Capítulo 21

1053 Palavras
Raya O frio da noite não me incomodava. Eu me sentia tão vazia por dentro que nada do que vinha de fora era capaz de me afetar. Me escondi dentro do labirinto do jardim. Era um lugar silencioso, quase esquecido, com trepadeiras grossas e altas que escondiam os caminhos como se quisessem proteger os sentimentos de quem se perdia ali. E eu estava perdida. Abracei minhas pernas e encostei o rosto nos joelhos. As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo de perceber. Um soluço escapou, e então o próximo... e o próximo... Tentei me calar. Mas estava sozinha. E por isso, deixei que a dor saísse. Chorei. Chorei tudo o que segurei desde que fui trazida para cá. Chorei a ausência do meu pai, do toque firme da minha mãe quando me penteava os cabelos. Chorei o silêncio onde antes havia as gargalhadas dos meu irmão. Chorei meu quarto, a janela com a vista para a montanha, o cheiro da minha casa. Meu lar. Será que eu veria tudo isso novamente? Me deitei na grama gelada, com o vestido dourado espalhado em volta do meu corpo. Meus cabelos longos e escuros se espalharam no chão, e eu olhei para o céu. O céu noturno, incrivelmente estrelado, calmo... e indiferente à minha dor. — Eu só queria voltar... — murmurei. — Só voltar... Um passo leve sobre a grama me fez fechar os olhos. — Está tudo bem? Reconheci a voz imediatamente. Grave, contida, sempre tentando soar distante, como se emoção fosse algo que ele guardava trancado num cofre. Valkar. Não respondi. Apenas virei o rosto para o lado oposto, limpando discretamente as lágrimas, embora ainda escorressem novas. — Se tem algo que eu possa fazer — ele continuou — poderia falar. Uma convidada não deveria ficar chorando pelos cantos... Vai parecer que estou torturando você. E eu não quero levar sermão por bobagem. Cuido de você muito bem. Ri com ironia, sem olhar para ele. — Não cuida, não. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse, calmo: — Mas tenho razão. Pega m*l pra mim. Suspirei, fechando os olhos com força. — Vou voltar para casa em algum momento? Vou ver minha família de novo? Vou poder voltar a morar no meu lar? Minha voz saiu falha, quase sussurrada. Mas ele ouviu. Valkar se aproximou devagar. Sentei-me parcialmente, com o rosto ainda meio virado, encarando apenas a grama ao meu lado. — Provavelmente, o céu não permitirá — respondeu, direto, como eu esperava. — Vão tentar de tudo para manter você aqui. Não como uma prisioneira, já que agora já colocaram você como convidada. Depois... como cidadã. E, por fim, vão tentar prender você aqui de vez. — Como? — Fazendo com que alguém a reivindique como esposa, provavelmente. Um casamento sela vínculos políticos. E se filhos nascerem... bom, aí o vínculo é eterno. Fiquei alguns segundos em silêncio. Tentei imaginar isso. Casar com um celestial. Ter filhos aqui. Ficar presa numa vida que não escolhi... que me tiraram. — Mas podem me obrigar a isso? — Se você se aproximar muito de alguém... ou se deitar com um homem, sim. Virei o rosto para ele, confusa. — Como assim? — Alguns seres divinos são virgens. E a perda da pureza, para muitos aqui, obriga o indivíduo ao casamento. Principalmente se houver... envolvimento físico. E pelas informações que recebemos, você é virgem. Senti o rosto esquentar. Por vergonha, por raiva, por exposição. — Então, se eu continuar virgem... posso evitar isso? — Exato. Não perca sua pureza. E não será obrigada a casar. Virei totalmente para ele, sentando sobre os joelhos. As lágrimas haviam secado, mas a angústia continuava. — Isso é tão... antiquado. — O céu não é o inferno, Raya. Aqui toda ação tem consequências. — E você? — perguntei, antes de pensar. — Você é virgem? Ele ficou em silêncio. Seu corpo enrijeceu um pouco, e os olhos se desviaram para o céu. — Vai fugir da pergunta? — Não vejo como isso é relevante. — Você tem vergonha? Valkar me olhou com um certo incômodo, o maxilar contraído. Depois de alguns segundos, respondeu: — Tenho vergonha de não ser. Fiquei surpresa. Ele suspirou e sentou na grama, ainda mantendo uma distância respeitosa entre nós. — Já tive... algumas relações. Não muitas. Mas o suficiente para... não me considerar totalmente divino. O céu valoriza a pureza. E às vezes eu... falhei com esse ideal. — Isso é ridículo. — disse, cruzando os braços. — Achar que sexo tira sua divindade. Isso é uma ideia absurda. — Pode ser. Mas aqui, não é visto como absurdo. É uma quebra. Uma marca. Toda ação deixa vestígios no céu. E os nossos corpos e almas são reflexos do que fazemos. — Que lógica cruel... Ele me observou por alguns segundos, e então falou com um tom mais suave: — Você fala como alguém que cresceu entre fogo e liberdade. Aqui, tudo é... mais pesado. Mais contido. Mais vigiado. — Então você acredita mesmo que, se eu me envolver com alguém, vão me prender aqui? — Sim. É a maneira mais eficiente de selar uma aliança. O céu pode pregar sobre paz, mas nunca age sem estratégia. Você é uma peça importante agora. Se tiver valor... não vão te deixar escapar. Voltei a encarar o céu. As estrelas estavam tão bonitas. E tão distantes. — E se eu não quiser ninguém? Se eu só quiser... ficar sozinha? — Vão tentar te convencer. Vão tentar fazer você ver “vantagens”. Mas você pode resistir. Pode se proteger. — Sozinha? Ele hesitou antes de responder. — Se precisar... posso garantir que ninguém se aproxime de você sem permissão. Virei o rosto, encarando-o. Havia sinceridade em seu olhar. Um tipo estranho de proteção. Quase... carinho. — Vai me proteger, então? — Se isso for o que te mantiver livre, sim. Um silêncio caiu entre nós. Um silêncio pesado, mas confortável. Pela primeira vez, Valkar não parecia uma muralha. Ele parecia um homem. Alguém que, como eu, carregava fardos demais para admitir. — Obrigada — sussurrei. Ele apenas assentiu. E continuamos ali. Dois estranhos unidos pelo medo do que o céu era capaz de fazer. E pela vontade de ainda escolher nosso próprio caminho. Ele realmente não é a muralha fria que eu imaginava.
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