemia no chão, tentando se levantar, o rosto inchado, o sangue escorrendo pela boca. — Gabi… — ele chamou, a voz fraca. — Me perdoa… Aquilo me matou por dentro. — Pai… — sussurrei, sendo puxada com mais força. — Pai, por favor… Ninguém parou. Fui arrastada pra fora de casa. Pela porta que eu conhecia desde criança. Pela rua onde eu cresci. Pelo olhar distante dos vizinhos que fingiam não ver. O ar da noite bateu no meu rosto misturado com poeira, choro e medo. O carro estava parado ali, motor ligado, porta aberta como uma sentença. — Entra — mandaram. — Eu não vou! — gritei mais uma vez, já sem voz. Me empurraram. Meu corpo bateu no banco duro, e antes que eu conseguisse reagir, a porta fechou com força. O som do trinco foi alto demais. Definitivo demais. Do lado de fora, eu ouvi meu pai gritando meu nome. — Gabi! Minha filha! Pelo amor de Deus! Bati no vidro com as mãos tremendo. — Pai! — berrei. — Pai! O carro arrancou. A imagem dele ficou pra trás, caído no chão da própria casa, pequeno, derrotado, desaparecendo pela rua escura. O carro seguia rápido demais, e cada buraco da rua fazia meu corpo pular no banco. Dois caras iam na frente. Um dirigia com uma mão só no volante, a outra relaxada, como se aquilo fosse só mais uma corrida qualquer. O do lado dele tava com o fuzil atravessado no colo, a arma pesada, fria, apontada pro nada… e pra tudo ao mesmo tempo. Atrás, comigo, tinha outro. Ele não tirava o olho de mim. A arma dele também tava no colo, segura firme, dedo perto demais do gatilho. Toda vez que o carro balançava, o metal batia de leve, fazendo um som seco que entrava direto na minha cabeça. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza que eles conseguiam ouvir. Por um segundo — só um — eu pensei em abrir a porta. Me jogar daquele carro em movimento. Sumir no asfalto. Acabar com tudo ali. Mas a imagem veio inteira na minha mente: ou eu morria esmagada pelo impacto… ou ele atirava antes mesmo de eu conseguir colocar o pé pra fora. Eu não tinha saída. Olhei pros três. As roupas largas. Os olhares duros. As armas. Cara de bandido. Cheiro de perigo. E eu ali, no meio deles, sem saber nem respirar direito. O medo me paralisava. As lágrimas desciam sem barulho, escorrendo pelo meu rosto enquanto eu abraçava meu próprio corpo, tentando me proteger de alguma coisa invisível… e impossível. Criei coragem. — Vocês… vocês estão me levando pra onde? — perguntei, a voz saindo fina, quebrada, quase implorando. O silêncio durou só um segundo. O cara do banco da frente virou um pouco o rosto, um sorriso torto puxando o canto da boca. — Pro inferno — ele respondeu, rindo. A risada foi alta. c***l. Despreocupada. Os outros acompanharam, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo. Meu estômago revirou. A palavra ecoou dentro de mim como um aviso. Inferno. Eu virei o rosto pro vidro, vendo as luzes da cidade ficando pra trás, o asfalto dando lugar a ruas mais estreitas, mais escuras. Cada metro que o carro avançava era um pedaço da minha vida que ficava pra trás. Eu fechei os olhos com força. Eu senti quando o caminho mudou. O asfalto liso deu lugar a buracos, remendos malfeitos, subida íngreme. O carro perdeu velocidade, forçando o motor, e eu reconheci na hora. Santa Marta. Eu já tinha passado em frente à contenção centenas de vezes. Era ali que o ônibus fazia o retorno. Eu via de longe, sempre de longe. Nunca tinha passado daquilo. Nunca tinha subido. Agora eu tava ali. O carro virou, passando direto pela contenção. Meu coração afundou no peito. Tinha homens espalhados dos dois lados, alguns encostados no muro, outros sentados em motos, todos armados. Fuzil pendurado no peito, pistola na cintura, rádio chiando sem parar. Olhares seguiram o carro. Não eram curiosos. Eram de reconhecimento. O cara que dirigia diminuiu mais ainda, abaixou o vidro e fez um sinal com a cabeça. Não falou nada. Não precisou. Um dos homens do lado de fora respondeu do mesmo jeito, levantando a mão de leve, como quem autoriza a passagem. Aquilo me deu mais medo do que qualquer grito. O morro à noite era outra coisa. As luzes eram fracas, amareladas, penduradas em fios embolados que cruzavam o céu como teias. As casas subiam uma em cima da outra, coladas, apertadas, algumas só no tijolo cru, outras pintadas com cores desbotadas. Escadas surgiam do nada. Becos estreitos se abriam entre as construções, escuros demais pra ver o fim. Som tinha. Mas não era som de vida normal. Era funk distante batendo grave. Rádio estalando. Moto acelerando e sumindo. Gente falando baixo. Tudo parecia vivo… e em alerta. Eu me sentia pequena. Errada. Fora do lugar. O carro subia devagar, fazendo curvas fechadas. A cada esquina, mais homens. Mais armas. Mais olhares grudando em mim. Alguns nem disfarçavam. Seguiam meu rosto pelo vidro, avaliando, medindo, como se eu fosse uma coisa sendo entregue. Eu engoli o choro, mas ele continuava ali, preso na garganta. O cheiro mudou também. Cheiro de fumaça, de lixo, de comida fritando em algum lugar distante, misturado com pólvora velha. Um cheiro que não saía do nariz. Meu estômago embrulhou de novo. — Para… — sussurrei, quase sem som, sem saber pra quem eu pedia. Ninguém respondeu. O carro passou por uma área mais aberta. Tinha um movimento maior ali. Um bar improvisado, gente bebendo, música mais alta. Ninguém prestou atenção em mim. Ou talvez prestasse demais — mas fingia que não. Ali, eu entendi uma coisa que me deu um frio ainda maior: Naquele lugar, eu não era ninguém. Ou pior… eu era uma moeda de troca. O carro fez mais uma curva e subiu um pouco mais. As casas foram ficando mais espaçadas, maiores. O silêncio ali era diferente. Mais pesado. Respeitoso. O motorista diminuiu ainda mais a velocidade. — Chegamos — ele falou, simples, como se tivesse avisando que tinha parado numa padaria. Meu coração quase parou. Continua......
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