Capítulo 22

2092 Palavras
Raya Cinco meses se passaram desde que fui trazida para o céu. Cinco meses desde que deixei meu lar para trás, com a esperança de que, de alguma forma, voltaria. No início, cada dia parecia uma eternidade. Agora, mesmo que a dor não tenha passado, eu aprendi a sobreviver dentro dela. Hoje, estou caminhando pelas ruas da cidade celestial ao lado de Mikhail e Valkar. Nunca estou sozinha, é verdade. Mas pelo menos agora posso sair, posso respirar ar livre e ver as paisagens do céu, que são absurdamente belas, mesmo que não sejam minhas. A cidade é feita de um branco cintilante, com cúpulas douradas e estruturas que parecem flutuar entre as nuvens. Às vezes, penso que estou dentro de um sonho, ou de um quadro pintado com perfeição exagerada. — Se continuar se comportando assim, em breve vai poder andar sozinha, sem dois soldados a tiracolo — disse Mikhail, com um sorriso torto. — E talvez até usar roupas menos... celestiais. Olhei para ele com a sobrancelha arqueada. Estava usando um vestido azul pálido, longo e fluido, com detalhes prateados nas mangas. Era bonito, mas não era meu estilo. — O que você quer dizer com "menos celestiais"? — perguntei, fingindo estar ofendida. — Menos "princesa da bolha de cristal" e mais... você. — Ele gesticulou com as mãos, como se tentasse desenhar minha essência no ar. — Você parece uma fada engaiolada. — Eu estou engaiolada. — respondi, meio séria, meio brincando. Valkar caminhava ao nosso lado, silencioso como sempre. Percebi que ele observava Mikhail com o cenho franzido, mas não disse nada. — Uma fada com privilégios — completou Mikhail, empurrando levemente meu ombro com o dele. — Anda pela cidade, come nos melhores lugares, tem dois guias particulares. Estamos praticamente em uma excursão turística. — Ah, claro, uma excursão em que eu não escolhi o destino e sou vigiada o tempo inteiro. — Detalhes, detalhes... — disse ele, rindo. — Aposto que metade das cidadãs do céu dariam tudo para ter esse tratamento. Olhei para Valkar, que mantinha os olhos fixos à frente, como se quisesse ignorar a conversa. Ainda assim, vi o maxilar contraído e os olhos semicerrados. — Ele sempre fica assim quando você fala muito? — perguntei para Mikhail, mas em tom alto o suficiente para Valkar ouvir. Mikhail sorriu mais ainda. — Sempre. Ele tem ciúmes da minha simpatia. Mas também, não posso culpá-lo. Ser encantador é uma maldição que carrego com resignação. Revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso. Passamos por uma rua onde pequenas lojas flutuavam em plataformas douradas. Vendedores celestiais vendiam frutas translúcidas, livros encantados, artefatos de luz. Um aroma doce pairava no ar, algo entre lavanda e pîara. — Posso comprar algo? — perguntei, parando diante de uma barraca com pequenos globos de memórias. Dentro de cada globo, havia imagens que se moviam como sonhos. Valkar se aproximou. — Pode, desde que não seja perigoso ou proibido. E não interaja demais com estranhos. — Parece que você está falando com uma criança. — comentei. Mikhail riu. — Bem-vinda ao céu. Aqui, até os adultos precisam de babás. Peguei um dos globos. Dentro dele, havia uma cena de uma menina correndo num campo de flores, rindo. Meu coração apertou. — Lembra alguma coisa? — perguntou Mikhail, sutilmente. Assenti. —Minha quando minha mãe cuidava e me observava bricar, mas agora talvez eu nunca mais a veja. O sorriso dele diminuiu. Ele ficou em silêncio por um instante, como se respeitasse a memória. Valkar também pareceu mais quieto. Paguei pelo globo com a pequena quantidade de cristais celestiais que me davam para despesas. Guardei-o com cuidado. Continuamos andando. As nuvens abaixo da cidade brilhavam com a luz dourada do entardecer. Tudo parecia surreal. — Você já pensou em morar aqui de verdade? — perguntou Mikhail, inesperadamente. Virei para ele, surpresa. — Como assim? — Ficar. Aceitar ser cidadã. Criar uma nova vida. Parei de andar. Valkar também parou, ficando um pouco à frente. — Você fala como se fosse fácil esquecer tudo que vivi. — Não