Capítulo 17

1049 Palavras
RAYA Eu estava no jardim, sentada em cima de uma pedra úmida, observando o céu acinzentado enquanto brincava com uma pequena flor que havia nascido em meio às pedras. Era frágil, mas teimosa, assim como eu. Cada segundo naquele castelo celestial parecia arrastar-se, como se o tempo aqui se recusasse a passar. O som das asas cortando o ar fez minha pele arrepiar. Asas... mas não eram como as do Valkar, que eu já reconhecia pelo ritmo e pelo peso. Essas eram diferentes. Eram muitas. Seis pares, como se o próprio juízo final tivesse resolvido fazer uma visita. Levantei os olhos e vi uma figura que fez meu corpo se enrijecer. Ele descia do céu com uma imponência silenciosa, as asas se abrindo como um manto celestial. Os cabelos brancos reluziam como prata pura e os olhos dourados brilhavam com uma intensidade que me fez desviar o olhar, instintivamente. Era como olhar diretamente para o sol. — Quem é aquele? — murmurei para mim mesma. Valkar surgiu logo em seguida, caminhando rápido, como se soubesse que algo sério estava para acontecer. Seus olhos estavam mais sombrios do que o normal, e o maxilar travado. — Irmão, não esperava sua visita tão cedo,— ele disse com um tom respeitoso, mas a tensão em sua voz era clara. O anjo dourado pousou suavemente no chão, como se a gravidade não se aplicasse a ele. Seus olhos se voltaram para mim, e senti um frio percorrer minha espinha. — Esta é a demonia?— sua voz era calma, mas tão firme que parecia ecoar dentro de mim. — Sim, ela é Raya. A prisioneira enviada pelas ordens superiores. Estou cuidando dela conforme instruído. Vaelion me olhou por longos segundos, como se estivesse julgando cada pecado que eu já havia cometido, mesmo os que eu preferia esquecer. Não disse nada, apenas andou até mim com passos suaves, mas cada um deles parecia abalar o chão ao meu redor. — Você sabe por que está aqui? — ele me perguntou. Engoli em seco. — Para pagar pelos meus pecados, eu imagino. — disse, firme, tentando disfarçar o medo. Ele ergueu uma sobrancelha. — Imaginar não é suficiente, demonia. Você não está aqui para ser redimida, mas para ser observada. Um movimento errado, uma palavra errada, e sua existência se encerra. Compreendido? Assenti, mesmo que meu orgulho gritasse para que eu o enfrentasse. Valkar se aproximou ligeiramente, como se quisesse interferir, mas não ousou. Vaelion o notou, e virou-se para ele. — Seu tom comigo está estranho, Valkar. A próxima vez que notar hesitação na sua voz, informarei diretamente aos anciões. Valkar apertou os punhos. — Estou apenas tentando manter a ordem. Ela tem sido obediente. Não houve tentativas de fuga. — Ainda assim, você a deixa andar livre demais. Vi quando ela o seguiu ontem às fontes termais. Congelamos. Meu coração quase parou. Como ele sabia disso? — Está me vigiando? — Valkar perguntou, a voz mais baixa, quase ofendida. Vaelion apenas o encarou. — Estou fazendo meu trabalho. A sua conduta não me escapa. Os dois se encararam. A tensão entre eles era palpável. Era como ver dois planetas prestes a colidir. Não era apenas irmandade ali. Era hierarquia, cobrança, orgulho ferido. Vaelion deu mais um passo para mim, me observando como se eu fosse um inseto sob uma lente. — Se você tiver algum plano oculto, se tentar seduzir meu irmão ou manipular sua mente, saiba que cortarei suas asas com minhas próprias mãos. Mesmo que você só tenha um par. O recado está dado? — Eu não sou uma manipuladora. Se eu quisesse seduzir alguém, não seria um anjo com tanta raiva dentro de si. — disparei antes que pudesse me conter. Valkar virou para mim, chocado. Vaelion permaneceu impassível, mas percebi algo. Um leve levantar de canto de lábios. Como se tivesse gostado da resposta. — Veremos,— ele disse apenas. — Ficarei por tempo indeterminado. Avaliarei sua conduta e a de meu irmão. Nenhum deslize passará despercebido. E então ele se virou e entrou no castelo, suas asas desaparecendo aos poucos enquanto ele caminhava. Valkar soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos. — Ele não devia estar aqui... — murmurou, mais para si do que para mim. — Por que você fica tão desconfortável perto dele? Ele hesitou antes de responder. — Porque ele me conhece demais. E não confia em mim. — Nem um pouco? Valkar balançou a cabeça. — Vaelion não confia nem nele mesmo. E ele é o tipo de anjo que destruiria o próprio sangue se achasse que isso garantiria a ordem. De repente, as regras frias de Valkar pareciam... compreensíveis. Ele estava sob pressão constante. Era vigiado. Avaliado. E eu... bem, eu era a variável perigosa nessa equação divina. Talvez eu devesse pensar duas vezes antes de provocá-lo tanto. Ou talvez, devesse provocá-lo mais. Afinal, se o inferno me ensinou algo, é que até os mais santos têm uma rachadura escondida. E eu queria muito saber onde estava a de Valkar, mas causar a destruição de alguém que até o momento não me fez nada não parece muito certo. Enquanto vejo Valkar caminhar em direção ao castelo, sigo ao lado dele, pois parece muito tenso, talvez uma conversa deixe ele menos m*l humorado. —vocês se parecem, mas seus olhos são diferentes, quero dizer, seus olhos são de um azul intenso e ele tem olhos dourados o que é até que comum para seres divinos— digo, mas ele me ignora e continua a seguir para o castelo, talvez devesse parar de comparar eles. Valkar —eu fiz tudo ao meu alcance para cumprir regras e missões, mas um Serafim sem todas as asas não pode ter um posição mais alta pelo que percebi, as aparências sempre são o que mais importam, olhos dourados passam a sensação de divindade, olhos azuis ou de qualquer outra cor, passam a sensação de humanidade. —o céu é realmente uma chatice. No inferno a hierarquia é por poder, força e inteligência, é isso você parece ter mais que ele— quando digo isso ele para de andar e se vira para encarar meu rosto. Valkar —não tente me corromper, Raya, isso não vai funcionar— estranho, não é o que seus olhos dizem.
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