Raya
Treinava sozinha nos jardins do castelo celestial, girando a adaga entre os dedos com destreza. Cada golpe era uma tentativa de libertar a angústia presa no peito. A cada movimento, imaginava estar cortando as correntes invisíveis que me prendiam àquele lugar. Não era meu lar, nunca seria. O Céu, com toda sua beleza e luz dourada, ainda assim era uma prisão.
Meus olhos buscaram, como sempre faziam, a silhueta imponente de Valkar. Ele caminhava com propósito por um dos caminhos ladeados por colunas de mármore. Não devia me importar, mas algo em mim sempre o seguia em silêncio. Ele era um enigma que eu ainda não havia decifrado.
Ontem à noite, Valkar passou horas repetindo regras como um monge velho e amargo. Criticou Mikhail abertamente, chamando-o de irresponsável, e lançou um olhar de reprovação a Seraphiel, que aceitou o plano de passeio mesmo sabendo que era arriscado. Segundo Valkar, Mikhail havia me levado por caminhos proibidos e isso poderia incitar os anjos mais radicais a desejarem minha execução.
—“Se quisessem te queimar viva, nem Mikhail seria capaz de impedir tantos anjos juntos.” — as palavras dele ecoavam na minha mente. Gélidas. Cruéis.
Não respondi nada. O que eu poderia dizer? Ele estava certo. Aqui eu era apenas uma prisioneira. Meu destino era seguir regras e fingir aceitação.
Engoli o nó na garganta. Eu não choraria. Chorar aqui seria me mostrar fraca — algo que Valkar não me permitiria ser.
Foi com esse silêncio interno que o segui, pés leves sobre a trilha do bosque. As árvores eram altas, com folhas que brilhavam como cristal sob a luz celestial. Era bonito. Bonito demais para alguém como eu.
Andamos até que o vi parar próximo a um lago envolto por rochas negras e avermelhadas. Um vapor subia da superfície — uma termal natural. Ele olhou em volta, conferindo se estava sozinho. Eu me escondi entre as árvores, assistindo em silêncio. Minha curiosidade crescia como chama alimentada por vento.
Para minha surpresa — ou horror — ele começou a tirar as roupas. Primeiro a túnica. Os músculos esculpidos se revelaram sob a luz suave, e então, cicatrizes. Três grandes marcas cruzavam suas costas, bem entre as asas restantes. Era verdade... Ele tinha apenas três pares de asas. As outras haviam sido arrancadas. Provavelmente em batalha, ou como punição. O pensamento me deu um arrepio. Perder asas era como perder a alma para um ser alado.
Tentei desviar o olhar. Mas falhei.
Ele tirou a calça, e junto com ela, tudo. Meu rosto queimou como fogo. Meus olhos, por mais que eu quisesse, não conseguiam evitar. Ele caminhou nu até a água e entrou lentamente, como se aquele lugar fosse o único onde ele se permitia ser... vulnerável. Ou humano.
As cicatrizes, o semblante relaxado, os cabelos brancos molhados... Tudo nele parecia menos divino e mais real ali.
Boatos sempre correram no Inferno sobre os anjos. Que eram frios, sem desejos, pequenos em suas... proporções. Valkar desmentia tudo aquilo. Ele parecia feito de pedra celestial, em forma e presença. Exageradamente impressionante para alguém que se dizia tão acima da carne.
Engoli seco, virando para ir embora. Mas então...
—A quanto tempo estava me espiando? — a voz dele cortou o ar como uma espada. Firme. Intimidadora.
Virei devagar. Ele continuava na água, mas me encarava com uma intensidade impossível de ignorar.
—Eu... não estava te espiando. Só... queria saber para onde ia. Não achei que fosse se banhar — disse, tentando não tremer na voz.
Ele se ergueu da água. Alto. Imponente. Nu. Meu corpo congelou.
—Está me encarando. Algum problema com isso? — perguntou, com um sutil tom de provocação.
Claro que havia um problema! Eu não sabia onde enfiar o rosto.
—Me desculpe por ver você assim. Eu... eu vou voltar ao castelo — tentei virar, mas sua mão agarrou meu pulso.
O toque foi firme. Frio, como sua aura. Ele me puxou de volta, fazendo-me encará-lo a poucos centímetros de distância. Senti seu corpo quente mesmo com a distância entre nós. O vapor da termal envolvia tudo, criando um clima surreal.
—Volte para o castelo. E arrependa-se dos seus pecados — sussurrou, sua voz baixa, mas afiada. — Talvez assim, esse seu sangue impuro tenha alguma chance de salvação.
Fiquei ali, imóvel. O olhar dele era duro, julgador... mas havia algo mais. Algo escondido nas profundezas daquelas íris azuis. Dor, talvez. Ou solidão. Não sabia ao certo.
—Você fala como se fosse melhor do que eu. Mas sabe de uma coisa? Não me arrependo de quem sou. Não me arrependo de ser do Inferno. Pelo menos lá, não escondemos quem somos — disparei, puxando meu braço de volta.
—O Inferno é um poço de luxúria e perdição. Você é o reflexo disso — retrucou, mas sua voz estava mais baixa agora. Quase... insegura.
—E você é o reflexo de algo que não vive mais. Um soldado ferido, que se esconde atrás de regras para não lidar com o que perdeu — minha voz saiu mais firme do que pensei ser capaz.
Ele me olhou como se eu tivesse desferido um golpe direto em sua alma. E talvez eu tivesse.
—Você não sabe nada sobre mim — murmurou, se virando e voltando lentamente à água.
—Então me conte — falei, surpresa comigo mesma. — Me diga por que só tem três asas. Por que odeia tanto quem sou. Por que parece carregar o peso do Céu inteiro nas costas.
Ele parou, mas não respondeu. Apenas mergulhou novamente até os ombros, como se a água pudesse apagar tudo aquilo.
Dei um passo para trás. Sabia que já tinha ido longe demais. Meu coração martelava no peito. Estava tremendo, de raiva, vergonha, talvez desejo.
Antes de sair, olhei uma última vez para ele. E percebi: havia rachaduras naquela armadura celestial. Valkar não era apenas um carcereiro. Era um homem partido.
Voltei ao castelo em silêncio. Sabia que aquele momento teria consequências.
E ainda assim... eu não me arrependia, eu sei que não deveria, mas gostei do que vi, e gostei da conversa com ele, pois de alguma forma, consegui o afetar mesmo que pouco.