é. Mas talvez seja mais leve do que viver presa ao que perdeu. Valkar virou para nós. — Não devia plantar ideias assim. Isso não ajuda. Mikhail ergueu as sobrancelhas. — Só estou dizendo que ela tem opções. Não estou forçando nada. Valkar se aproximou, com o olhar firme. — Seu tom sempre parece brincadeira, mas eu conheço bem você. Sei quando está querendo testar os limites. Eles se encararam por um instante, e percebi que havia algo não dito entre os dois. — Está tudo bem. — interrompi. — Eu sei o que quero... e o que não quero. Mikhail relaxou um pouco. Valkar apenas assentiu. Seguimos em silêncio por mais um tempo, mas a leveza da caminhada não voltou. O peso da realidade sempre encontrava um jeito de se infiltrar até mesmo nos momentos mais simples. Mas, de algum modo, eu me sentia mais... viva. Mesmo com as correntes invisíveis, mesmo com os olhos sempre me observando, algo em mim ainda resistia. E enquanto resistisse, eu ainda seria eu. Ainda era Raya. E ainda havia esperança. (...) — Olha só, mais um anjo com uma capa que mais parece um manto de veludo. — Mikhail riu, olhando para uma figura esvoaçante à nossa frente, com uma capa que parecia brilhar sob a luz do sol. — Se eu usar uma dessas, vou parecer um druida tentando causar uma boa impressão no mercado. Eu revirei os olhos. Mikhail não mudava. Ele sempre encontrava humor nas coisas mais simples e, por mais irritante que fosse, ele conseguia me arrancar uma leve risada. Eu já começava a me acostumar com sua presença, embora eu sempre soubesse que ele estava tentando me fazer relaxar, algo que me era difícil. Valkar, por outro lado, estava em silêncio, sua postura rígida e os olhos observando atentamente tudo ao nosso redor. Ele não parecia se divertir com as piadas de Mikhail e, por isso, evitava qualquer interação mais descontraída. Às vezes, eu me perguntava como alguém com tanta disciplina podia viver no mesmo espaço que Mikhail sem querer se afastar. Mas talvez, se eu me esforçasse para entendê-lo, percebesse o quanto ele era mais complicado do que parecia. — Não sei como você aguenta. — Eu disse, virando-me para Valkar, tentando, de algum modo, quebrar o silêncio que ele mantinha com frequência. — Mikhail não pára de fazer piadas. Não fica entediado? Valkar deu uma olhada breve em Mikhail antes de responder com a habitual frieza em sua voz. — Se eu me distraísse com o que ele diz, perderia o foco. Tenho mais o que fazer do que dar atenção a brincadeiras. Eu suspirei, tentando não rir. Em muitos aspectos, ele tinha razão. O céu era, de fato, um lugar que exigia concentração e foco. Mas era um alívio poder ouvir risadas, mesmo que fossem apenas de Mikhail. Conforme caminhávamos pelas ruas ornamentadas do céu, cheias de pilares de luz e estruturas que pareciam flutuar, uma figura conhecida apareceu à distância. Vaelion. Ele estava em um canto, aparentemente esperando por nós, como se soubesse que iríamos passar por ali. Eu me senti estranha ao vê-lo. Ele era uma presença misteriosa, alguém que tinha sempre algo por trás dos olhos. Vaelion se aproximou de nós com passos calmos, e Mikhail, com seu sorriso largo, acenou para ele. — Vaelion! — Mikhail exclamou com sua energia habitual. — Veio fazer uma ronda ou você só está querendo bater um papo com a princesa? Não me diga que tem algum interesse secreto! (risos) Vaelion sorriu de volta, mas não com a mesma intensidade de Mikhail. Ele sempre tinha esse sorriso enigmático, como se soubesse algo que ninguém mais sabia. — Não, Mikhail, estou apenas cumprindo uma tarefa que me foi dada. — Vaelion olhou para mim com um leve aceno de cabeça. — Raya, como está? Eu olhei para ele, sentindo um frio na espinha. Vaelion tinha esse efeito em mim, algo em seu olhar parecia perceber mais do que eu queria mostrar. Talvez fosse sua habilidade de entender as pessoas, ou talvez ele apenas fosse mais atento ao meu comportamento do que eu gostaria. — Estou... bem, eu acho. — Respondi, tentando manter a compostura. — O que traz você por aqui? Vaelion hesitou por um momento antes de responder, parecendo