Capítulo 18

1306 Palavras
Raya A presença dele era como uma tempestade silenciosa atravessando os portões do castelo. Vaelion. O nome soava como lâmina e fumaça. Ele apareceu pouco depois do amanhecer, com o céu ainda coberto por nuvens que não sabiam se queriam chover ou queimar. Sua chegada não foi anunciada por trombetas ou sinos — apenas pelo silêncio repentino que caiu sobre os corredores do castelo celestial quando seus passos ecoaram pelo mármore branco. Eu o vi antes mesmo de todos perceberem. Estava sentada em um dos balcões internos, observando a movimentação dos anjos. O brilho de sua armadura n***a se destacou entre os tons dourados e prateados do restante. Sua capa longa arrastava-se atrás dele como sombra viva, e os olhos... Os olhos eram os mesmos da última vez que o vi: frios, inteligentes, e letais. Vaelion está aqui. E isso, por si só, significava problemas. Não me movi. Não disse uma palavra. Apenas acompanhei o avanço dele pelo corredor, e vi quando Valkar apareceu, vindo da ala oposta. Duas muralhas prestes a colidir. Valkar não recuou. Não hesitou. Seus passos firmes encontraram os de Vaelion no centro do saguão, e por um momento o mundo pareceu prender a respiração. Eu sabia que os dois se detestavam. Não por algum motivo banal, mas por ideologias, métodos e feridas que ninguém mencionava em voz alta. — Vaelion. — A voz de Valkar cortou o silêncio como uma lâmina sendo desembainhada. — Guerreiro celeste. — Vaelion respondeu, com aquele tom carregado de sarcasmo e superioridade. — Ainda de pé? Pensei que já tivesse se curvado ao peso das regras que tanto defende. — Eu me curvo apenas à honra. Algo que você parece ter esquecido. O choque não foi físico, mas o impacto reverberou no ar. Todos que estavam por perto — soldados, servos, até mesmo alguns anjos de alta patente — se afastaram discretamente. Como se pressentissem que aquilo poderia explodir a qualquer momento. Eu continuei sentada, em silêncio. Se tivesse um pouco mais de bom senso, teria saído. Mas algo em mim precisava ver aquilo. Entender esses dois. Vaelion era uma presença imensa, arrogante, quase sobrenatural. Valkar, por outro lado, era a muralha impenetrável. Eles eram lados opostos de uma mesma moeda — poderosos, perigosos e feridos demais para fingirem civilidade. — Vim por ordem direta do Conselho Superior, — disse Vaelion, puxando um pergaminho de dentro da capa e erguendo para que Valkar visse. — Há suspeitas de corrupção dentro dos próprios guardiões celestiais. Um demônio infiltrado. Talvez... alguém como você esteja facilitando a estadia dela aqui. Meus músculos se retesaram. Ele estava falando de mim. Mesmo sem me olhar, eu sabia. Sentia o peso da insinuação cravar em minhas costas como punhal envenenado. Valkar não respondeu de imediato. Ele estendeu a mão, pegou o pergaminho e leu com calma. Cada palavra parecia pesar mil quilos. Por fim, ele o enrolou de novo e devolveu. — Se você veio para investigar, faça seu trabalho. Mas saiba que enquanto eu for responsável por este setor do castelo, sua arrogância não será maior que a ordem. E ninguém será tocado sem provas. — Eu não toco. Eu elimino. Quando necessário. — Que bom que estamos alinhados. Mas você não decide o que é necessário aqui. — Não ainda. — Vaelion sorriu de lado. Um sorriso que não aquecia. Que apenas ameaçava. — Mas talvez em breve. A tensão ficou insuportável. Era como se o próprio tecido do plano celestial estivesse sendo puxado, prestes a se romper. E então... — Eita, e eu achando que era cedo demais pra drama... — Mikhail. A figura esguia e relaxada surgiu ao lado do pilar, mordiscando uma maçã celestial como se nada de relevante estivesse acontecendo. Usava uma túnica azul aberta no peito e as sandálias mais inadequadas para o clima celestial. — Juro que acordei com barulho de trovão