Raya
Havia algo diferente na manhã. O tipo de silêncio que não era de paz, mas de expectativa. Como se o castelo inteiro estivesse esperando que algo acontecesse.
Eu caminhava devagar pelos jardins suspensos. A brisa fria carregava o aroma suave das flores celestiais, e as folhas dançavam no ritmo calmo do céu. Era bonito ali — bonito demais, às vezes. Como se a beleza fosse uma prisão disfarçada.
Desde a chegada da carta, a forma como me olhavam mudou. Antes, era como se eu fosse uma ameaça prestes a explodir. Agora, era como se eu fosse um enigma que não sabiam decifrar. E enigmas... atraem curiosos.
Mikhail era um desses.
Ele apareceu ao meu lado como uma sombra que ri.
— Que bela convidada temos aqui — disse ele, com um sorriso torto.
Virei o rosto devagar, tentando manter a expressão neutra. Ele sempre chegava assim, com palavras leves e olhos que pareciam saber demais. Eu nunca sabia se ele estava brincando... ou testando.
— Ainda se acostumando com o título novo? — perguntou, dando dois passos à frente e abrindo os braços como se estivesse apresentando o céu inteiro para mim. — "Convidada". Que mudança, não? Muito mais elegante que “prisioneira”.
— Não muda muita coisa, no fundo — respondi. — Ainda estou presa aqui.
— Mas sem correntes. — Ele inclinou a cabeça, os olhos azuis brincando com a luz do sol. — E isso significa liberdade o suficiente para... passeios. Conversas. Companhia.
— Companhia? — arqueei a sobrancelha. — Está me oferecendo a sua?
— Por que não? — disse, teatral. — Sou ótimo em monólogos dramáticos e conheço todos os atalhos do castelo. Além disso, dizem que meu sorriso pode amolecer até os corações infernais.
— Não aposte muito nisso.
Ele riu, leve.
— Tão fria. Preciso trabalhar melhor nisso.
— Não precisa trabalhar em nada. Só estou tentando entender por que tanto interesse agora.
Mikhail deu de ombros.
— Curiosidade. Você é um mistério. E eu adoro decifrar coisas misteriosas. Além disso... — ele se aproximou, a voz baixando. —... todos parecem tão tensos perto de você. Acho divertido ver o caos sutil que causa só por existir.
Olhei para ele por um instante. Havia uma leveza real em sua voz, mas também algo mais. Como se ele dissesse uma coisa... enquanto pensava em outra.
— Você não tem medo de se aproximar de mim?
— Medo? — ele piscou. — Raya, eu tenho medo de poucas coisas. E nenhuma delas tem seus olhos azuis.
Sorri de canto, mas não respondi. Apenas continuei andando, e ele me acompanhou.
Mas nem todos estavam contentes com isso.
Valkar nos encontrou pouco tempo depois, parado no final do caminho de pedras. Seus braços cruzados, a expressão dura como uma estátua de guerra. Mikhail desacelerou o passo ao vê-lo, mas não parou.
— Valkar — disse ele, com um aceno descontraído. — Também veio passear?
— Uma palavra, Mikhail — respondeu Valkar, ignorando completamente a tentativa de leveza.
Mikhail suspirou, rolando os olhos com exagero antes de se virar para mim.
— Me dá licença por um segundo, princesa. Prometo não demorar.
Ele seguiu com Valkar por alguns metros até estarem fora do meu alcance de audição. Mas não estavam tão longe assim. E eu, parada ali, com os ouvidos atentos, consegui captar mais do que eles imaginavam.
— Está brincando com fogo — disse Valkar, a voz baixa, mas firme.
— Ela não é mais uma prisioneira, lembra? — respondeu Mikhail, calmo. — O próprio Conselho a reclassificou. Agora ela é uma convidada. Estou apenas... sendo educado.
— Você está provocando. E sabe disso. Não precisa se aproximar tanto.
— Ah, Valkar... — Mikhail deu uma risada curta. — Você sempre tão preocupado. Acha mesmo que estou tramando algo contra você? Contra o céu?
— Não confio nela. E não confio em você perto dela.
— Está com medo que eu a influencie? Ou está com medo do contrário?
Houve uma pausa.
E então Mikhail continuou, com a voz mais baixa, mais séria:
— Você acha que o Conselho mandou aquela carta só por boa vontade? Só por diplomacia? Eles estão preparando o terreno. Se ela ficar aqui tempo suficiente, se o povo aceitá-la, se ela se comportar... quem diz que não vão oferecer algo mais? Um título, uma função. Talvez... até um vínculo.
— Vínculo?
— Você sabe do que estou falando. — Mikhail se aproximou mais. — Se ela se tornar parte daqui de maneira oficial, Valkar... você sabe o que isso significa. Ela não vai mais poder sair. Vai ser parte do céu. E se isso acontecer... Asura não poderá reclamá-la sem começar uma guerra. Talvez seja isso que os superiores querem. Uma jogada mais ousada. Uma prisioneira que vira convidada. Uma convidada que vira cidadã. Uma cidadã que vira...
— Chega — cortou Valkar.
Eu não consegui ouvir o resto. Eles se afastaram um pouco mais, as vozes baixando até sumirem. Mas já era o suficiente para fazer meu peito apertar.
Então era isso.
Eles não me queriam aqui apenas por piedade. Era uma jogada. Uma peça de xadrez. Se eu me comportasse bem... se eu fizesse tudo certo... poderiam me usar como símbolo. Como ferramenta. Como... isca.
Mikhail voltou minutos depois, o mesmo sorriso no rosto. Mas seus olhos tinham uma nova camada de seriedade.
— Desculpa a interrupção. Valkar sempre tão... dramático.
— Ele está certo em parte — disse, cruzando os braços. — Você está se aproximando por diversão... ou por ordem?
Ele me encarou por um segundo, depois sorriu.
— E se eu dissesse que é um pouco dos dois?
— Eu não sou uma peça de tabuleiro, Mikhail.
— Claro que é. — ele respondeu, sincero demais. — Todos nós somos.
Eu me afastei um pouco dele. A leveza da conversa se dissipava.
— Você acha mesmo que eles vão tentar me manter aqui?
— Se for vantajoso, sim. É assim que o céu age. E o inferno também. O que importa é o equilíbrio. Se sua presença aqui trouxer estabilidade, eles farão o possível para que você fique.
— Mesmo que eu não queira?
— Você tem escolha. — Mikhail deu de ombros. — Mas até as escolhas aqui são vigiadas.
Houve um silêncio entre nós.
Então ele completou, mais suave:
— Mas não se preocupe agora. Eu só vim dizer que... se um dia precisar de alguém que não esteja tentando te controlar, me procure. Às vezes, só conversar ajuda.
Eu não respondi. Apenas observei enquanto ele se afastava, com aquele andar relaxado e provocador. Como se o mundo todo fosse um espetáculo, e ele o mestre de cerimônias.
Fiquei ali, sozinha outra vez. Os jardins pareciam mais silenciosos agora.
Sim, eu era uma convidada.
Mas era uma peça. E alguém estava movendo o tabuleiro com muito cuidado.