pensar nas palavras que usaria. — Venho trazer uma mensagem para Valkar. — Ele então virou-se para o guerreiro que estava ao nosso lado. — Algo que você provavelmente já sabe, mas que deve ser lembrado. Valkar, que até então estava em silêncio, ergueu uma sobrancelha, parecendo ligeiramente incomodado. Seu olhar se estreitou, e ele se aproximou de Vaelion. — O que você quer dizer? — A voz de Valkar era séria, como sempre. Vaelion apenas manteve a expressão calma. — Amanhã é o seu aniversário, Valkar. O céu não costuma esquecer essas datas, e uma mensagem foi enviada. — Ele pausou, como se tivesse que garantir que suas palavras fossem cuidadosamente escolhidas. — Todos sabem da sua importância, mas essa data traz mais do que apenas uma celebração. Eu fiquei em silêncio, sentindo o peso da conversa. Não sabia ao certo o que aquela menção ao aniversário de Valkar significava, mas algo me dizia que havia mais por trás disso. Vaelion, como sempre, não parecia dar toda a informação de uma vez. Ele a dava aos poucos, como se quisesse observar nossas reações antes de revelar o que realmente estava acontecendo. Valkar não respondeu imediatamente. Ele apenas assentiu com a cabeça, como se já soubesse o que estava por vir, mas não fosse dar atenção ao que ele considerava irrelevante. — Vou lembrar. — Ele disse com sua voz profunda e impassível. Vaelion deu um leve sorriso, um sorriso que só ele conseguia fazer parecer misterioso, e então olhou para mim novamente. — A princesa está em boa companhia, parece. — Ele comentou de forma suave. — Espero que se sinta bem aqui. Sei que as coisas não são fáceis para você, mas o céu tem seus próprios caminhos. Eu fiquei olhando para Vaelion, um pouco perdida em seus olhos e em suas palavras. Havia algo nele que me desconcertava, algo que não conseguia entender. Ele parecia me observar o tempo inteiro, e eu não sabia se isso era algo bom ou r**m. — Não se preocupe, Vaelion. Eu estou aprendendo a me acostumar. — Respondi, tentando sorrir de forma tranquila, embora estivesse longe de sentir-me confortável. Mikhail deu uma risada, quebrando o silêncio que se seguiu. — Bom, parece que o céu está sempre cheio de surpresas. Não sabia que Valkar tinha um aniversário! Eu pensei que ele fosse eterno, ou algo assim. — Mikhail brincou, dando um tapinha nas costas de Valkar. — Vai fazer uma festa de aniversário, Valkar? Vai convidar todo mundo? Valkar olhou para Mikhail, e eu percebi que seu olhar estava um pouco mais rígido do que o habitual. Ele claramente não gostava da ideia de festas, celebrações ou qualquer coisa que envolvesse atenção em si mesmo. — Não há necessidade de festas, Mikhail. O céu tem sua própria forma de reconhecer as datas, e eu não preciso de celebração. — Valkar respondeu, sua voz já demonstrando sinais de cansaço. Eu fiquei em silêncio, sentindo que havia algo mais por trás da frieza de Valkar. Não era apenas sobre ele não gostar de festas. Ele parecia evitar qualquer tipo de atenção para si, e isso me deixava ainda mais curiosa. O que acontecia em sua mente? Quais eram os seus verdadeiros pensamentos? Eu sabia que ele guardava muitas coisas para si, e talvez essa fosse a razão de ele ser tão distante. Vaelion olhou para mim mais uma vez antes de se despedir. — Eu deixo vocês por agora. — Ele disse com um leve aceno de cabeça. — Nos vemos em breve, Raya. Valkar. Com isso, ele se afastou de nós, desaparecendo pela rua luminosa. Mikhail, como sempre, estava ansioso para fazer uma piada sobre o comportamento de Vaelion, mas eu estava absorta demais em meus próprios pensamentos. A menção do aniversário de Valkar me deixou com uma sensação estranha, como se eu tivesse esbarrado em algo importante, mas que não conseguia entender completamente. Eu sabia que Valkar não queria comemorar sua data, mas algo no comportamento de Vaelion me dizia que essa data tinha um significado maior do que eu podia imaginar. O céu estava cheio de mistérios. E eu... talvez nunca fosse realmente capaz de compreender todos eles.
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