Raya
O céu estava cinza, como se o mundo segurasse a respiração antes de uma tempestade.
Os corredores do castelo celestial pareciam mais frios naquela manhã. Talvez fosse o vento que soprava pelas aberturas nas colunas, ou talvez fosse a presença dele. Sempre que Vaelion caminhava pelos corredores, era como se a luz hesitasse, as paredes se retraíssem, e até o tempo parecesse desacelerar.
Eu estava no pátio de treinamento, observando Valkar comandar uma troca de guardas. Sua voz era firme, clara, autoritária. Era o tipo de homem que mantinha tudo sob controle, mesmo quando o mundo parecia desmoronar em volta dele. Mas nem mesmo Valkar conseguia disfarçar o incômodo quando Vaelion se aproximava.
E foi exatamente o que aconteceu.
O som das botas negras sobre o mármore ecoou como um aviso. Vaelion atravessou o pátio com a postura impecável de quem sabe que está onde não é bem-vindo — e não se importa.
Em sua mão, um pergaminho selado com o símbolo do Conselho Superior.
Valkar ergueu o olhar ao notá-lo. Eu continuei sentada em silêncio, próxima aos degraus, fingindo desinteresse. Mas dentro de mim, tudo se acendeu. Havia algo naquele pergaminho. Algo que me dizia respeito. Eu sabia. Sentia.
— Valkar. — A voz de Vaelion era calma, fria. — Chegou esta manhã. Direto dos superiores.
Ele estendeu o pergaminho com uma lentidão quase teatral. Valkar não respondeu de imediato. Apenas desceu os últimos degraus e pegou o envelope selado das mãos de Vaelion, que não se moveu.
Ficou ali, imóvel. Observando.
Eu o encarei discretamente. Seus olhos estavam cravados no selo intacto, como se esperasse... algo. Como se quisesse que Valkar o rompesse ali, na frente dele.
Mas por quê?
Se ele tivesse lido, o selo estaria quebrado. Mas não estava. O lacre dourado brilhava sob o sol pálido. Intacto. Isso significava que nem mesmo Vaelion sabia o conteúdo. E pela maneira como ele observava — com aquele leve apertar de lábios, os olhos quase estreitos de curiosidade disfarçada —, eu percebi:
Ele queria saber. Mas não podia.
— Obrigado. — disse Valkar por fim, com rigidez. — Pode voltar às suas tarefas.
Vaelion inclinou a cabeça levemente, como se aceitasse a ordem com um gosto amargo. Mas não argumentou. Virou-se e se afastou com a mesma elegância silenciosa com que chegara.
Valkar não disse nada até que Vaelion desaparecesse pelo corredor.
Só então, rompeu o selo.
Eu me aproximei devagar, mas não perguntei nada. Ele sabia que eu queria saber. Ele sabia que eu sabia que aquilo dizia respeito a mim. E mesmo assim, não disse nada por alguns segundos.
A leitura foi rápida, mas intensa. Seus olhos percorriam cada palavra como se buscassem alguma armadilha. O maxilar dele ficou rígido. As mãos firmes segurando o papel, mas sem rasgá-lo.
— Valkar? — perguntei baixinho.
Ele suspirou. E, pela primeira vez em dias, me olhou de uma maneira que não era desconfiança. Nem fúria. Nem obrigação.
Era... dúvida.
— A carta fala sobre você. — disse, por fim.
— Eu imaginei.
Ele hesitou, depois estendeu o pergaminho para mim.
— Pode ler.
Peguei o papel com cuidado. Os símbolos celestiais brilhavam em tinta dourada, e o idioma... não era o infernal, nem o dos homens. Era a linguagem pura, a dos anjos mais antigos. Mas eu conhecia o suficiente.
*"A princesa infernal, Raya, filha de Asura, não deve ser tratada como uma prisioneira, mas como uma convidada sob observação. O Conselho Supremo reconhece o valor da paz, e não deseja acender nova guerra entre os reinos.
Seu comportamento será avaliado cuidadosamente. Se ela demonstrar respeito, controle e desejo de coexistência pacífica, poderá ser considerada cidadã honorária até que um acordo mais permanente seja decidido.
A paz é o objetivo. O ressentimento é o inimigo. Agir com honra é o dever de todos os lados."*
Demorei um pouco para absorver tudo.
Convidada.
Não prisioneira.
Era como uma pedra sendo tirada do peito... e substituída por outra, diferente. Mais leve, sim. Mas ainda pesada de significado. Isso não era só sobre mim. Era sobre o inferno e o céu. Era sobre política. Sobre o medo de uma nova guerra.
E, de alguma forma, eu era o campo onde esse jogo seria jogado.
Valkar cruzou os braços, observando minha reação.
— Parece que o Conselho tem planos maiores que seus próprios caçadores de demônios. — ele murmurou, olhando para o ponto onde Vaelion desapareceu.
— Ele não sabia o que dizia a carta, não é?
— Não. Se soubesse, teria agido de outra forma. Provavelmente já teria usado isso contra mim, ou contra você.
— Ele queria saber... estava curioso.
— Vaelion é muitas coisas, mas submisso não é uma delas. O que o segura é o selo do Conselho. Ele não ousaria romper sem autorização.
— E agora?
Valkar respirou fundo.
— Agora você não está mais em uma cela. E eu sou obrigado a te chamar de “convidada”.
— Isso muda muita coisa?
— Muda o peso das correntes invisíveis. Antes, você era um perigo. Agora, é uma responsabilidade.
Guardei o pergaminho dobrado nas mãos. Meus dedos tremiam levemente, mas segurei firme.
— O que você vai fazer?
— Cumprir a ordem. — ele disse, virando-se. — E rezar para que você não me dê motivos para me arrepender.
Fiquei ali, parada, por um tempo.
O céu começava a abrir. Um pequeno raio de luz atravessava as nuvens, dourando as torres mais altas do castelo. E pela primeira vez desde que cheguei, senti que talvez... só talvez... eu não estivesse completamente perdida ali.
Mais tarde naquele dia, quando Vaelion me encontrou pelos corredores, seu olhar era afiado como uma lança.
— Já leu a carta, suponho. — disse, sem rodeios.
— Li. — respondi.
Ele me estudou com os olhos. Como se estivesse tentando ler algo por trás do que eu não dizia. Como se meu silêncio fosse mais interessante do que qualquer palavra.
— Parabéns. Agora é oficialmente uma “convidada”.
— Incomoda você?
— Não. Só torna tudo mais... delicado.
— Você queria me ver algemada até o fim dos tempos, não é?
— Não. — ele disse, se aproximando. — Eu só não gosto de jogadas políticas. Elas tiram a glória da verdade.
— E qual seria a verdade, Vaelion?
Ele sorriu, frio.
— Que você pertence ao inferno. E o céu deveria lembrar disso.
— Talvez o céu esteja cansado de guerras. Talvez queira algo novo.
— Ou talvez esteja ficando fraco.
— Ou talvez esteja evoluindo.
Ele deu um passo para o lado, deixando espaço para eu passar.
— Aproveite sua estadia, princesa. — disse ele, com veneno doce na voz. Mas não se engane. Aqui, até os convidados podem cair... se tropeçarem.
Caminhei por ele com a cabeça erguida.
Sim. Eu não era mais prisioneira.
Mas também não era livre.
E em lugares como aquele... às vezes, os convidados estavam em mais perigo que os condenados.