Pré-visualização gratuita 1- QUANDO TUDO ACONTECEU
CAPÍTULO 1
GABRIELA NARRANDO
Antes de tudo desandar… eu ainda era só a Gabriela.
Acordava cedo, com o barulho dos ônibus passando na avenida e o cheiro de café fraco invadindo a casa. A vida nunca foi fácil comigo — e eu aprendi isso cedo demais. Nossa casa não era grande, mas também nunca foi vazia. Tinha barulho demais, conversa atravessada, risada forçada e aquele silêncio pesado que vinha depois das brigas. Eu já tinha aprendido a reconhecer cada tipo de silêncio do meu pai.
Ele não era sempre r**m.
Um ano antes, eu tinha perdido minha mãe.
Câncer.
A palavra ainda doía como se fosse recente, porque, de certa forma, era. Um ano não é nada quando se perde alguém que era tudo. Ela adoeceu rápido, sofreu em silêncio e se foi deixando um buraco que nunca mais fechou. Depois que ela morreu, a casa ficou mais fria, mais vazia… e meu pai, mais perdido. Isso é o que mais dói lembrar. Teve tempo em que ele me carregava nos ombros, comprava pastel na feira e dizia que eu era a única coisa certa que ele tinha feito na vida. Nessas horas, eu acreditava. Queria acreditar.
Mas as coisas começaram a mudar quando ele perdeu o emprego.
No começo foi devagar. Uma conta atrasada aqui, outra ali. Depois vieram os telefonemas estranhos, sempre em horários quebrados. Ele atendia se afastando, falando baixo, olhando pra porta como se tivesse medo que alguém escutasse. Quando desligava, ficava com aquele olhar perdido, coçando a testa, andando de um lado pro outro.
— Tá tudo bem, pai? — eu perguntava. — Tá sim, Gabi. Coisa de adulto.
Coisa de adulto. Como se isso explicasse tudo.
Eu estudava de manhã e trabalhava à tarde. Tinha acabado de completar dezoito anos e já me sentia velha de tanto peso nas costas. Estava terminando o terceiro ano do ensino médio e não tinha luxo nenhum pra sonhar alto.
Trabalhava numa padaria, do outro lado da cidade. Acordava ainda no escuro, pegava dois ônibus e passava o dia entre fornadas de pão quente, cheiro de café forte e clientes apressados. Não ganhava muito, mas cada centavo fazia diferença. Não ganhava muito, mas ajudava como dava. Às vezes deixava de comprar alguma coisa pra mim pra pagar uma conta de luz, um gás, um mercado. Nunca reclamei. Porque depois que minha mãe se foi, eu virei adulta à força. Alguém precisava segurar a casa em pé — e esse alguém acabou sendo eu. Nunca joguei na cara. Porque, no fundo, eu ainda acreditava que a gente ia sair daquela.
Só que o problema não era só dinheiro.
O problema tinha nome, endereço e domínio.
Santa Marta.
Eu nunca tinha entrado no morro. Só passava perto, pegava ônibus ali perto da contenção e via os homens armados de longe, a movimentação estranha, as motos subindo e descendo sem parar. Todo mundo na cidade sabia: quem devia ali, não dormia em paz.
E meu pai… começou a não dormir.
As noites ficaram longas. Ele bebia mais. Chegava tarde. Às vezes nem chegava. Quando chegava, vinha com cheiro de álcool e desespero. Eu fingia que não via, fingia que não sentia o medo crescendo no peito.
— Pai, você tá se metendo em coisa errada? — perguntei uma vez, com a voz tremendo.
Ele levantou os olhos devagar, vermelhos, cansados.
— Não se mete, Gabriela.
Foi a primeira vez que ele me chamou pelo nome completo daquele jeito duro.
Ali eu entendi que tinha coisa grande escondida.
Mesmo assim, eu seguia minha vida. Trabalhava, estudava, sonhava pequeno — porque quem sonha grande demais se machuca mais quando cai. Meu sonho era simples: juntar dinheiro, sair de casa, alugar um cantinho só meu. Um lugar onde eu pudesse respirar sem medo de ouvir a porta bater forte de madrugada.
Tinha dias bons. Dias em que a gente ria vendo televisão velha na sala. Dias em que ele fazia comida e tentava ser o pai de antes. Eu me agarrava a esses momentos como quem se agarra a boias no meio do mar.
Até que os dias bons começaram a desaparecer.
Vieram os homens.
Não entraram na casa. Ficavam do lado de fora. Encostados no carro. Olhando tudo. Olhando pra mim.
— Quem são eles? — perguntei.
— Ninguém — meu pai respondeu rápido demais.
Mas ninguém não olha daquele jeito.
Meu estômago começou a embrulhar sempre que eu via um carro parado na esquina. Passei a mudar o caminho, a voltar mais cedo, a trancar a porta com mais cuidado. O medo virou minha rotina.
E o pior de tudo…
Era a sensação de que algo ia acontecer.
Algo grande.
Algo que ia mudar tudo.
Eu não sabia quando. Nem como.
Só sabia que a vida que eu conhecia tava por um fio.