e pensei: “deve ser o Valkar dando bronca em mais alguém.” Mas não, era só a batalha de egos matinal mesmo. Vaelion lançou um olhar rápido para ele, mas Mikhail parecia imune. — Que bom te ver também, Vaelion. Continuando com esse ar de “vim pra prender gente e irritar o ambiente”? — Mikhail. Ainda vivo? Impressionante. — Sempre. A alegria me preserva. — Mikhail sorriu, deu uma mordida e apontou com a maçã. — Só toma cuidado pra não tropeçar na própria importância. Os degraus daqui são traiçoeiros. Eu mordi o lábio para conter a vontade de rir. Não por desrespeito. Mas porque era isso que Mikhail fazia. Ele desmontava bombas prestes a explodir com sarcasmo, charme e uma pitada de loucura. E às vezes... funcionava. Vaelion virou-se, ignorando o comentário, e seguiu adiante pelos corredores. Valkar permaneceu onde estava, com o maxilar tenso e os punhos cerrados. Ele odiava isso. A autoridade de Vaelion, o tom acusador, a maneira como ele podia simplesmente entrar e lançar suspeitas. Mas não podia confrontá-lo além do necessário. Vaelion estava autorizado pelo Conselho. Isso limitava até mesmo os anjos mais influentes. — E então, — Mikhail falou, se aproximando de mim agora — você se divertiu com o teatrinho? — Eu só... assisti. — murmurei. — Boa escolha. Se tivesse aberto a boca, talvez já estivesse em alguma cela improvisada. — Você acha que ele vai tentar me tirar daqui? — Acho que ele vai tentar deixar Valkar tão furioso a ponto de fazer algo errado. E usar isso como desculpa. — Mikhail jogou o caroço da maçã fora e piscou. — Mas você... fica na sua. O melhor escudo é o silêncio. E, às vezes, o sarcasmo. Mas esse é meu papel. — Obrigada, Mikhail. — Ah, não me agradeça ainda. — ele riu. — A coisa vai piorar antes de melhorar. Ele estava certo. Os dias seguintes foram sufocantes. Vaelion fez questão de estar presente em todas as reuniões estratégicas, rondava os corredores, avaliava os guardas, fazia perguntas sutis — e sempre olhava para mim de soslaio, como quem espera uma brecha para cravar a faca. Valkar, por outro lado, tornou-se ainda mais rígido. Seu tom de voz era sempre controlado, as palavras medidas como veneno sob a língua. Ele não confiava em Vaelion. Isso era óbvio. E fazia questão de demonstrar, mesmo que isso custasse sua própria paz. Uma tarde, os dois se enfrentaram de novo na sala de comando, na frente de todos. — Suas decisões são lentas, Valkar. O castelo pode estar vulnerável por causa da sua hesitação. — E as suas são precipitadas, Vaelion. Você age como se estivéssemos em guerra. Não estamos. — Ainda. O silêncio caiu como uma sentença. E foi aí que percebi. Vaelion não estava apenas atrás de uma desculpa para agir. Ele estava esperando a guerra. Desejava ela. Não sei por que. Não sei contra quem. Mas aquele tipo de homem... não sobrevive bem na paz. Naquela noite, encontrei Valkar sozinho na capela. As velas acesas lançavam sombras em seu rosto. Ele parecia exausto, mas não abatido. Nunca abatido. Fiquei na porta, sem entrar. Apenas observando. — Não precisa me vigiar até aqui. — falei, sem conseguir evitar. — Não estou te vigiando. — respondeu, ainda de costas. — Então... está rezando? — Tentando. — virou-se devagar. Seus olhos estavam mais suaves. — O silêncio ajuda. — Mesmo quando o inimigo está dentro do castelo? Ele ficou quieto por um instante. — Principalmente nesses momentos. Pensei em perguntar se ele estava com medo de Vaelion. Mas não era medo. Era algo mais profundo. Desconfiança. Raiva. Culpa? Mas não perguntei. — Você se sairia melhor se falasse menos, Raya. — ele disse. — Mas, hoje... foi bom ouvir sua voz. Fiquei ali, sem saber se aquilo era um elogio ou um aviso. Mas mesmo assim... me senti mais leve. E por um segundo, desejei que ele se sentisse também.
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