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Saí da padaria já de noite, com o corpo doendo e as mãos cheirando a pão e café velho. O movimento tinha sido puxado naquele dia, e tudo o que eu queria era chegar em casa, tomar um banho e deitar. Peguei o primeiro ônibus ainda pensando nas contas que precisavam ser pagas e no quanto meu salário parecia pequeno demais pra tanta responsabilidade.
O segundo ônibus demorou. Fiquei no ponto observando a rua escura, o asfalto molhado da garoa fina e as pessoas indo e vindo com a própria pressa. Quando ele finalmente chegou, subi e sentei perto da janela, a cabeça encostada no vidro frio. A cidade passava borrada, e meu peito apertava com uma ansiedade sem nome.
Desci no ponto de sempre e comecei a subir a rua a pé. A ladeira parecia mais longa naquela noite. Cada passo vinha acompanhado de um pressentimento r**m, daqueles que fazem o coração bater fora do ritmo. A rua estava estranhamente silenciosa.
Quando cheguei em frente de casa, o mundo parou.
A porta estava aberta.
Meu primeiro impulso foi pensar que meu pai tinha esquecido, mas o medo veio rápido demais, forte demais. Dei dois passos pra trás, depois criei coragem e entrei.
Tinham homens dentro da minha casa.
Armados.
Encostados na parede, sentados no sofá, ocupando o espaço como se aquilo ali fosse deles. O cheiro de cigarro e tensão tomava tudo. Meu coração quase saiu pela boca.
— Pai? — minha voz saiu fraca.
Ele estava sentado numa cadeira, com o rosto machucado, o lábio cortado, o olho inchado. Meu estômago virou.
— O que vocês fizeram com ele?! — gritei, sem pensar.
Um dos homens riu de canto, um riso gelado.
— Fica na tua, mina.
Meu pai levantou a cabeça devagar, os olhos cheios d’água. Nunca vou esquecer aquele olhar. Era derrota. Era medo. Era culpa.
— Gabi… — ele murmurou.
Eu fui até ele, ajoelhei na frente da cadeira, segurando o rosto dele com cuidado.
— Pai, pelo amor de Deus, o que tá acontecendo?
Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse um peso impossível de carregar.
— Eu devo… — a voz falhou. — Devo muita coisa.
Um dos homens deu um passo à frente.
— A dívida venceu.
Meu coração disparou.
— Mas a gente paga! — falei rápido. — Eu trabalho, eu posso trabalhar mais, eu dou um jeito…
O homem me olhou de cima a baixo, sem pudor nenhum.
— Não é assim que funcionabas coisa no morro, gatinha.
Meu pai começou a chorar.
Chorar de verdade.
— Eu não tenho mais nada — ele disse, a voz quebrada. — Só tenho ela.
Meu corpo gelou.
— Pai… não — sussurrei.
Ele evitava me olhar.
— Ela é nova… — continuou, desesperado. — Nunca foi de ninguém. É virgem.
As palavras bateram em mim como socos.
— Pai, para! — gritei, sentindo o chão sumir sob meus pés. — Eu não vou a lugar nenhum! — gritei, me levantando de um pulo. — Vocês não vão me levar! Eu não sou coisa de ninguém!
Minha voz saiu quebrada, mas alta. Era medo misturado com desespero. Meu corpo inteiro tremia, mas eu me mantive de pé, na frente do meu pai, como se isso pudesse proteger nós dois.
Um dos homens me olhou devagar.
Devagar demais.
O olhar dele desceu pelo meu corpo como se eu não fosse gente. Como se eu fosse um pedaço de carne exposto no balcão da padaria onde eu trabalhava. Senti nojo. Senti vontade de vomitar.
— Olha só… — ele falou, com um sorriso torto. — O patrão pode até gostar, hein.
Meu estômago revirou.
— Eu não vou! — repeti, quase chorando. — Não vou pra lugar nenhum!
O outro homem bufou, impaciente, passando a mão pela arma na cintura.
— Tá perdendo tempo — ele disse, seco. — Mata logo o velho aí. Essa aí não vale dez mil.
Meu pai soltou um soluço alto.
— Não… por favor… — ele implorou, tentando se levantar da cadeira, mas as pernas não obedeceram. — Ela não tem culpa… não faz isso…
Eu me virei pra ele, o coração rasgando no peito.
— Pai… — minha voz saiu fraca agora. — O que você fez?
Ele chorava sem controle.
— Eu tentei… — balançava a cabeça. — Eu tentei dar um jeito… mas não consegui…
O homem que tinha falado do patrão deu um passo à frente e segurou meu braço com força. Doeu. Muito.
— Para! — gritei, tentando me soltar.
— Quietinha — ele rosnou no meu ouvido. — Se facilitar, dói menos.
Meu pai começou a gritar.
— Solta ela! Pelo amor de Deus, solta minha filha!
O outro homem apontou a arma pra ele.
— Cala a boca velho, antes que eu resolva isso agora.
Eu senti algo quebrar dentro de mim naquele momento.
Não era só medo.
Era a certeza.
A certeza de que eu tinha sido trocada. Negociada. Entregue pelo meu próprio pai!
Continua....